A secreta viagem
Abril 11th, 2012 § Deixe um Comentário
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa…Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!
David Mourão-Ferreira, “A Secreta Viagem” (1ª ed., Ed. Távola Redonda, 1950), in OBRA POÉTICA (Ed. Presença, 5ª ed, 2006)
Pessoana Pobre, poema de Luís Filipe Castro Mendes
Dezembro 29th, 2011 § Deixe um Comentário
Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.
Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.
Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.
Lendas da Índia, Dom Quixote, 2011
O Oriente de Castro Mendes traz consigo a distância e a perplexidade do ocidental para quem «tudo nos é tão estranho aqui» (José Mário Silva, Bibliotecário de Babel).
O barco bêbado, de Jean-Arthur Rimbaud
Dezembro 7th, 2011 § Deixe um Comentário
«Que assustado ouvi gemer, a cinquenta léguas,
O cio dos Beemotes, Maelstroms em batalha,
Um azul imóvel teço eu, sem pedir tréguas,
Chorando aquela Europa de antiga muralha!
Que arquipélagos siderais eu vi! Ilhas
Com céus em delírio abertos ao viajador;
– Nestas noites sem fundo é que a dormir te exilas,
Milhão de aves de ouro, futuro vigor?»
O Barco Bêbado (1871, 1985), Hiena Editora, trad. José Pedro Leal
Viagem
Outubro 21st, 2011 § Deixe um Comentário
Fez tanto luar que eu pensei em teus olhos antigos
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos
que tornei a viver contigo enquanto o vento passava.
Houve uma noite que cintilou sobre o teu rosto
e modelou tua voz entre as algas.
Eu moro, desde então, nas pedras frias que o céu protege
e estudo apenas o ar e as águas.
Coitado de quem pôs sua esperança
nas praias fora do mundo…
- Os ares fogem, viram-se as água,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam.
Cecília Meireles, Viagem, 1939

