Viagem por África. Do Cairo à Cidade do Cabo, de Paul Theroux

Em três horas que passei no cais do ferry de Port Bell, observei os tecelões a construírem os ninhos nas hastes de papiro da margem do rio. Tinham-me destinado o ferry Kabalega.

– Já vai, já vai – disse-me um funcionário do porto. – Estão a soldar o barco. – Uma águia pesqueira investiu subitamente. Um homem que lançava uma rede tirou-a da água, após várias tentativas, só com uns peixes minúsculos. Passou mais uma hora. Perto de uns barcos afundados, uns dez ou doze rapazes pescavam com canas de bamboo. Não estavam a divertir-se, estavam a pescar para poderem comer. Mais uma hora.

Comecei a passear de um lado para o outro, recordando que todos os livros que tinha lido sobre África continham longas passagens, e por vezes muitas páginas, sobre atrasos. “Permanecemos vários dias no complexo do chefe, à espera que ele nos autorizasse a regressar à costa”, é uma frase que ocorre em muitos livros sobre explorações africanas. A viagem de Burton por África contém brados de lamento contra os atrasos; o mesmo acontece na de Livingstone e de todos os outros. Livingstone, que estava convencido de que “a prisão de ventre traz febre pela certa”, ordenava aos seus homens que fizessem longas marchas pelo mato, porque esse esforço era eficaz para os intestinos. “[Em África,] devido à mudança de clima, é frequente dar-se uma peculiar situação intestintal, que faz com que o indivíduo imagine todo o tipo de coisas.” Para Livingstone, os atrasos significavam prisão de ventre. O Coração das Trevas é uma obra de atrasos exasperantes e dramáticos, e até a narrativa é obstrutiva – hesitante e deliberadamente tangencial. O atraso apresenta-se, aqui e ali, como uma forma de suspense que obriga o leitor a concentrar-se, mas é, com mais frequência, uma maçada que o enerva. Mas o que é que isso interessa? Este parágrafo já vai longo de mais.

Por vezes, parece que África é um local para onde se vai para esperar. Muitos africanos que eu conheci diziam a mesma coisa, mas sem ser em tom de queixa, porque muitos deles viviam a sua vida com uma paciência de fatalista. Vista de fora, África é um continente atrasado – com as economias em suspenso, as sociedades erguidas no ar, a política e os direitos humanos à espera, as comunidades estranguladas ou detidas. “Esperem um pouco”, foram sugerindo as vozes das autoridades aos africanos ao longo dos anos de colonização e independência. Mas o tempo dos africanos não era o mesmo que o tempo dos americanos. Uma geração no Ocidente correspondia a duas gerações em África, onde os adolescentes eram pais de família e aos trinta e poucos anos as pessoas estavam com os pés para a cova. Enquanto o tempo africano passava, eu ia pensando que o ritmo dos países ocidentais era uma loucura, que a rapidez da tecnologia moderna não tinha qualquer efeito e que, por seguir o seu próprio caminho, ao seu próprio ritmo, por razões que eram as suas, África era um refúgio e um local de repouso, o último território pelo qual valia a pena alguém animar-se. Desconfiava disso, mas nem sempre achava que fosse assim; sou impaciente por natureza.

Viagem Por África. Do Cairo à Cidade do Cabo, Quetzal Editores, 2019, p.288-289.

Nostalgia, de Andrei Tarkovsky

“Caro Pyotr Nikolayevich, encontro-me em Itália há dois anos, que foram extremamente importantes em todos os sentidos, quer para a minha profissão de músico, como para a minha vida pessoal. Esta noite tive um sonho angustiante, tinha de encenar uma grande ópera no teatro do meu senhor, o Conde. O primeiro acto era representado num grande parque cheio de estátuas, que eram homens nus pintados de branco e forçados à imobilidade por muito tempo. Eu também estava a representar o papel de uma dessas estátuas e sabia que se me me mexesse sofreria castigos terríveis, pois o nosso dono e senhor observava-nos pessoalmente. O frio subia-me pelos pés, em cima do mármore gelado do pedestal, enquanto as folhas outonais pousavam sobre o meu braço levantado. Mesmo assim não me mexia. Mas quando, já esgotado, sentia que estava para cair, acordei! Estava cheio de medo, percebi que não era um sonho mas a minha realidade.

