Borboletas nocturnas, de Karl Manders

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(for the english translation of this text, scroll down, please.)

O romance Borboletas nocturnas, de Karl Manders, aborda a temática do exílio a partir do ponto de vista do personagem Cornelius van Baerle, empresário holandês, que por sugestão de um colega de trabalho parte, quase no final da segunda guerra mundial, para tentar confirmar e registar os relatos das atrocidades ocorridas em campos de concentração nazis. O que seria inicialmente uma viagem de ida e de regresso acaba por se transformar, através de uma série de suposições e mal-entendidos, num calvário pessoal de detenções, tortura, deportações e trabalhos forçados nos tristemente célebres GULAG’s, campos de “reeducação” da antiga União Soviética.

Paralelamente acompanhamos o crescimento do seu filho Dolboy, enquanto este atravessa a correr os campos de uma Holanda rural, transformando-se mais tarde num atleta de elite que abdicará da glória para se reconciliar não com o passado, mas com a memória de parte desse passado.

O destino de ambos será marcado mais do que pela separação inicial, pelas vivências entretanto ocorridas no final da guerra e durante a década de cinquenta do século XX. Para Cornelius essa viagem inicial de descoberta não terá regresso; apenas um ponto de chegada que coincide com uma segunda casa, onde se criam novas referências, novas comunidades afectivas, perto daqueles que se tornaram com o tempo e no decorrer de uma experiência exílica bastante traumática, na sua nova família.

Como refere o autor numa nota introdutória, a história narrada não aconteceu. “Mas muito do que conta aconteceu”:

“Tendo servido a sua pena de dez anos num campo de trabalho correcional na administração do GULAG, a mil e seiscentos quilómetros a leste da civilização, Cornelius van Baerle não tinha absolutamente nenhuma energia para planear uma viagem para oeste. O seu único desejo, enquanto trabalhou na tinta, era parar. Acordar uma manhã no seu casebre de troncos e ficar a alimentar o fogão de fabrico caseiro em lugar de transformar torrões sólidos em pó ao longo de todo o dia: era o seu sonho. Não desejava mais nada. O campo era a sua casa e os seus escravos a sua família. Quando olhava para fora depois de uma noite de neve e via os abetos vergados sob o seu peso, e clarões de magnésio através da névoa, sentia o conforto de coisas familiares. Depois de receber os documentos que atestavam o cumprimento da sua obrigação para com o Estado, mudou-se para uma colónia nos arrabaldes distantes do campo onde antigos presidiários passavam o resto das suas vidas. Tinham sobrevivido, e mais: tinham encontrado o seu lugar no mundo. Como homens que tinham combatido uma guerra juntos, formavam uma fraternidade.” (pp. 252-253)

Karl Manders (2007) Borboletas Nocturnas, Tradução de Isabel Alves, Civilização Editora, Porto

The novel by Karl Manders addresses the issue of exile from the point of view of the Dutch businessman Cornelius van Baerle who, by suggestion of a co-worker, travels almost in the end of the Second World War, trying to confirm and register the reports that emerged at the time in the form of rumors of the atrocities inflicted in the Nazi concentration camps. What would initially be a two-way trip ends up becoming, through a series of assumptions and misunderstandings, a personal tribulation of detention, torture, deportation and forced labor in the infamous GULAG’s, the “reeducation” camps of the former Union Soviet Union.

At the same time we follow the growth of his son Dolboy, as he crosses the fields of rural Holland, later becoming an elite athlete who will give up his glory to reconcile not with the past but with the memory of part of that past.

The fate of both will be marked more than by the initial separation, by the experiences that occurred at the end of the war and during the 1950s. For Cornelius this initial voyage of discovery will have no return, just an arrival point that coincides with a second home, where new references and new affective communities are created, close to those that have developed to be over time and in the course of a rather traumatic exile experience, his new family.

“Having served his ten-year sentence in a correctional field at the GULAG administration, sixteen hundred miles east of civilization, Cornelius van Baerle had absolutely no energy to plan a trip back west. His only desire, as he labored in ink, was to stop. Wake up one morning in his log cabin and stay feeding the homemade stove instead of turning clod into dust throughout the day: it was his dream. He wanted nothing more. The field was his house and his slaves his family. When he looked out after a night of snow and saw the spruce trees to sag under its weight, and flashes of magnesium through the mist, he felt the comfort of familiar things. After receiving the documents attesting to the fulfillment of his obligation to the state, he moved to a colony in the outlying suburbs of the countryside where former inmates were to spent the rest of their lives. They had survived, and more: they had found their place in the world. Like men who had fought a war together, they formed a fraternity. ”

