Notícias Últimas do Sul, de Luis Sepúlveda

Fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um Comentário

Últimas Notícias do Sul, Porto Editora 2012

«Era limpo o ar da estepe, eram risonhos os rostos debruçados às janelas dos vagões, era firme a coluna de fumo que a locomotiva despedia, era claro e omnipresente o silvo que anunciava a marcha do comboio, era suave o vigor das bielas que com toda a força do aço impulsionavam as rodas, e os solavancos convidavam a aceitar o chá-mate do vizinho do assento ao passo que as conversas percorriam a lista de todos os assuntos da vida
Foi uma viagem alegre, muito alegre, porque essa foi a Última Viagem do Patagónia Express.»

 

 

Luis Sepúlveda, com Daniel Mordzinski (2012), Notícias Últimas do Sul, Porto Editora, pp. 115-116

Baku – Últimos Dias, de Olivier Rolin

Fevereiro 20th, 2012 § Deixe um Comentário

Baku - Últimos Dias, Sextante Editora, 2012

Em “Baku – últimos dias”, o grande escritor francês, num elegante jogo no fio da navalha, entre a ficção e a realidade, e enquanto caminha pelas ruelas da Cidade Velha ou da Cidade Negra, vai-nos relatando acontecimentos mundanos, apontamentos de História e de histórias, descrevendo lugares visitados, convocando memórias, tudo envolto numa estranha melancolia; de certa forma, este magnifíco livro de Olivier Rolin aproxima-se de “Istambul, memórias de uma cidade”, do escritor turco Orhan Pamuk.

José Riço Direitinho, no Ípsilon, 18/02/2012

Uma Semana no Aeroporto, de Alain de Botton

Janeiro 12th, 2012 § Deixe um Comentário

Os aeroportos, com todo o seu turbilhão, interesse e beleza, são os centros imaginários da nossa civilização.

 

«A pessoa que me telefonou disse-me que recentemente a sua companhia tinha desenvolvido um interesse por literatura e que tinha decidido convidar um escritor para passar uma semana no seu mais recente centro de passageiros, o Terminal 5, situado entre as duas pistas do maior aeroporto de Londres. Esse artista, logo pomposamente denominado como o primeiro escritor-residente de Heathrow, teria como função fazer um levantamento impressionista das instalações e, depois, à vista de todos os passageiros e do pessoal, juntar material suficiente para um livro a ser escrito numa secretária especialmente colocada para o efeito na área das partidas, entre as zonas D e E. »

Uma Semana no Aeroporto – Um diário de Heathrow, Dom Quixote, 2011

Os Portugueses Deixam a Língua nos Trópicos

Janeiro 3rd, 2012 § Deixe um Comentário

 

Um pedaço de pátria livre com minhas veias atlânticas
No mapa mestiço do meu corpo negro ou brasileiro
A mesma face enterrada no chão português da ibéria
E a mesma alma oceânica a caminho dos ventos
A mesma língua por dentro da língua falada nos espaços
Recônditos da alma morena dos antepassados recíprocos
Todos comuns ás virgens desfloradas pelos homens sem cor
Que punham lantejoulas no céu de cada ventre tropical
Ao sul das lânguidas praias margens da misteriosa atlântida
Quilhas rasgando os vendavais de cada aventura sem destino
Aí nasceram as bocas astrais para os signos dos deuses
Criando a mitologia dos afogados ao leme dos tempos
Resta essa lusíada chama agora liberta nas plagas continentais
Onde fermenta o sol no sal das obtusas claridades das sombras
Gerando a palavra nos corações misturados nos abismos das raças
Onde as pirâmides assinalam os sarcófagos do meu povo
Povo triturado pelas esferas e os cata-ventos imperdoáveis
Das bruxas que urdiram o maligno feitiço do império
E agora mortas expelem nas marés as fétidas fezes da história
Uma história que é preciso começar outra vez de zero
Um pedaço de pátria livre com essa chama lusíada
Líquida chama nos lábios de um futuro sem abortos
Expressão dos ventres da gestação austral
Ou das pequeninas ilhas dos golfos crioulos
Um beijo na boca do universo um beijo africano
Principalmente africano e brasileiro
Do zero ao êxtase um beijo íngreme na boca
Das líquidas palavras da mesma língua cósmica
Será uma fusão de asas salgadas pelas marés claras
Das praias assinaladas pelas âncoras ancestrais
E a mesma viagem andrógina dos bissexos da mesma pele
Desfraldando as bandeiras miscigenadas pelas lantejoulas
Um pedaço de pátria das pátrias procriadas
No mesmo verbo ardente de lírica melodia
Cantando amanhã as palavras somadas
Pelas gentes que esta língua em si mesmo procria
Meu sangue diluído nos poros do teu ser
Esse meu estar no mundo na tua pele sem cor
Colhendo os brasis nas selvas africanas
E as áfricas semeando no reino dos algarves
Quem será esse filho do grávido futuro
Que a tua boca oferece ao beijo redimido
Fecundado pelos séculos no mesmo chão sem pátria
Das pátrias do meu verbo do teu verbo nascido
Um pedaço uma gota uma única gota
Do teu perfil mestiço projetado nos astros
Singrando mares siderais á procura de rota
Os mares os mesmo mares nunca antes navegados
Que os despojos da história voltem ao restelo
Mas que essa chama livre para sempre viva
Num pedaço de pátria múltipla pátria amada
Feita de mil pedaços da alma do meu povo
Português em macau ou brasileiro em luanda
Africano da bahia ou crioulo europeu
Quando falas eu sei que nasceste de mim
Quando em mim nascias do meu pai do teu pai
Português infeliz nas andanças andadas
Palmilhou cicatrizes no rosto do tempo
E não sabe o que fazer das encruzilhadas
Nem das cruzes que pôs nas vertentes oblíquas
Português sem o gesto da própria mão direita
Decepadas nos becos das entranhas marinhas
(poentes de navalhas em horizontes mortos)
Com a vida esvaída nas correntes submersas
Português carregando os crepúsculos pesados
De uma podre velhice para estrumar a europa
Enforca-te no mar e nos próprios cabelos
Mas não morras deitado na cama da ibéria
Português que furaste os olhos ardentes
Para veres os confins dos confins da aventura
Não desistas agora das auroras urgentes
E volta para casa para nasceres de novo