Poderia tentar não regressar à Rússia, mas a ideia mata-me. Morreria se não pudesse voltar a ver, nunca mais na vida, a terra onde nasci, as bétulas, o céu da minha infância.

Saudações afectuosas do teu pobre amigo abandonado, Pavel Sosnovsky.”

Nostalgia, de Andrei Tarkovsky, 1983.

 

Desaparecidos, de Daniel Mendelsohn

“E então, muitos anos depois de ter sido mimado e beliscado nas salas de estar dos residentes de Miami, mortos há tanto tempo, muitos anos depois de ter fotocopiado pela primeira vez esse retrato, quando a única coisa que me interessava era uma conclusão para o meu trabalho para uma aula, muitos anos depois de ter sentido pela primeira vez que tinha de saber o que fosse possível sobre Shmiel, sobre o homem com quem partilhava um certo arco de sobrancelha e linha de maxilar, e que, por essa razão, fazia com que as pessoas chorassem, e, porque tinha de saber, passei todo um ano, décadas mais tarde, a viajar – eu, o escritor, a viajar com o meu irmão mais novo, o fotógrafo, um com as suas palavras para escrever e inscrições para decifrar e o outro, que tinha involuntariamente entrado no negócio da família, com as suas fotografias que montar e que imprimir, nós os dois, dois irmãos, o escritor e o fotógrafo, a viajarmos até Austrália e Praga e Viena e Telavive e Kfar Saba e Beer Sheva e Vilnius e Riga e depois novamente até Telavive e Kfar Saba outra vez e Beer Sheva outra vez, e até Haifa e Jerusalém e Estocolmo e, por fim, aqueles dois dias em Copenhaga com o homem que um dia tinha viajado até ainda mais longe do que nós e que tinha um segredo à nossa espera; um ano passado, Verão e Outono e Inverno e uma Primavera que também era um Outono, com o próprio tempo a parecer desconjuntar-se à medida que o passado se erguia das suas cinzas e da sua sujidade e do seu papel velho e da poeira e do whiskey e dos sais de violeta, e vinha à tona mais uma vez como a escrita desbotada e quase ilegível nas costas de uma fotografia velha, levantando-se para confundir e competir com o presente; um ano passado a seguir a pista de pessoas que são agora muito mais velhas do que eram, na época, as pessoas velhas que costumavam beliscar-me ao faces e oferecer-me lápis em Miami Beach, seguir a pista de pessoas que só sabiam que Shmiel fora o pai bem constituído, impressionante e algo distante, das suas colegas de escola, daquelas quatro filhas, todas desaparecidas; sobrevoar o Atlântico e o Pacífico para falar com elas e recolher as pontas de informação que ainda existiam, por muito vagas que fossem as coisas que tinham para dizer-me: – então, muitos anos depois de tudo isso, quando me preparava para sentar-me e escrever este livro, o livro de todas essas viagens e de todos esses anos, e persuadira a minha mãe a deixar-me ver a fotografia original mais uma vez, o anverso do que conhecia tão bem, sim, mas também o reverso; então, só então, pude por fim ler, agora completamente, a inscrição original, ler as palavras que o meu avô tinha escrito nas costas, dizendo-me algo que, constato agora, como tantas outras coisas que ele tinha sublinhado para mim, ele considerava crucial, queria que eu soubesse e que eu reflectisse. (Mas como poderia eu ver isso então, quando tudo o que queria era uma fotografia que acompanhasse uma apresentação de um trabalho numa aula? Afinal, vemos o que queremos ver e o resto desaparece.)

 

O que ele de facto escrevera, como posso agora dizer porque estive a vê-lo muito recentemente, era isto, a tinta azul e em letras maiúsculas: HERMAN EHRLICH E SAMUEL JAEGER NO EXÉRCITO AUSTRÍCACO, 1916. Fora a marcador vermelho que ele acrescentara as palavras que eu sempre recordaria. MORTOS PELOS NAZIS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL.”