Original title: Moths (2007)

 

Porque escolhi viver, de Yeonmi Park

yeonmi Park

“Porque escolhi viver” relata a fuga da jovem Yeonmi Park da Coreia do Norte, passando pela China onde, conjuntamente com a sua mãe foi vítima de tráfico, até se estabelecer como exilada na Coreia do Sul atravessando a fronteira através da Mongólia. Yeonmi Park é actualmente activista e defensora dos direitos humanos, participando em fóruns e conferências pelo mundo fora. As citações, retiradas do prólogo do livro, resumem de forma bastante concisa mas esclarecedora o percurso de Yeonmi e da sua família e dos diferentes destinos que viver sob um regime ditatorial podem originar. Como escreverá mais à frente no livro, “quando somos muito pequenos, só conhecemos aquilo que temos à frente dos olhos. (…) Parecia-me normal que houvesse alturas em que tínhamos comida e outras em que só havia uma refeição por dia e passávamos fome. (…) Eu e a minha irmã dizíamos que, se alguma vez chegássemos a adultas, usaríamos o nosso dinheiro para comer pão até ficarmos saciadas” (pp.58-59).

Por essa razão, por ter percebido e entendido o mundo através de duas realidades paralelas e aparentemente intocáveis (haverá sempre um antes e um depois da fuga e um antes e um depois da morte do pai), o seu testemunho torna-se ainda mais importante e simultaneamente mais comovedor:

“Sinto-me muito grata por duas coisas: por ter nascido na Coreia do Norte e por ter fugido da Coreia do Norte. Foram esses dois acontecimentos que fizeram de mim o que sou, e não os trocaria por uma vida mais normal e pacífica. Mas há outras coisas que explicam como me tornei a pessoa que sou hoje.

Como dezenas de milhares de outros norte-coreanos, fugi da minha pátria e instalei-me na Coreia do Sul, de que continuamos a ser considerados cidadãos, como se uma fronteira fechada e quase setenta anos de conflito e tensão não nos dividissem. (…)

Cheguei à Coreia do Sul na Primavera de 2009, uma rapariga de quinze anos sem dinheiro e com o equivalente ao segundo ano do ensino básico. Cinco anos mais tarde, estava a estudar numa das melhores universidades de Seul, (…) e tinha cada vez mais consciência da necessidade urgente de justiça na terra onde nasci.

Já contei a história da minha fuga da Coreia do Norte muitas vezes, em muitos fóruns. Já descrevi a forma como eu e a minha mãe fomos enganadas pelos traficantes de seres humanos que nos levaram para a China, e como a minha mãe me protegeu e se sacrificou sendo violada no meu lugar. Uma vez na China, continuámos à procura da minha irmã, sem sucesso. O meu pai atravessou a fronteira para se juntar a nós na busca, mas morreu de cancro poucos meses depois. Em 2009, eu a minha mãe fomos salvas por missionários cristãos, que nos conduziram à fronteira da China com a Mongólia. Então, numa interminável noite de Inverno, atravessámos o gelado deserto de Gobi, seguindo as estrelas para a liberdade.

Tudo isto é verdade, mas não é a história toda. (…)

Não contei quase nada da minha história aos outros desertores e aos defensores dos direitos humanos que conheci na Coreia do Sul. Acreditava, de alguma forma, que se me recusasse a reconhecer o meu indizível passado, ele acabaria por desaparecer. Convenci-me de que muito daquilo não acontecera; ensinei-me a esquecer o resto.

Mas, quando comecei a escrever este livro, percebi que sem toda a verdade, a minha vida não teria qualquer poder, não teria qualquer significado real. (…) O processo de escrita tem sido o processo da memória e o de tentar compreender as recordações. (…) Compreendo que, por vezes, a única maneira de conseguirmos sobreviver às nossas próprias memórias é moldá-las numa história que dê sentido a acontecimentos que parecem inexplicáveis.” (pp.18-20)

Yeonmi Park in “Porque escolhi Viver – A minha fuga da Coreia do Norte”, Tradução de Ester Cortegano. Editora Objectiva, Lisboa, 2016. pp.18-20 e 58-59.

