Final de Romance na Patagónia, de Mempo Giardinelli

Abril 19th, 2012 § Deixe um Comentário

Durante os últimos cinco anos eu tinha sonhado intensamente em fazer esta viagem ao sul do Sul da nossa América. Essa região da Argentina que para nós é como um final que não se quer ver, uma espécie de queda do país no verdadeiro fim do mundo. Um território e um limite que está na nossa própria geografia, mas que resistimos a conhecer. Creio que aos nossos irmãos chilenos lhes sucede algo de semelhante, embora eles tenham tido, historicamente, uma relação mais íntima com a sua delgada porção de Patagónia. Talvez porque do lado do Pacífico os Andes recebem boas chuvas, quiçá porque a estreiteza territorial entre a montanha e o mar lhes tem permitido uma olhadela menos dispersa sobre o mundo. Mas nós não, a Patagónia argentina é uma imensidão vazia, um abandono universal cheio de mistério. Para lá de todas as metáforas, a Argentina e o Chile são dois países cujos suis representam, certamente, o verdadeiro finisterra da cartografia americana e mundial.

 

Mempo Giardinelli (2009) Final de Romance na Patagónia, Quetzal, p. 17

 

Do Lado de Cá do Mar, de Philip Graham

Março 23rd, 2012 § Deixe um Comentário

Do Lado de Cá do Mar - Crónicas de um Americano em Lisboa, Editorial Presença, 2012

«Não sei por que é que adoro Lisboa. Mas agarrei a oportunidade de participar na conferência internacional sobre contos a decorrer aqui esta semana. [...] Quando passeio por estas ruas calcetadas, captando aqui e ali vislumbres da proximidade do rio Tejo, ou absorvendo, do alto de uma das colinas da cidade, a gloriosa e íngreme topografia dos edifícios brancos com os seus telhados cor de salmão, sinto que também estou a viajar através de uma paisagem interior, que aquelas ruas conduzem a um lugar dentro de mim que ainda não consegui localizar.»

 

 

Philip Graham (2012), Do Lado de Cá do Mar – Crónicas de um Americano em Lisboa, Editorial Presença, pp. 18-19

Notícias Últimas do Sul, de Luis Sepúlveda

Fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um Comentário

Últimas Notícias do Sul, Porto Editora 2012

«Era limpo o ar da estepe, eram risonhos os rostos debruçados às janelas dos vagões, era firme a coluna de fumo que a locomotiva despedia, era claro e omnipresente o silvo que anunciava a marcha do comboio, era suave o vigor das bielas que com toda a força do aço impulsionavam as rodas, e os solavancos convidavam a aceitar o chá-mate do vizinho do assento ao passo que as conversas percorriam a lista de todos os assuntos da vida
Foi uma viagem alegre, muito alegre, porque essa foi a Última Viagem do Patagónia Express.»

 

 

Luis Sepúlveda, com Daniel Mordzinski (2012), Notícias Últimas do Sul, Porto Editora, pp. 115-116

Baku – Últimos Dias, de Olivier Rolin

Fevereiro 20th, 2012 § Deixe um Comentário

Baku - Últimos Dias, Sextante Editora, 2012

Em “Baku – últimos dias”, o grande escritor francês, num elegante jogo no fio da navalha, entre a ficção e a realidade, e enquanto caminha pelas ruelas da Cidade Velha ou da Cidade Negra, vai-nos relatando acontecimentos mundanos, apontamentos de História e de histórias, descrevendo lugares visitados, convocando memórias, tudo envolto numa estranha melancolia; de certa forma, este magnifíco livro de Olivier Rolin aproxima-se de “Istambul, memórias de uma cidade”, do escritor turco Orhan Pamuk.

José Riço Direitinho, no Ípsilon, 18/02/2012

O Colosso de Maroussi, de Henry Miller

Dezembro 2nd, 2011 § Deixe um Comentário

«Naquela noite, a conversa foi peculiar: começámos por falar da China e da língua chinesa, que ela estudava. Pouco depois, estávamos no Norte de África, no deserto, rodeados de povos de que eu nunca ouvir falar. E de repente ela caminhava sozinha ao longo das margens de um rio, e o sol era intenso, e eu seguia-o o melhor que podia sob aquela luz ofuscante, mas ela perdeu-se e eu dei por mim a deambular numa terra estranha, onde se falava numa língua que eu nunca tinha ouvido na minha vida. Aquela rapariga não era propriamente uma contadora de histórias, mas uma espécie de artista, pois nunca ninguém me conseguiu transmitir de forma tão perfeita a atmosfera de um local como ela em relação à Grécia.»