 

Desaparecidos, de Daniel Mendelsohn, D. Quixote, 2009 (ed.or 2006; p.91-92)

Viagens, de Olga Tokarczuk

1540-1 Viagens de Olga Tokarczuk

Em Todo o Lado e em Parte Nenhuma

Quando viajo, desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se estou já no ponto de chegada. Será que existe um “entre” as duas coisas? Ou serei eu como aquele dia perdido que acontece quando se viaja para leste ou aquela noite recuperada quando se viaja para oeste? Será que sou regida por aquela lei que é o orgulho da Física Quântica – a partícula pode existir simultaneamente em dois lugares distintos? Ou talvez por outra lei, ainda desconhecida e por comprovar – a de poder não existir duplamente num mesmo lugar?

Penso que há muitas pessoas como eu. Desaparecidas, ausentes que, de repente, aparecem nos terminais dos aeroportos e só começam a existir quando os funcionários da alfândega lhes carimbam os passaportes ou quando um gentil recepcionista de hotel lhes entrega uma chave. Já devem ter descoberto a sua instabilidade e a sua dependência de lugares, horas do dia, línguas ou cidades e suas ambiências. Fluidez, mobilidade, ilusão – eis o que significa ser civilizado. Os bárbaros não viajam, dirigem-se directamente para o destino ou, então, fazem incursões.

Assim pensa a mulher que me oferece um chá de plantas, guardado num termo, enquanto aguardamos o autocarro que nos leva da estação para o aeroporto. Tem, nas mãos pintadas com hena, um padrão complicado que se abate a cada dia que passa. Quando nos sentamos, dá-me uma lição sobre a noção de tempo. Afirma que os povos sedentários, que se dedicam à agricultura, preferem os prazeres facultados pelo tempo circular, no seio do qual todos os acontecimentos retornam ao seu próprio princípio, enroscando-se para formar um embrião e repetir o processo de amadurecimento e de morte. Mas os nómadas e os mercadores, que se encontram constantemente em viagem, tiveram de inventar um tipo de tempo que melhor se adaptasse à sua condição de viajantes. Trata-se de um tempo linear, mais prático, que lhes permite medir a distância percorrida até alcançar o destino e a evolução dos proveitos obtidos. Cada momento é único e nunca se repete, o que favorece o risco, reforça o usufruto do presente e a fruição do momento. Mas, no fundo, trata-se de uma amarga descoberta – se a mudança no tempo se torna irreversível, a perda e o luto tornam-se algo quotidiano e, por tal razão, os seus lábios jamais dirão palavras como “esgotado” ou “inútil”.

– Esforços inúteis, contas bancárias esgotadas – ri-se a mulher, pondo as mãos pintadas atrás da cabeça.

Diz que a única maneira de sobreviver num tempo linear que se distende é conservando a distância, uma dança que consiste em aproximar-se e afastar-se, um passo para a frente e um passo para trás, um passo para a esquerda, outro para a direita – passos fáceis de decorar. E quanto maior o mundo se tornar maior será a distância que pode ser dançada desta maneira – emigrar para além de sete mares, para além de duas línguas e de uma religião.

Eu, porém, tenho uma opinião diferente sobre a noção de tempo. O tempo de todos os viajantes é constituído por muitos tempos reunidos num, uma multiplicidade de tempos. Há o tempo insular, arquipélagos da ordem no oceano do caos; há o tempo produzido pelos relógios das estações de comboios, que é diferente consoante os lugares; há o tempo convencionado do meridiano e, por conseguinte, é bom que ninguém o leve muito a sério. Há as horas que desaparecem num avião em pleno voo, onde o amanhecer é repentino como um relâmpago e, logo, ameaçado pelo meio-dia e pelo anoitecer. Há o tempo caótico das grandes cidades onde permanecemos um momento para nos entregarmos à escravidão de um serão. E há o tempo preguiçoso das planícies desabitadas, vistas do alto de um avião.

Também acho que o mundo se encontra no interior de nós próprios, nos sulcos do cérebro e na glândula pineal. É um globo entalado na garganta e, a bem dizer, poderíamos tossir e desengasgar-nos, cuspindo-o.