‘Escritos do Exílio’, Courrier Internacional

Em destaque na edição portuguesa de Dezembro da Courrier Internacional (n. 238, Dez. 2015), um dossier sobre experiências vividas por alguns escritores e filósofos no exílio. Testemunhos de Mohammad al-Attar (Síria), Ngugi wa Thiong’o (Quénia), Santiago Gamboa (Colômbia), Ramin Jahanbegloo (Irão), Tenzin Nyingjey (Tibete), Fatima Butto (Paquistão) e Abdou Semmar (Argélia).

courrier escritos do exílio

‘Palestina’, romance de Hubert Haddad

“À escuta, Falastìn abranda o passo sem virar a cabeça. Um ligeiro ruído nas suas costas fá-la reter o fôlego. Não é que se sinta apreensiva, o medo não a atinge; mas a tristeza invade-a, semelhante a um desejo de destruição, a um gosto brusco pela queda, sempre que sujeita a qualquer ameaça, física ou moral. Apesar disso, recompõe-se  e demonstra indiferença. Nada se pode contra o verdadeiro desprendimento. E esse constrangimento que a si própria impõe liberta, pouco a pouco, o seu espírito do perigo: já não tem costas. A paisagem arrebata-a de novo; avalia-a, inteira, como o pássaro de asas ciumentas. As altas colinas a leste de Hebron são dobras grossas na cabeça de um Golias: vê-se a sua face deitada sobre o local, o enrugamento das arcadas e as mandíbulas. A norte, na direcção do vale de Bekaa, de onde parte o sector sul do muro de segurança, distinguem-se as novas obras das estradas que ligam Harsina a Kiryat Arba, reservados aos colonos. Reduzidas a pó, as casas destruídas nesse eixo, vinte e duas nas últimas semanas, tingem a giz a sangria dos tanques e buldózeres gigantes. Para lá da mais antiga implantação colonial do protectorado, cidadela de betão acima da cidade velha, tudo passou sob as lagartas dos blindados: quintas, vinhas e pomares, com o objectivo confesso de criar uma continuidade territorial do lado de Diar al-Mahawer e na direcção de Wadi al-Groos. Centenas de dounous de terra vital foram anexadas pelo ocupante. Sem contar com as confiscações dos diversos sectores que envolvem as partes norte e noroeste de Kiryat Arba, transformados em novos aterros para a circular privada que liga Jerusalém aos colonatos ilegais do centro de Hebron: Tel-Rumeida, Beit Hassadah, Beit Romano, Avraham Avinu…

Falastìn escuta o ruído dos seus próprios passos. Não será tudo ilegal à volta dela? O país é tão estreito que o menor abuso depressa se repercute em todo o lado. Do alto da colina, se ela tivesse forças para a subir, alargar-se-ia a perspectiva dos territórios cedidos, sucata disseminada como as manchas de um leopardo, demarcados por absurdas balizas de betão e arame farpado, entre o mar Morto e o deserto; algumas dezenas de quilómetros de um país enclausurado entre quatro pedaços de horizonte. Chegar a Belém, Ramallah ou mesmo a Nablus, levava outrora menos tempo do que alcançar hoje a porta ao lado, graças aquela loucura de obstáculos de todos os géneros. Para lá dos bairros emparedados de Hebron, entre duas colinas desflorestadas, as tendas dos campos de refugiados de al-Arkop ondulam ao ar coberto de poeira. Os disparos prolongados aí dia e noite, assim como nas cidades vizinhas de Dora e Kharsa. E por todo o lado o mesmo, naquela Cisjordânia despedaçada a que colonos desembarcados de Nova Iorque ou de Paris, reclamando-se seus derradeiros herdeiros, chamam Judeia-Samaria.”

‘Palestina’ de Hubert Haddad, tradução de Ana Cristina Leonardo, Edições Quetzal, 2009, pp. 43-44

Notas sobre os ‘refugiados’ em Amor Líquido, de Zygmunt Bauman

“Os refugiados se tornaram, à imagem caricatural da nova elite do poder no mundo globalizado, a epítome daquela extraterritorialidade em que se fincam as raízes da atual precarité da condição humana, que tem lugar de destaque entre os temores e ansiedades de nossos dias. Esses temores e ansiedades, procurando em vão por outros escoadouros, despejaram-se sobre o ressentimento e o medo que os refugiados provocam. Não podem ser desativados nem dispersos num confronto direto com a outra encarnação da extraterritorialidade, a elite global flutuando além do alcance do controle humano, poderosa demais para que se possa enfrentá-la. Os refugiados, ao contrário, são um alvo fixo em que se descarregar o excesso de angústia…

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), há entre 13 e 18 milhões de “vítimas de deslocamento forçado” lutando para sobreviver além das fronteiras dos seus países de origem (sem contar os milhões de refugiados “internos” no Burundi e em Sri Lanka, na Colômbia e em Angola, no Sudão e no Afeganistão, condenados ao nomadismo por força de intermináveis guerras tribais). Destes, mais de seis milhões estão na Ásia, e de sete a oito milhões na África. Há três milhões de refugiados palestinos no Oriente Médio. Essa estimativa é, com certeza, conservadora. Nem todos os refugiados são (ou desejam ser) reconhecidos como tais — só algumas das pessoas deslocadas tiveram a sorte de serem registradas pelo ACNUR e ficarem sob seus cuidados.