Henry Miller (1941, 2011), O Colosso de Maroussi, Tinta da China, p. 15

Escritos no Deserto, de Isabelle Eberhardt

Novembro 29th, 2011 § Deixe um Comentário

«Assemelha-se ao deserto, esta planície do Hodna que, na penumbra do entardecer, parece infinita… As montanhas longínquas, de um azul irisado, esbatem-se e desfazem-se na palidez do céu, e o espaço livre parece já não ter limites.»

[...]

Avançamos devagar, a passo, e a noite acaba de cair. Uma tepidez semelhante a uma carícia passa no ar irrespirado, virgem de toda a mancha.

Redescubro aqui essa impressão de silêncio absoluto que tanto amo, uma imensa paz que nada vem perturbar, nunca.»

Isabelle Eberhardt, Escritos no Deserto, Relógio d’Água, p. 107

As Ilhas desconhecidas, de Raul Brandão

Novembro 22nd, 2011 § Deixe um Comentário

«Olho para isto tão pequeno e tão pobre, para os campos retalhados de muros escuros, para as eirinhas redondas com lajedo de lava e um pau ao meio, a que se junge o boi que debulha o trigo; para os seres e as coisas do mesmo tom apagado e uniforme; olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de Inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado no mundo. Que vim eu aqui fazer? Foi esta pedra isolada no mar com alguns seres agarrados às leiras que me levou à viagem? Foi este resto de vulcão, sem paisagem nem beleza, que me trouxe? Mas aqui não há nada que ver! Almas tão descarnadas como o penedo e uma vida impossível noutro mundo que não seja este mundo arredado. A vida natural? O homem pode aguentar-se na vida natural, ou é na vida artificial que está a felicidade? Vestido ou nu? É para a Fusão e a mentira que devem tender os nossos esforços, e a verdade em osso será a imagem da inferioridade e da desgraça?… Tão longe– tão só – tão triste! Mas reparo melhor e lembro-me daquelas palavras dum homem em debate com a própria consciência: – No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo.»

Raul Brandão (2011), As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens, Quetzal, p. 11-12.

Viagem de autocarro, de Josep Pla

Novembro 7th, 2011 § Deixe um Comentário

«O sedentário sonha. O viajante vive, ou melhor, supunha-se antigamente que vivia em estado de dispersão, de variedade e, em definitivo, num estado de aérea ligeireza. Tudo na sua deslocação era agradável: as caras novas, os artritos superficiais, as paisagens diferentes. Que vida boa e divertida! Que inveja suscitava o passageiro!

Mas agora as coisas parecem ter mudado muito. Hoje, os viajantes são, acima de tudo, sofredores. Viaja-se simplesmente por necessidade. A simples ideia de uma pessoa ter de se deslocar provoca desassossego. Os únicos seres que se entusiasmam quando vêem pssar algo em movimento são as crianças de tenra idade, assim que deixam de mamar»

Josep Pla (1942, 2011)Viagem de Autocarro, Tinta-da-China, p. 28.

Viagem de autocarro, de Josep Pla

Novembro 3rd, 2011 § Deixe um Comentário

«Muito mais triste do que dançar na própria aldeia é ir dançar à aldeia do lado. Estes inquietos jovens do autocarro – digo para mim próprio –, quando logo à noite regressarem a suas casas, estarão mais tristes do que se não tivessem de lá saído e tivessem dançado ao som dos seus próprios músicos. Perante tudo isto, sinto por instantes a tentação de proferir um pequeno discurso em tom francamente quietista sobre o tema: todo o movimento produz dor.»

Josep Pla (1942, 2011)Viagem de Autocarro, Tinta-da-China, p. 24.

Diário de uma Viagem À Rússia Em 1867, de Lewis Carroll

Outubro 31st, 2011 § Deixe um Comentário

 

Em 1867, Charles Lutwidge Dodgson, professor de matemática inglês mais conhecido pelo seu pseudónimo de     Lewis Carroll, fez a única viagem da sua vida ao estrangeiro. O seu companheiro de viagem foi um colega, o Dr. Henry Liddon, mais tarde cónego da Catedral de São Paulo.
«Escolhemos Moscovo», escreveu Carroll. «Uma ideia estranha para um homem que nunca deixou a Inglaterra.» Lewis Carroll, que em 1861 fora ordenado diácono, ajudou o seu companheiro de viagem em contactos informais com representantes da Igreja Ortodoxa Russa. A viagem durou dois meses, e os dois amigos visitaram nomeadamente São Petersburgo e seus arredores, Moscovo e Nijni Novgorod.
Este Diário, publicado pela primeira vez em 1935, revela uma faceta pouco conhecida do famosíssimo escritor.

Diário de uma Viagem À Rússia Em 1867, Editorial Teorema

 

 

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