Viagens, de Olga Tokarczuk, Cavalo de Ferro, 2019 (p.49-52)

Eu nunca tivera interesse em conhecer a Irlanda, Ray Bradbury

Eu nunca tivera interesse em conhecer a Irlanda. E eis agora John Huston ao telefone, a convidar-me para uma bebida no seu hotel. Nessa tarde, um e outro de copo na mão, Huston olhou-me demoradamente e perguntou: “O que acha de ir viver para a Irlanda e adaptar Moby Dick para o cinema?”

E, de um momento para o outro, ali estávamos nós em perseguição da baleia branca: eu,  a minha mulher e as nossas duas filhas.

Levei sete meses a encontrar, caçar e depois esquecer aquela cauda gigante.

De Outubro a Abril, vivi num país onde não queria estar.

Não queria ver, ouvir ou sentir a Irlanda. A igreja era uma coisa pavorosa. O tempo era horrível. A pobreza era chocante. Recusei-me a ter contacto com tais coisas. Além de que tinha peixe graúdo para apanhar…

Só não contei com a partida que o meu subconsciente me pregou. No meio de toda aquela pobreza e humidade, enquanto tentava apanhar a baleia-leviatã com a minha máquina de escrever, as minhas antenas foram captando impressões dos Irlandeses. Não que o meu lado consciente, aquele que se mantinha desperto e que andava por ali, não se apercebesse deles – aliás, até gostava daquelas pessoas e admirava-as; tinha algumas por amigas e via-as com frequência. Mas a minha impressão geral era de chuva e pobreza, e só conseguia ter pena de mim por me ver naquele país que era uma lástima.

Já com o monstro branco apanhado e metido nas latas de película, pirei-me da Irlanda o mais depressa possível, convencido de que tudo o que aquela estada me trouxera fora pavor de tempestades e nevoeiro, e das ruas de Dublin e Kilcock cheias de mendigos.

Mas a visão subliminar é astuta. Enquanto me lamentava pelo muito que trabalhava e pela minha incapacidade, dia sim, dia não, de me meter na pele de Herman Melville, como desejava, o meu intímo manteve-se alerta e tratou de encher bem os pulmões, arrebitar os ouvidos e arregalar os olhos, e registou a Irlanda e as suas gentes para mais tarde, quando eu já conseguisse descontrair e deixar-me surpreender por tais impressões.

Regressei pela Sicília e por Itália, onde aproveitei para cozer ao sol e assim me libertar de vez do Inverno irlandês, e assegurei a quem quisesse ouvir que “jamais escreveria uma linha sobre quando saíamos a correr dos cinemas de Connemara ou Donnybrook”.

Deveria ter-me lembrado da experiência no México, muitos anos antes, onde fora encontrar não chuva e pobreza, mas sol e pobreza, vindo de lá embora com pânico de um clima que respirava morte e do terrível hálito adocicado dos Mexicanos, um hálito de gente morta. O caso é que, no fim, tudo isso me inspirara a escrever uns quantos pesadelos de não se desdenhar.

Fosse como fosse, eu insistia que, para mim, a Irlanda morrera, o velório já fora e as suas gentes não mais me iriam assombrar.

Passaram vários anos.

E então, numa tarde de chuva, Mike (Nick, na vida real), o taxista, surgiu no meu cérebro e sentou-se ali a um canto, onde eu mal o conseguia ver. Dando-me um toque ao de leve com o cotovelo, teve o atrevimento de me lembrar os trajectos que ambos fizéramos pelos lodaçais ao longo do Liffey, noite após noite, com ele na tagarelice enquanto levava devagar o seu velho carro com carroçaria de aço pelo meio do nevoeiro, para me ir deixar no Royal Hiberian Hotel, onde eu estava instalado. Aquele taxista foi quem eu fiquei a conhecer melhor naquela vastidão verdejante, de tantas viagens que juntos fizemos noite dentro.

“Quero que contes a verdade sobre mim”, disse-me ele. “Só tens de escrever tudo tal como aconteceu.”

E, de um momento para o outro, já eu tinha um conto e uma peça terminados. O que está no conto é verdade, e também o que está na peça. Aconteceu tudo como lá  é dito. E não podia ter acontecido de nenhuma outra maneira.

Ray Radbury (2019 ; ed. Or. 1990) O Zen e a arte da escrita, Trad. Miguel Romeira, Cavalo de Ferro,  P. 109-111.

