Porque escolhi viver, de Yeonmi Park

yeonmi Park

“Porque escolhi viver” relata a fuga da jovem Yeonmi Park da Coreia do Norte, passando pela China onde, conjuntamente com a sua mãe foi vítima de tráfico, até se estabelecer como exilada na Coreia do Sul atravessando a fronteira através da Mongólia. Yeonmi Park é actualmente activista e defensora dos direitos humanos, participando em fóruns e conferências pelo mundo fora. As citações, retiradas do prólogo do livro, resumem de forma bastante concisa mas esclarecedora o percurso de Yeonmi e da sua família e dos diferentes destinos que viver sob um regime ditatorial podem originar. Como escreverá mais à frente no livro, “quando somos muito pequenos, só conhecemos aquilo que temos à frente dos olhos. (…) Parecia-me normal que houvesse alturas em que tínhamos comida e outras em que só havia uma refeição por dia e passávamos fome. (…) Eu e a minha irmã dizíamos que, se alguma vez chegássemos a adultas, usaríamos o nosso dinheiro para comer pão até ficarmos saciadas” (pp.58-59).

Por essa razão, por ter percebido e entendido o mundo através de duas realidades paralelas e aparentemente intocáveis (haverá sempre um antes e um depois da fuga e um antes e um depois da morte do pai), o seu testemunho torna-se ainda mais importante e simultaneamente mais comovedor:

“Sinto-me muito grata por duas coisas: por ter nascido na Coreia do Norte e por ter fugido da Coreia do Norte. Foram esses dois acontecimentos que fizeram de mim o que sou, e não os trocaria por uma vida mais normal e pacífica. Mas há outras coisas que explicam como me tornei a pessoa que sou hoje.

Como dezenas de milhares de outros norte-coreanos, fugi da minha pátria e instalei-me na Coreia do Sul, de que continuamos a ser considerados cidadãos, como se uma fronteira fechada e quase setenta anos de conflito e tensão não nos dividissem. (…)

Cheguei à Coreia do Sul na Primavera de 2009, uma rapariga de quinze anos sem dinheiro e com o equivalente ao segundo ano do ensino básico. Cinco anos mais tarde, estava a estudar numa das melhores universidades de Seul, (…) e tinha cada vez mais consciência da necessidade urgente de justiça na terra onde nasci.

Já contei a história da minha fuga da Coreia do Norte muitas vezes, em muitos fóruns. Já descrevi a forma como eu e a minha mãe fomos enganadas pelos traficantes de seres humanos que nos levaram para a China, e como a minha mãe me protegeu e se sacrificou sendo violada no meu lugar. Uma vez na China, continuámos à procura da minha irmã, sem sucesso. O meu pai atravessou a fronteira para se juntar a nós na busca, mas morreu de cancro poucos meses depois. Em 2009, eu a minha mãe fomos salvas por missionários cristãos, que nos conduziram à fronteira da China com a Mongólia. Então, numa interminável noite de Inverno, atravessámos o gelado deserto de Gobi, seguindo as estrelas para a liberdade.

Tudo isto é verdade, mas não é a história toda. (…)

Não contei quase nada da minha história aos outros desertores e aos defensores dos direitos humanos que conheci na Coreia do Sul. Acreditava, de alguma forma, que se me recusasse a reconhecer o meu indizível passado, ele acabaria por desaparecer. Convenci-me de que muito daquilo não acontecera; ensinei-me a esquecer o resto.

Mas, quando comecei a escrever este livro, percebi que sem toda a verdade, a minha vida não teria qualquer poder, não teria qualquer significado real. (…) O processo de escrita tem sido o processo da memória e o de tentar compreender as recordações. (…) Compreendo que, por vezes, a única maneira de conseguirmos sobreviver às nossas próprias memórias é moldá-las numa história que dê sentido a acontecimentos que parecem inexplicáveis.” (pp.18-20)

Yeonmi Park in “Porque escolhi Viver – A minha fuga da Coreia do Norte”, Tradução de Ester Cortegano. Editora Objectiva, Lisboa, 2016. pp.18-20 e 58-59.

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