a simultaneidade do que acontece no mundo e a indiferença

“Ao saber das notícias esmagadoras do grande terramoto que arrasou Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 e (a crer nos historiadores) arrastou consigo o optimismo da sociedade (…), o grande Voltaire ficou chocado perante a incapacidade de aceitar o que tinha acontecido longe de si. ‘Lisboa jaz em ruínas’, escreveu Voltaire, ‘e aqui em Paris dançamos’.

Poderíamos supor que no século XX, na era do genocídio, as pessoas não considerem nem paradoxal, nem surpreendente que possa ser indiferente ao que acontece, simultaneamente, algures. Não é verdade que faz parte da estrutura fundamental da consciência que ‘agora’ se refere tanto a ‘aqui’ como a ‘ali’? E, no entanto, arrisco-me a afirmá-lo, somos tão capazes de ficar surpreendidos – e frustrados pela inadequação da nossa resposta – pela simultaneidade de destinos humanos tão drasticamente contrastantes como o era Voltaire há dois séculos e meio. Talvez seja nosso eterno fado ficarmos surpreendidos pela simultaneidade dos acontecimentos – pela pura extensão do mundo no tempo e no espaço. Por aqui estarmos aqui, agora prósperos, seguros, com poucas probabilidades de nos deitarmos com fome ou de sermos feitos em pedaços esta noite… enquanto algures no mundo, neste preciso momento… em Grosny, em Najaf, no Sudão, no Congo, em Gaza, nas favelas do Rio de Janeiro…

Ser um viajante – e os romancistas são frequentemente viajantes – é ser constantemente alertado para a simultaneidade do que acontece no mundo, o nosso mundo e o mundo diferente que visitámos e de onde voltámos para ‘casa’.

É o princípio de uma resposta a esta dolorosa consciência dizermos: é uma questão de solidariedade… dos limites da imaginação. Podemos também dizer que não é ‘natural’ estarmos sempre a lembrar-nos de que o mundo é tão… vasto. Que enquanto uma coisa acontece, acontece outra coisa também.

É verdade.

Mas isso, responderia eu, é a razão por que precisamos da ficção: para alargar o nosso mundo.”

Ao mesmo tempo, Susan Sontag, tradução de José Lima, Quetzal, Lisboa, 2011, pp. 246-247

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s