A Casa-comboio, de Raquel Ochoa
Maio 24th, 2012 § Deixe um Comentário
[…]
A estação fervilhava de hipóteses: de negócios, de destinos, de refeições. Animais de carga e cães rafeiros eram tão numerosos como as pessoas em trânsito. Percorreriam o caminho desde Vapy, a estação de comboios mais próxima, até Damão, que distava sete milhas. Carcomo era um homem viajado, à luz da época. Olhou para o coche velho com cortinas de seda macilentas, puxado por um par de cavalos, que poderia ter sido a carruagem de Estado de algum governador antigo de Damão, nos provectos e prósperos dias do governo português. Entrou para a cabine e com um assobio as rodas começaram a girar cumprindo as ordens dos músculos tesos dos cavalos.
[…]
A estrada atravessava as aldeias de Chalá e Cuntá (inglesas), Dabel, Dundortá, Catriá e Damão Pequeno (portuguesas), embora não por esta ordem, e sim interpenetrando-se.
OCHOA, Raquel (2010) A Casa-comboio, Gradiva, Lisboa, pp. 15-16.
Viagem a Portugal, de José Saramago
Maio 7th, 2012 § Deixe um Comentário
«O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»
SARAMAGO, José – Viagem a Portugal, 2ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1984
O Murmúrio do Mundo, de Almeida Faria
Fevereiro 27th, 2012 § Deixe um Comentário
«A rebatizada Mumbai, com mais habitantes que Portugal inteiro, é hoje cousa gigantesca e capital do estado de Maharashtra. O aeroporto internacional cheirava a mofo apesar do ar condicionado, um bafio que a memória me trouxe misturado com imagens de outros aeroportos, noutros trópicos, Rio de Janeiro, Salvador, Aracaju, Recife, Bissau, Dakar, São Tomé, Luanda a seguir ao Natal, quando cheguei à porta do avião e a primeira baforada de abafada humidade me deixou incapaz de respirar. Mas aquelas distantes descidas em terras tropicais eram uma visão arcádica quando comparada com a multidão sonâmbula que cercava o carrossel das bagagens às duas da madrugada em Mumbai, e se esgueirava uma hora mais tarde diante dos funcionários alfandegários de fardas às três pancadas, fixando-nos como se fôssemos aves raras. Fora, no calor compacto, odores fortes a gases de automóveis, a sujidade, a suor. E crianças-rapazes pedindo. Tinham-me aconselhado a nunca dar esmola porque os pedintes não nos largam. O olhar indefeso, a insistência e a idade deles despertaram em mim a tortura da compaixão, a obscura vocação para a culpa, e distribuí ao acaso as rupias acabadas de trocar.»
Almeida Faria (2012) O Murmúrio do Mundo, Tinta-da-China, p. 27-28.
Uma Semana no Aeroporto, de Alain de Botton
Janeiro 12th, 2012 § Deixe um Comentário
Os Portugueses Deixam a Língua nos Trópicos
Janeiro 3rd, 2012 § Deixe um Comentário
Um pedaço de pátria livre com minhas veias atlânticas
No mapa mestiço do meu corpo negro ou brasileiro
A mesma face enterrada no chão português da ibéria
E a mesma alma oceânica a caminho dos ventos
A mesma língua por dentro da língua falada nos espaços
Recônditos da alma morena dos antepassados recíprocos
Todos comuns ás virgens desfloradas pelos homens sem cor
Que punham lantejoulas no céu de cada ventre tropical
Ao sul das lânguidas praias margens da misteriosa atlântida
Quilhas rasgando os vendavais de cada aventura sem destino
Aí nasceram as bocas astrais para os signos dos deuses
Criando a mitologia dos afogados ao leme dos tempos
Resta essa lusíada chama agora liberta nas plagas continentais
Onde fermenta o sol no sal das obtusas claridades das sombras
Gerando a palavra nos corações misturados nos abismos das raças
Onde as pirâmides assinalam os sarcófagos do meu povo
Povo triturado pelas esferas e os cata-ventos imperdoáveis
Das bruxas que urdiram o maligno feitiço do império
E agora mortas expelem nas marés as fétidas fezes da história
Uma história que é preciso começar outra vez de zero
Um pedaço de pátria livre com essa chama lusíada
Líquida chama nos lábios de um futuro sem abortos
Expressão dos ventres da gestação austral
Ou das pequeninas ilhas dos golfos crioulos
Um beijo na boca do universo um beijo africano
Principalmente africano e brasileiro
Do zero ao êxtase um beijo íngreme na boca
Das líquidas palavras da mesma língua cósmica
Será uma fusão de asas salgadas pelas marés claras
Das praias assinaladas pelas âncoras ancestrais
E a mesma viagem andrógina dos bissexos da mesma pele
Desfraldando as bandeiras miscigenadas pelas lantejoulas
Um pedaço de pátria das pátrias procriadas
No mesmo verbo ardente de lírica melodia
Cantando amanhã as palavras somadas
Pelas gentes que esta língua em si mesmo procria
Meu sangue diluído nos poros do teu ser