Onde os rios têm marés, de Ana Isabel Mineiro

“A estrada para Karakorum, que oficialmente começa pouco depois de Taxila, redobra de interesse a partir daqui. (…) As vistas são ao mesmo tempo, impressionantes e delicadas. As montanhas erguem-se, altas, dos dois lados da estrada, carecas de vegetação. São feitas de rocha pura, em tons de castanho e de cinzento, que de vez em quando desaba sobre a estrada bloqueando-a e destruindo o asfalto e as protecções. As únicas manchas verdes são as aldeias e os seus campos, pequenos paraísos de humana criação, armados em socalcos, onde se escondem casas baixas da cor da pedra, e de onde se erguem penachos verdes de choupos. Mesmo junto aos rios que correm com fúria nos vales, quase nada nasce sem ajuda humana, e as únicas variações na cor da paisagem são algumas praias de areia branca polvilhadas por rochas negras. Enquanto na Europa os aglomerados humanos acartam a perda de vegetação que nasce naturalmente da terra, aqui significam verdura numa terra naturalmente árida. As aldeias são oásis verdes e frescos num deserto de montanhas. Nem a neve permanente dos picos mais altos – e fazem parte da cordilheira de Karakorum pelo menos uma dúzia dos picos mais altos do planeta –, ou os glaciares que cobrem cerca de 25% desta região, conseguem mais do que arbustos secos em ilhotas pedregosas no meio dos rios. O resto é arrancado à força de braços. Braços que limpam a terra das pedras e as usam em casas e muros; braços que preparam os campos, que plantam, regam e, mais importante que tudo, cabeças que criaram sistemas de irrigação por canais que vêm às vezes de pontos muito altos até à aldeia, e que necessitam de constante manutenção. Mas este génio e este esforço não se alcançam das janelas do autocarro. Só a beleza dos lugares, a gentileza e discrição com que as aldeias se inscrevem nos flancos das montanhas.”

Ana Isabel Mineiro (2008) Onde os rios têm marés, Via Óptima.

Borboletas nocturnas, de Karl Manders

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(for the english translation of this text, scroll down, please.)

O romance Borboletas nocturnas, de Karl Manders, aborda a temática do exílio a partir do ponto de vista do personagem Cornelius van Baerle, empresário holandês, que por sugestão de um colega de trabalho parte, quase no final da segunda guerra mundial, para tentar confirmar e registar os relatos das atrocidades ocorridas em campos de concentração nazis. O que seria inicialmente uma viagem de ida e de regresso acaba por se transformar, através de uma série de suposições e mal-entendidos, num calvário pessoal de detenções, tortura, deportações e trabalhos forçados nos tristemente célebres GULAG’s, campos de “reeducação” da antiga União Soviética.

Paralelamente acompanhamos o crescimento do seu filho Dolboy, enquanto este atravessa a correr os campos de uma Holanda rural, transformando-se mais tarde num atleta de elite que abdicará da glória para se reconciliar não com o passado, mas com a memória de parte desse passado.

O destino de ambos será marcado mais do que pela separação inicial, pelas vivências entretanto ocorridas no final da guerra e durante a década de cinquenta do século XX. Para Cornelius essa viagem inicial de descoberta não terá regresso; apenas um ponto de chegada que coincide com uma segunda casa, onde se criam novas referências, novas comunidades afectivas, perto daqueles que se tornaram com o tempo e no decorrer de uma experiência exílica bastante traumática, na sua nova família.

Como refere o autor numa nota introdutória, a história narrada não aconteceu. “Mas muito do que conta aconteceu”:

“Tendo servido a sua pena de dez anos num campo de trabalho correcional na administração do GULAG, a mil e seiscentos quilómetros a leste da civilização, Cornelius van Baerle não tinha absolutamente nenhuma energia para planear uma viagem para oeste. O seu único desejo, enquanto trabalhou na tinta, era parar. Acordar uma manhã no seu casebre de troncos e ficar a alimentar o fogão de fabrico caseiro em lugar de transformar torrões sólidos em pó ao longo de todo o dia: era o seu sonho. Não desejava mais nada. O campo era a sua casa e os seus escravos a sua família. Quando olhava para fora depois de uma noite de neve e via os abetos vergados sob o seu peso, e clarões de magnésio através da névoa, sentia o conforto de coisas familiares. Depois de receber os documentos que atestavam o cumprimento da sua obrigação para com o Estado, mudou-se para uma colónia nos arrabaldes distantes do campo onde antigos presidiários passavam o resto das suas vidas. Tinham sobrevivido, e mais: tinham encontrado o seu lugar no mundo. Como homens que tinham combatido uma guerra juntos, formavam uma fraternidade.” (pp. 252-253)

