Brasil, de John Updike

Neste rjohnupdike_brasilomance, John Updike, mestre da narrativa longa, mais conhecido pelos livros da série “Coelho” e pelo livro “As viúvas de Eastwick”, recupera – embora que de forma muito particular – o mito de Tristão e Isolda, transportando os dois personagens principais numa viagem ao fundo da alma e dos limites e possibilidades do amor, tendo como pano de fundo cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, mas também as florestas da Amazónia. Sendo um autor que predominantemente escreve, e de forma exímia, sobre o modo de vida americano, Updike confessa no posfácio ter-se apoiado em variada bibliografia para a preparação do romance, incluindo “Sertões” de Euclides da Cunha, “Tristes Tropiques” de Claude Lévi-Strauss, “Trough the Brazilian Wilderness” de Theodore Roosevelt, e em outros autores como Gilberto Freyre, Elisabeth Bishop, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Jorge Amado, entre outros.

“São Paulo

Apanharam o comboio que serpenteou ao longo do litoral atlântico em direcção ao Sudoeste, rumo a São Paulo. Os debotados assentos de pelúcia lançavam pó quando os carris descreviam curvas e, pelas janelas sujas, penetravam setas inclinadas de luz. (…) À esquerda do comboio corriam pequenas aldeias de pescadores com telhados de telha vermelha, antigos engenhos de açúcar de forma cónica, palmeiras agitando-se, praias brancas em forma de foice brilhando ao sol, cortadas pela abrasão rítmica do cintilante mar azul. À direita viam-se ameaçadores cumes rochosos, coroados de verde, pães verticais de granito. A maior parte do Brasil é uma mesa suavemente montanhosa e as serras costeiras são as pernas dessa mesa.” (p.45)

“Brasília

Vistas à meia-noite, de um avião, as luzes de Brasília traçam a forma de uma aeronave com longas asas curvas sobre o vasto quadro negro do interior brasileiro. A cidade parece flutuar no vazio como uma constelação e depois inclinar-se como se rodasse para a descolagem depois da própria posição estacionária no espaço. Aterra-se num sussurro como se não se pisasse terra firme. No aeroporto o ar é fresco e surpreendentemente cheio da gente que entra e sai, apesar do adiantado da hora, porque este é um lugar onde muitos poucos querem estar, mas onde muitos têm onde ir.” (p.67)

Brasil, de John Updike, Tradução de Carmo Romão, Civilização Editora,Porto, 2006 (ed. or. 1994).

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