Esse meu estar no mundo na tua pele sem cor
Colhendo os brasis nas selvas africanas
E as áfricas semeando no reino dos algarves
Quem será esse filho do grávido futuro
Que a tua boca oferece ao beijo redimido
Fecundado pelos séculos no mesmo chão sem pátria
Das pátrias do meu verbo do teu verbo nascido
Um pedaço uma gota uma única gota
Do teu perfil mestiço projetado nos astros
Singrando mares siderais á procura de rota
Os mares os mesmo mares nunca antes navegados
Que os despojos da história voltem ao restelo
Mas que essa chama livre para sempre viva
Num pedaço de pátria múltipla pátria amada
Feita de mil pedaços da alma do meu povo
Português em macau ou brasileiro em luanda
Africano da bahia ou crioulo europeu
Quando falas eu sei que nasceste de mim
Quando em mim nascias do meu pai do teu pai
Português infeliz nas andanças andadas
Palmilhou cicatrizes no rosto do tempo
E não sabe o que fazer das encruzilhadas
Nem das cruzes que pôs nas vertentes oblíquas
Português sem o gesto da própria mão direita
Decepadas nos becos das entranhas marinhas
(poentes de navalhas em horizontes mortos)
Com a vida esvaída nas correntes submersas
Português carregando os crepúsculos pesados
De uma podre velhice para estrumar a europa
Enforca-te no mar e nos próprios cabelos
Mas não morras deitado na cama da ibéria
Português que furaste os olhos ardentes
Para veres os confins dos confins da aventura
Não desistas agora das auroras urgentes
E volta para casa para nasceres de novo
Secos & Molhados
Gonçalo Cadilhe
Dezembro 20th, 2011 § Deixe um Comentário
O escritor e jornalista Gonçalo Cadilhe é o próximo convidado dos encontros O que Arde Cura, que o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa organiza, em parceria com a Livraria Leitura Books & Living do Centro Comercial Cidade do Porto.
É já esta quinta-feira, pelas 21h, no espaço da Livraria Leitura.
Regresso a Ítaca
Novembro 18th, 2011 § Deixe um Comentário
Conheces a casa pelos cheiros e os ruídos
As sombras na parede a certas horas
Uma jarra de rosas sobre a mesa
E a primavera no quintal com seu perfume
De terra e musgo e buxo e flores de limoeiro
Conheces a casa até por sua música
Que é um branco silêncio povoado
Por móveis e tapetes ecos vozes
Este devia ser o teu lugar sagrado
Aquela Ítaca secreta que pensavas
Quando buscavas um caminho ou um destino
Mas eis que chegas e algo está mudado
É certo que na vila os velhos te reconheceram
Como a Ulisses o fiel porqueiro
Porém na casa algo está diferente
O teu próprio retrato te parece um outro
E mais do que nunca sentes-te estrangeiro
Por isso o teu exílio é sem remédio
Manuel Alegre, Atlântico
Caminhar no Gelo, de Werner Herzog
Novembro 16th, 2011 § Deixe um Comentário
«Um comboio atravessa a correr os campos e fura as montanhas. As rodas parecem incandescentes. Uma carruagem pega fogo. O comboio pára, as pessoas tentam apagar o fogo mas já não é possível salvar a carruagem. Decide-se seguir viagem, depressa, para longe. O comboio avança, rumo a um universo sem luz, sempre a direito. Na escuridão do universo, ardem as rodas e arde a carruagem. Explosões inimagináveis de estrelas, mundos inteiros entram em colapso e confluem num único ponto. A luz já não consegue escapar, mesmo a escuridão mais cerrada pareceria aqui uma luz e o silêncio um tumulto. O universo está preenchido com nada, é um vácuo negro que boceja»
Werner Herzog (1978, 2011) Caminhar no Gelo, Tinta-da-China, p. 95.
Do novo livro de Manuel António Pina
Novembro 10th, 2011 § Deixe um Comentário
O regresso
Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.
Poema extraído de Como se Desenha uma Casa (Assírio & Alvim, 2011), novo livro de Manuel António Pina. O autor é o convidado da sessão O que Arde Cura | Encontros na Leitura do mês de novembro.
Elogio da caminhada
Outubro 27th, 2011 § Deixe um Comentário
Peça de Matthew Earnest, a partir de Wanderlust: A History of Walking.
Em O Caminhante Solitário (Teorema, 2009), W. G. Sebald traça o retrato de escritores e artistas plásticos que, através das suas viagens, permitem ao autor escrever sobre a região pré-alpina de que é natural.
O livro de Rebeca Solnit, Wanderlust: A History of Walking (Penguin Books, 2001), traça uma história da caminhada em ligação com a filosofia, a poesia e a política. Para Solnit, a evolução do pensamento e da cultura é impulsionada pelo acto especificamente humano de caminhar.
Enquanto Sebald nos oferece retratos de escritores como Jean-Jacques Rousseau ou Robert Walser, Solnit acompanha o percurso de poetas-caminhantes como Gary Snyder, Frank O’Hara, Coleridge ou Wordsworth.