Karl Manders (2007) Borboletas Nocturnas, Tradução de Isabel Alves, Civilização Editora, Porto

The novel by Karl Manders addresses the issue of exile from the point of view of the Dutch businessman Cornelius van Baerle who, by suggestion of a co-worker, travels almost in the end of the Second World War, trying to confirm and register the reports that emerged at the time in the form of rumors of the atrocities inflicted in the Nazi concentration camps. What would initially be a two-way trip ends up becoming, through a series of assumptions and misunderstandings, a personal tribulation of detention, torture, deportation and forced labor in the infamous GULAG’s, the “reeducation” camps of the former Union Soviet Union.

At the same time we follow the growth of his son Dolboy, as he crosses the fields of rural Holland, later becoming an elite athlete who will give up his glory to reconcile not with the past but with the memory of part of that past.

The fate of both will be marked more than by the initial separation, by the experiences that occurred at the end of the war and during the 1950s. For Cornelius this initial voyage of discovery will have no return, just an arrival point that coincides with a second home, where new references and new affective communities are created, close to those that have developed to be over time and in the course of a rather traumatic exile experience, his new family.

“Having served his ten-year sentence in a correctional field at the GULAG administration, sixteen hundred miles east of civilization, Cornelius van Baerle had absolutely no energy to plan a trip back west. His only desire, as he labored in ink, was to stop. Wake up one morning in his log cabin and stay feeding the homemade stove instead of turning clod into dust throughout the day: it was his dream. He wanted nothing more. The field was his house and his slaves his family. When he looked out after a night of snow and saw the spruce trees to sag under its weight, and flashes of magnesium through the mist, he felt the comfort of familiar things. After receiving the documents attesting to the fulfillment of his obligation to the state, he moved to a colony in the outlying suburbs of the countryside where former inmates were to spent the rest of their lives. They had survived, and more: they had found their place in the world. Like men who had fought a war together, they formed a fraternity. ”

Original title: Moths (2007)

 

“Madrid”, de Pablo Neruda

Do volume “España en el corazón: himno a las glorias del pueblo en la guerra”, visão do poeta chileno sobre a Guerra Civil Espanhola (Julho 1936 – Abril 1939).

MADRID

(1936)

Madrid sola y solemne, julio te sorprendió con tu alegría
de panal pobre: clara era tu calle,
claro era tu sueno.
Un hipo negro
de generales, una ola
de sotanas rabiosas
rompió entre tus rodillas
sus cenagales aguas, sus ríos de gargajo.

Con los ojos heridos todavía de sueño,
con escopeta y piedras, Madrid, recién herida,
te defendiste. Corrías
por las calles
dejando estelas de tu santa sangre,
reuniendo y llamando con una voz de océano,
con un rostro cambiado para siempre
por la luz de la sangre, como una vengadora
montaña, como una silbante
estrella de cuchillos.

Cuando en los tenebrosos cuarteles, cuando en las sacristías
de la traición entró tu espada ardiendo,
no hubo sino silencio de amanecer, no hubo
sino tu paso de banderas,
y una honorable gota de sangre en tu sonrisa.

 

In España en el corazón, Himno a las Glorias del Pueblo en la Guerra, El Comisariado del Ejército del Este, Ediciones literarias [1936] versão online consultada a 17-10-2016.

