Pessoana Pobre, poema de Luís Filipe Castro Mendes

Dezembro 29th, 2011 § Deixe um Comentário

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.

Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.

Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.

 

Lendas da Índia, Dom Quixote, 2011

 

O Oriente de Castro Mendes traz consigo a distância e a perplexidade do ocidental para quem «tudo nos é tão estranho aqui» (José Mário Silva, Bibliotecário de Babel).

 

 

Gonçalo Cadilhe

Dezembro 20th, 2011 § Deixe um Comentário

O escritor e jornalista Gonçalo Cadilhe é o próximo convidado dos encontros O que Arde Cura, que o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa organiza, em parceria com a Livraria Leitura Books & Living do Centro Comercial Cidade do Porto.

É já esta quinta-feira, pelas 21h, no espaço da Livraria Leitura.

O barco bêbado, de Jean-Arthur Rimbaud

Dezembro 7th, 2011 § Deixe um Comentário

 

 

«Que assustado ouvi gemer, a cinquenta léguas,

O cio dos Beemotes, Maelstroms em batalha,

Um azul imóvel teço eu, sem pedir tréguas,

Chorando aquela Europa de antiga muralha!

 

Que arquipélagos siderais eu vi! Ilhas

Com céus em delírio abertos ao viajador;

– Nestas noites sem fundo é que a dormir te exilas,

Milhão de aves de ouro, futuro vigor?»

 

O Barco Bêbado (1871, 1985), Hiena Editora, trad. José Pedro Leal

 

O Colosso de Maroussi, de Henry Miller

Dezembro 2nd, 2011 § Deixe um Comentário

«Naquela noite, a conversa foi peculiar: começámos por falar da China e da língua chinesa, que ela estudava. Pouco depois, estávamos no Norte de África, no deserto, rodeados de povos de que eu nunca ouvir falar. E de repente ela caminhava sozinha ao longo das margens de um rio, e o sol era intenso, e eu seguia-o o melhor que podia sob aquela luz ofuscante, mas ela perdeu-se e eu dei por mim a deambular numa terra estranha, onde se falava numa língua que eu nunca tinha ouvido na minha vida. Aquela rapariga não era propriamente uma contadora de histórias, mas uma espécie de artista, pois nunca ninguém me conseguiu transmitir de forma tão perfeita a atmosfera de um local como ela em relação à Grécia.»

Henry Miller (1941, 2011), O Colosso de Maroussi, Tinta da China, p. 15

Escritos no Deserto, de Isabelle Eberhardt

Novembro 29th, 2011 § Deixe um Comentário

«Assemelha-se ao deserto, esta planície do Hodna que, na penumbra do entardecer, parece infinita… As montanhas longínquas, de um azul irisado, esbatem-se e desfazem-se na palidez do céu, e o espaço livre parece já não ter limites.»

[...]

Avançamos devagar, a passo, e a noite acaba de cair. Uma tepidez semelhante a uma carícia passa no ar irrespirado, virgem de toda a mancha.

Redescubro aqui essa impressão de silêncio absoluto que tanto amo, uma imensa paz que nada vem perturbar, nunca.»

Isabelle Eberhardt, Escritos no Deserto, Relógio d’Água, p. 107

As Ilhas desconhecidas, de Raul Brandão

Novembro 22nd, 2011 § Deixe um Comentário

«Olho para isto tão pequeno e tão pobre, para os campos retalhados de muros escuros, para as eirinhas redondas com lajedo de lava e um pau ao meio, a que se junge o boi que debulha o trigo; para os seres e as coisas do mesmo tom apagado e uniforme; olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de Inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado no mundo. Que vim eu aqui fazer? Foi esta pedra isolada no mar com alguns seres agarrados às leiras que me levou à viagem? Foi este resto de vulcão, sem paisagem nem beleza, que me trouxe? Mas aqui não há nada que ver! Almas tão descarnadas como o penedo e uma vida impossível noutro mundo que não seja este mundo arredado. A vida natural? O homem pode aguentar-se na vida natural, ou é na vida artificial que está a felicidade? Vestido ou nu? É para a Fusão e a mentira que devem tender os nossos esforços, e a verdade em osso será a imagem da inferioridade e da desgraça?… Tão longe– tão só – tão triste! Mas reparo melhor e lembro-me daquelas palavras dum homem em debate com a própria consciência: – No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo.»

Raul Brandão (2011), As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens, Quetzal, p. 11-12.

Regresso a Ítaca

Novembro 18th, 2011 § Deixe um Comentário

Conheces a casa pelos cheiros e os ruídos
As sombras na parede a certas horas
Uma jarra de rosas sobre a mesa
E a primavera no quintal com seu perfume
De terra e musgo e buxo e flores de limoeiro

Conheces a casa até por sua música
Que é um branco silêncio povoado
Por móveis e tapetes ecos vozes

Este devia ser o teu lugar sagrado
Aquela Ítaca secreta que pensavas
Quando buscavas um caminho ou um destino

Mas eis que chegas e algo está mudado
É certo que na vila os velhos te reconheceram
Como a Ulisses o fiel porqueiro

Porém na casa algo está diferente
O teu próprio retrato te parece um outro
E mais do que nunca sentes-te estrangeiro

Por isso o teu exílio é sem remédio

Manuel Alegre, Atlântico

Caminhar no Gelo, de Werner Herzog

Novembro 16th, 2011 § Deixe um Comentário

«Um comboio atravessa a correr os campos e fura as montanhas. As rodas parecem incandescentes. Uma carruagem pega fogo. O comboio pára, as pessoas tentam apagar o fogo mas já não é possível salvar a carruagem. Decide-se seguir viagem, depressa, para longe. O comboio avança, rumo a um universo sem luz, sempre a direito. Na escuridão do universo, ardem as rodas e arde a carruagem. Explosões inimagináveis de estrelas, mundos inteiros entram em colapso e confluem num único ponto. A luz já não consegue escapar, mesmo a escuridão mais cerrada pareceria aqui uma luz e o silêncio um tumulto. O universo está preenchido com nada, é um vácuo negro que boceja»

Werner Herzog (1978, 2011) Caminhar no Gelo, Tinta-da-China, p. 95.

Do novo livro de Manuel António Pina

Novembro 10th, 2011 § Deixe um Comentário

O regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Poema extraído de Como se Desenha uma Casa (Assírio & Alvim, 2011), novo livro de Manuel António Pina. O autor é o convidado da sessão O que Arde Cura | Encontros na Leitura do mês de novembro.

Viagem de autocarro, de Josep Pla

Novembro 7th, 2011 § Deixe um Comentário

«O sedentário sonha. O viajante vive, ou melhor, supunha-se antigamente que vivia em estado de dispersão, de variedade e, em definitivo, num estado de aérea ligeireza. Tudo na sua deslocação era agradável: as caras novas, os artritos superficiais, as paisagens diferentes. Que vida boa e divertida! Que inveja suscitava o passageiro!

Mas agora as coisas parecem ter mudado muito. Hoje, os viajantes são, acima de tudo, sofredores. Viaja-se simplesmente por necessidade. A simples ideia de uma pessoa ter de se deslocar provoca desassossego. Os únicos seres que se entusiasmam quando vêem pssar algo em movimento são as crianças de tenra idade, assim que deixam de mamar»

Josep Pla (1942, 2011)Viagem de Autocarro, Tinta-da-China, p. 28.

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