Dentro do Segredo, Uma Viagem na Coreia do Norte, de José Luís Peixoto

Janeiro 2, 2013 § Deixe um comentário

9789897220609«Eu estava no desconhecido.
Guardamos os segredos ao lado de tudo o que não dizemos. Nesse grande sótão escuro há de tudo, há aquilo que não dizemos porque temos medo, porque temos vergonha, porque não somos capazes; há aquilo que não dizemos porque desconhecemos, ignoramos mesmo, apesar de estar lá, em nós. Os segredos não são assim. Eles estão lá, podemos visitá-los, assistir a eles, sabemos as palavras exactas para dizê-los e, muitas vezes, temos tanta vontade de conta-los. Mas escolhemos não o fazer.»

José Luís Peixoto, Dentro do Segredo, Uma Viagem na Coreia do Norte, Quetzal, 2012, p. 134

O Porto a quem chega de fora

Dezembro 21, 2012 § Deixe um comentário

Fotografia: Fernando Veludo

Fotografia: Fernando Veludo

«Do outro lado da rua, a Adega Alfredo Portista apareceu recentemente na televisão, dizem-nos, na apresentação do Grupo de Amigos das Adegas e Tascos do Porto. Hoje, o senhor Alfredo não está; está o filho, Paulo, por detrás do balcão, e a mulher, Conceição, na cozinha.  É meio da tarde, mas há quem coma bacalhau, ; no mostruário alinham-se panados, rojões, filetes, rissóis. Como santuário portista que é, o azul e branco fazem a decaoração, porém, Vitor Ventura, frequentador de há muito, assegura que todos são bem-vindos, independentemente “do clube e da política”».

«Alguém pediu um Porto à medida?», texto de Andreia Marques Pereira, Fugas, Público, Sábado 15 de dezembro de 2012

http://fugas.publico.pt/viagens/314063_alguem-pediu-um-porto-a-medida?pagina=3

Viagem, de Miguel Torga

Dezembro 5, 2012 § Deixe um comentário

torgaÉ o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…

Miguel Torga, in ‘Diário XII’

Contos do País dos Sufis, de Mojdeh Bayat e Mohammad Ali Jamnia

Novembro 28, 2012 § Deixe um comentário

«Assim que Xirin chegou a Mada’in, soube que o príncipe havia fugido.  Que deveria ela agora fazer? Por um lado, lamentava a sua vinda mas, por outro lado, não se atrevia a regressar e enfrentar a tia. Logo que o Rei Hurmuz foi informado da identidade da princesa arménia e das razões da sua chegada à Pérsia, tratou-a com a mais extremada cortesia, tendo ordenado que lhe fosse construída uma mansão nos domínios de Khusrau, próximo de Mada’in. Numerosas donzelas foram designadas para  a servir. E deste modo se instalou Xirin na sua nova e grande casa, com centenas de servidoras e um coração solitário.»

«Khusrau e Xirin», de Hakim Nizami in Contos do País dos Sufis, Mojdeh Bayat e Mohammad Ali Jamnia, Assírio & Alvim, 2002, p. 125

A viagem, João Cabral de Melo Neto

Outubro 17, 2012 § Deixe um comentário

Quem é alguém que caminha
Toda a manhã com tristeza
Dentro de minhas roupas, perdido
Além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
Como se levassem nos bolsos
Doces geografias, pensamentos
De além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
Vem morrer no longe horizonte
Do meu quarto, onde esse alguém
É vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
Coisas em voz que não ouço.
- Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

In “O engenheiro”, 1945.

Os Primos da América, de Ferreira Fernandes

Setembro 27, 2012 § Deixe um comentário

«Em 1965, Aurélio Ferreira deixou São Miguel para o Canadá. Em Montréal viveu sete anos. Juntou-se depois à família, entretanto vinda para Boston. Trabalhou para a TAP, no catering do aeroporto Logan. Entrou para a Boston Police Academy, em 1978, e foi o primeiro português que lá cursou. […]
Aurélio Ferreira ganhava quarenta e dois mil dólares por ano, tinha um mês de férias e direito a uma placa dentária e dois pares de óculos por ano, gratuitos. No caso de morte, em serviço, cem mil dólares; quarenta e cinco mil, se fosse fora de serviço. Se ficasse incapacitado recebia o ordenado por inteiro e sem descontos. A reforma era aos 55 anos.
Mostrou-me uma foto de quando era vocalista dos Ases do Ritmo, calças brancas, casaco aos quadrados e camisa aberta. Agradava-lhe o convívio de vedetas. Mostrou-me outras fotos com personalidades, a quem guardou as costas quando passaram por Boston: Mota Amaral, Mário Soares, Jerry Lewis e Chuck Norris. E ainda outra com um bostoniano célebre, Ted Kennedy.
No quintal, onde a luz entre ulmeiros já era dourada e vermelha, disse-me que ia fazer uma piscina para os miúdos.»

FERNANDES, Ferreira, Os Primos da América, Tinta-da-China, 2012, pp. 188-191

Histórias de Londres, de Enric González

Setembro 24, 2012 § Deixe um comentário

«Há cidades belas e cruéis, como Paris. Ou elegantes e cépticas, como Roma. Ou densas e obsessivas, como Nova Iorque. Londres não pode ser reduzida a antropomorfismos. Séculos de paz civil, de comércio próspero, de empirismo e de céus cinzentos tornaram-na indiferente como a própria natureza. Talvez eu esteja a exagerar. Talvez Londres seja uma projecção do carácter inglês. Não há sentimentalismos, nem excessos de paixão, nem verdades com maiúsculas. Por uma razão ou outra, Londres reúne as condições ideais para que a vida floresça. É difícil não nos sentirmos livres nesta cidade inabarcável e ao mesmo tempo tranquila, sossegada como o musgo dos seus recantos sombrios – uma insignificância vegetal que me comove, que tolice –, onde cabem a arte e o seu reverso técnico, o kitsch, sem se estorvarem mutuamente, onde a Justiça, esse conceito perigoso, metafísico e continental, pesa menos do que a sensatez à escala humana do fair play

GONZÁLEZ, Enric, Histórias de Londres, Tinta-da-China, 2012, p. 31-32

 

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