Porque escolhi viver, de Yeonmi Park

yeonmi Park

“Porque escolhi viver” relata a fuga da jovem Yeonmi Park da Coreia do Norte, passando pela China onde, conjuntamente com a sua mãe foi vítima de tráfico, até se estabelecer como exilada na Coreia do Sul atravessando a fronteira através da Mongólia. Yeonmi Park é actualmente activista e defensora dos direitos humanos, participando em fóruns e conferências pelo mundo fora. As citações, retiradas do prólogo do livro, resumem de forma bastante concisa mas esclarecedora o percurso de Yeonmi e da sua família e dos diferentes destinos que viver sob um regime ditatorial podem originar. Como escreverá mais à frente no livro, “quando somos muito pequenos, só conhecemos aquilo que temos à frente dos olhos. (…) Parecia-me normal que houvesse alturas em que tínhamos comida e outras em que só havia uma refeição por dia e passávamos fome. (…) Eu e a minha irmã dizíamos que, se alguma vez chegássemos a adultas, usaríamos o nosso dinheiro para comer pão até ficarmos saciadas” (pp.58-59).

Por essa razão, por ter percebido e entendido o mundo através de duas realidades paralelas e aparentemente intocáveis (haverá sempre um antes e um depois da fuga e um antes e um depois da morte do pai), o seu testemunho torna-se ainda mais importante e simultaneamente mais comovedor:

“Sinto-me muito grata por duas coisas: por ter nascido na Coreia do Norte e por ter fugido da Coreia do Norte. Foram esses dois acontecimentos que fizeram de mim o que sou, e não os trocaria por uma vida mais normal e pacífica. Mas há outras coisas que explicam como me tornei a pessoa que sou hoje.

Como dezenas de milhares de outros norte-coreanos, fugi da minha pátria e instalei-me na Coreia do Sul, de que continuamos a ser considerados cidadãos, como se uma fronteira fechada e quase setenta anos de conflito e tensão não nos dividissem. (…)

Cheguei à Coreia do Sul na Primavera de 2009, uma rapariga de quinze anos sem dinheiro e com o equivalente ao segundo ano do ensino básico. Cinco anos mais tarde, estava a estudar numa das melhores universidades de Seul, (…) e tinha cada vez mais consciência da necessidade urgente de justiça na terra onde nasci.

Já contei a história da minha fuga da Coreia do Norte muitas vezes, em muitos fóruns. Já descrevi a forma como eu e a minha mãe fomos enganadas pelos traficantes de seres humanos que nos levaram para a China, e como a minha mãe me protegeu e se sacrificou sendo violada no meu lugar. Uma vez na China, continuámos à procura da minha irmã, sem sucesso. O meu pai atravessou a fronteira para se juntar a nós na busca, mas morreu de cancro poucos meses depois. Em 2009, eu a minha mãe fomos salvas por missionários cristãos, que nos conduziram à fronteira da China com a Mongólia. Então, numa interminável noite de Inverno, atravessámos o gelado deserto de Gobi, seguindo as estrelas para a liberdade.

Tudo isto é verdade, mas não é a história toda. (…)

Não contei quase nada da minha história aos outros desertores e aos defensores dos direitos humanos que conheci na Coreia do Sul. Acreditava, de alguma forma, que se me recusasse a reconhecer o meu indizível passado, ele acabaria por desaparecer. Convenci-me de que muito daquilo não acontecera; ensinei-me a esquecer o resto.

Mas, quando comecei a escrever este livro, percebi que sem toda a verdade, a minha vida não teria qualquer poder, não teria qualquer significado real. (…) O processo de escrita tem sido o processo da memória e o de tentar compreender as recordações. (…) Compreendo que, por vezes, a única maneira de conseguirmos sobreviver às nossas próprias memórias é moldá-las numa história que dê sentido a acontecimentos que parecem inexplicáveis.” (pp.18-20)

Yeonmi Park in “Porque escolhi Viver – A minha fuga da Coreia do Norte”, Tradução de Ester Cortegano. Editora Objectiva, Lisboa, 2016. pp.18-20 e 58-59.

A Pátria, poema de Julio Cortázar

Pátria de longe, mapa,

mapa de nunca.

Porque o ontem é nunca

e o amanhã manhã.

 

Guardo um odor de trevo,

uma rua com árvores,

uma recontagem de mãos,

uma luz sobre o rio.

 

Pátrias, cartas que chegam

e outras que voltam,

pássaros de papel

sobre o mapa voando.

 

Porque o ontem é nunca

e o amanhã manhã.

 

Julio Cortázar in “Papéis Inesperados”, tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de Ferro, Lisboa, 2010, p. 484.