Viagem por África. Do Cairo à Cidade do Cabo, de Paul Theroux

Em três horas que passei no cais do ferry de Port Bell, observei os tecelões a construírem os ninhos nas hastes de papiro da margem do rio. Tinham-me destinado o ferry Kabalega.

– Já vai, já vai – disse-me um funcionário do porto. – Estão a soldar o barco. – Uma águia pesqueira investiu subitamente. Um homem que lançava uma rede tirou-a da água, após várias tentativas, só com uns peixes minúsculos. Passou mais uma hora. Perto de uns barcos afundados, uns dez ou doze rapazes pescavam com canas de bamboo. Não estavam a divertir-se, estavam a pescar para poderem comer. Mais uma hora.

Comecei a passear de um lado para o outro, recordando que todos os livros que tinha lido sobre África continham longas passagens, e por vezes muitas páginas, sobre atrasos. “Permanecemos vários dias no complexo do chefe, à espera que ele nos autorizasse a regressar à costa”, é uma frase que ocorre em muitos livros sobre explorações africanas. A viagem de Burton por África contém brados de lamento contra os atrasos; o mesmo acontece na de Livingstone e de todos os outros. Livingstone, que estava convencido de que “a prisão de ventre traz febre pela certa”, ordenava aos seus homens que fizessem longas marchas pelo mato, porque esse esforço era eficaz para os intestinos. “[Em África,] devido à mudança de clima, é frequente dar-se uma peculiar situação intestintal, que faz com que o indivíduo imagine todo o tipo de coisas.” Para Livingstone, os atrasos significavam prisão de ventre. O Coração das Trevas é uma obra de atrasos exasperantes e dramáticos, e até a narrativa é obstrutiva – hesitante e deliberadamente tangencial. O atraso apresenta-se, aqui e ali, como uma forma de suspense que obriga o leitor a concentrar-se, mas é, com mais frequência, uma maçada que o enerva. Mas o que é que isso interessa? Este parágrafo já vai longo de mais.

Por vezes, parece que África é um local para onde se vai para esperar. Muitos africanos que eu conheci diziam a mesma coisa, mas sem ser em tom de queixa, porque muitos deles viviam a sua vida com uma paciência de fatalista. Vista de fora, África é um continente atrasado – com as economias em suspenso, as sociedades erguidas no ar, a política e os direitos humanos à espera, as comunidades estranguladas ou detidas. “Esperem um pouco”, foram sugerindo as vozes das autoridades aos africanos ao longo dos anos de colonização e independência. Mas o tempo dos africanos não era o mesmo que o tempo dos americanos. Uma geração no Ocidente correspondia a duas gerações em África, onde os adolescentes eram pais de família e aos trinta e poucos anos as pessoas estavam com os pés para a cova. Enquanto o tempo africano passava, eu ia pensando que o ritmo dos países ocidentais era uma loucura, que a rapidez da tecnologia moderna não tinha qualquer efeito e que, por seguir o seu próprio caminho, ao seu próprio ritmo, por razões que eram as suas, África era um refúgio e um local de repouso, o último território pelo qual valia a pena alguém animar-se. Desconfiava disso, mas nem sempre achava que fosse assim; sou impaciente por natureza.

Viagem Por África. Do Cairo à Cidade do Cabo, Quetzal Editores, 2019, p.288-289.

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