Onde os rios têm marés, de Ana Isabel Mineiro

“A estrada para Karakorum, que oficialmente começa pouco depois de Taxila, redobra de interesse a partir daqui. (…) As vistas são ao mesmo tempo, impressionantes e delicadas. As montanhas erguem-se, altas, dos dois lados da estrada, carecas de vegetação. São feitas de rocha pura, em tons de castanho e de cinzento, que de vez em quando desaba sobre a estrada bloqueando-a e destruindo o asfalto e as protecções. As únicas manchas verdes são as aldeias e os seus campos, pequenos paraísos de humana criação, armados em socalcos, onde se escondem casas baixas da cor da pedra, e de onde se erguem penachos verdes de choupos. Mesmo junto aos rios que correm com fúria nos vales, quase nada nasce sem ajuda humana, e as únicas variações na cor da paisagem são algumas praias de areia branca polvilhadas por rochas negras. Enquanto na Europa os aglomerados humanos acartam a perda de vegetação que nasce naturalmente da terra, aqui significam verdura numa terra naturalmente árida. As aldeias são oásis verdes e frescos num deserto de montanhas. Nem a neve permanente dos picos mais altos – e fazem parte da cordilheira de Karakorum pelo menos uma dúzia dos picos mais altos do planeta –, ou os glaciares que cobrem cerca de 25% desta região, conseguem mais do que arbustos secos em ilhotas pedregosas no meio dos rios. O resto é arrancado à força de braços. Braços que limpam a terra das pedras e as usam em casas e muros; braços que preparam os campos, que plantam, regam e, mais importante que tudo, cabeças que criaram sistemas de irrigação por canais que vêm às vezes de pontos muito altos até à aldeia, e que necessitam de constante manutenção. Mas este génio e este esforço não se alcançam das janelas do autocarro. Só a beleza dos lugares, a gentileza e discrição com que as aldeias se inscrevem nos flancos das montanhas.”

Ana Isabel Mineiro (2008) Onde os rios têm marés, Via Óptima.

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