Secos & Molhados

Pessoana Pobre, poema de Luís Filipe Castro Mendes

Dezembro 29th, 2011 § Deixe um Comentário

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.

Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.

Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.

 

Lendas da Índia, Dom Quixote, 2011

 

O Oriente de Castro Mendes traz consigo a distância e a perplexidade do ocidental para quem «tudo nos é tão estranho aqui» (José Mário Silva, Bibliotecário de Babel).

 

 

Gonçalo Cadilhe

Dezembro 20th, 2011 § Deixe um Comentário

O escritor e jornalista Gonçalo Cadilhe é o próximo convidado dos encontros O que Arde Cura, que o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa organiza, em parceria com a Livraria Leitura Books & Living do Centro Comercial Cidade do Porto.

É já esta quinta-feira, pelas 21h, no espaço da Livraria Leitura.

O barco bêbado, de Jean-Arthur Rimbaud

Dezembro 7th, 2011 § Deixe um Comentário

 

 

«Que assustado ouvi gemer, a cinquenta léguas,

O cio dos Beemotes, Maelstroms em batalha,

Um azul imóvel teço eu, sem pedir tréguas,

Chorando aquela Europa de antiga muralha!

 

Que arquipélagos siderais eu vi! Ilhas

Com céus em delírio abertos ao viajador;

– Nestas noites sem fundo é que a dormir te exilas,

Milhão de aves de ouro, futuro vigor?»

 

O Barco Bêbado (1871, 1985), Hiena Editora, trad. José Pedro Leal

 

O Colosso de Maroussi, de Henry Miller

Dezembro 2nd, 2011 § Deixe um Comentário

«Naquela noite, a conversa foi peculiar: começámos por falar da China e da língua chinesa, que ela estudava. Pouco depois, estávamos no Norte de África, no deserto, rodeados de povos de que eu nunca ouvir falar. E de repente ela caminhava sozinha ao longo das margens de um rio, e o sol era intenso, e eu seguia-o o melhor que podia sob aquela luz ofuscante, mas ela perdeu-se e eu dei por mim a deambular numa terra estranha, onde se falava numa língua que eu nunca tinha ouvido na minha vida. Aquela rapariga não era propriamente uma contadora de histórias, mas uma espécie de artista, pois nunca ninguém me conseguiu transmitir de forma tão perfeita a atmosfera de um local como ela em relação à Grécia.»

Henry Miller (1941, 2011), O Colosso de Maroussi, Tinta da China, p. 15

Escritos no Deserto, de Isabelle Eberhardt

Novembro 29th, 2011 § Deixe um Comentário

«Assemelha-se ao deserto, esta planície do Hodna que, na penumbra do entardecer, parece infinita… As montanhas longínquas, de um azul irisado, esbatem-se e desfazem-se na palidez do céu, e o espaço livre parece já não ter limites.»

[...]

Avançamos devagar, a passo, e a noite acaba de cair. Uma tepidez semelhante a uma carícia passa no ar irrespirado, virgem de toda a mancha.

Redescubro aqui essa impressão de silêncio absoluto que tanto amo, uma imensa paz que nada vem perturbar, nunca.»

Isabelle Eberhardt, Escritos no Deserto, Relógio d’Água, p. 107

As Ilhas desconhecidas, de Raul Brandão

Novembro 22nd, 2011 § Deixe um Comentário

«Olho para isto tão pequeno e tão pobre, para os campos retalhados de muros escuros, para as eirinhas redondas com lajedo de lava e um pau ao meio, a que se junge o boi que debulha o trigo; para os seres e as coisas do mesmo tom apagado e uniforme; olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de Inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado no mundo. Que vim eu aqui fazer? Foi esta pedra isolada no mar com alguns seres agarrados às leiras que me levou à viagem? Foi este resto de vulcão, sem paisagem nem beleza, que me trouxe? Mas aqui não há nada que ver! Almas tão descarnadas como o penedo e uma vida impossível noutro mundo que não seja este mundo arredado. A vida natural? O homem pode aguentar-se na vida natural, ou é na vida artificial que está a felicidade? Vestido ou nu? É para a Fusão e a mentira que devem tender os nossos esforços, e a verdade em osso será a imagem da inferioridade e da desgraça?… Tão longe– tão só – tão triste! Mas reparo melhor e lembro-me daquelas palavras dum homem em debate com a própria consciência: – No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo.»

Raul Brandão (2011), As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens, Quetzal, p. 11-12.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 113 other followers