Aonde quer que vão, os refugiados são indesejados, e não deixam dúvidas sobre isso. Os identificados como “migrantes econômicos” (ou seja, pessoas que seguem os preceitos da “escolha racional” e assim tentam encontrar formas de subsistência onde elas podem ser encontradas, em vez de ficarem onde elas não existem) são abertamente condenados pelos mesmos governos que fazem de tudo para que a “flexibilidade da força de trabalho” se transforme na principal virtude de seu eleitorado, e que exortam os desempregados de seus próprios países a “correrem atrás” dos compradores de mão-de-obra. Mas a suspeita de motivação econômica também respinga sobre aqueles recém-chegados que, não muito tempo atrás, eram vistos como pessoas no exercício de seus direitos humanos procurando abrigar-se da discriminação e da perseguição. Por associação repetida, a expressão “em busca de asilo” adquiriu um
sabor pejorativo. Grande parte do tempo e da capacidade cerebral dos estadistas da “União Européia” é empregada no planejamento de formas cada vez mais sofisticadas de fechar e fortificar fronteiras, bem como dos processos mais eficazes para se livrarem de pessoas em busca de pão e abrigo que, apesar de tudo, tenham conseguido cruzá-las.

Para não ficar atrás, David Blunkett, ministro do Interior britânico, ameaçou cortar a ajuda dos países de origem dos refugiados caso eles não levassem de volta os “desqualificados em busca de asilo”. Essa não foi a única idéia nova. Blunkett pretende “forçar o ritmo da mudança”, queixando-se de que, devido à falta de energia de outras lideranças européias, “o progresso tem sido muito lento” Ele deseja a criação de uma “força de operações conjuntas”, com a participação de todos os países europeus, e de “uma força-tarefa de especialistas nacionais” para “elaborar avaliações de riscos comuns, identificar os pontos fracos nas … fronteiras externas da União Européia, abordar a questão da migração ilegal por via marítima e pôr fim ao tráfico [novo termo destinado a substituir o conceito de ‘trânsito, anteriormente nobre] de seres humanos”.

Com a cooperação ativa de governos e pessoas influentes que encontram no favorecimento e na instigação de preconceitos populares o único substituto disponível para o confronto das fontes genuínas da incerteza existencial que assalta seus eleitores, as “pessoas em busca de asilo” (como aquelas que reúnem suas forças nos inúmeros Sangattes da Europa, preparando-se para a invasão das ilhas britânicas, ou as que estão para se estabelecer, a menos que as impeçam, em acampamentos estratégicos a poucos quilômetros das residências dos eleitores), essas pessoas estão tomando o lugar das bruxas, dos fantasmas de malfeitores impenitentes e de outros espectros e demônios das lendas urbanas. O novo folclore urbano, em rápida expansão, com as vítimas dessa expulsão planetária no papel de protagonistas mal intencionados, assimila e recicla a tradição oral das arrepiantes histórias de terror que no passado
encontravam uma ávida demanda, gerada, tal como agora, pelas inseguranças da vida na cidade.

Aqueles migrantes que, apesar dos estratagemas mais engenhosos, não podem ser rapidamente deportados, o governo propõe confinar em campos construídos em lugares possivelmente remotos e isolados — medida que transforma em profecia auto-cumprida a crença de que eles não desejam ou não podem ser assimilados à vida econômica do país. Assim, como observa Gary Young, “efetivamente erigem bantustões em torno da zona rural da Inglaterra, encurralam os refugiados de formas que os deixam isolados e vulneráveis”. (Pessoas em busca de asilo, assinala Young, “são mais propensas a serem vítimas de crimes do que a cometê-los”)

Segundo os registros do ACNUR, estão confinados nesses campos 83,2% dos refugiados na África e 95,9% na Ásia. Na Europa, até agora são apenas 14,3%. Mas, até o momento, há poucos sinais de que essa diferença em favor da Europa se sustentará por muito tempo.

Os campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo são artífices de uma instalação temporária que o bloqueio das saídas torna permanente.

Os internos dos campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo não podem voltar “ao lugar de onde vieram”, já que os países de origem não os querem de volta, suas formas de subsistência foram destruídas e seus lares, pilhados, demolidos ou roubados. Mas também não existe um caminho à frente — nenhum governo teria satisfação em ver o influxo de milhões de sem-teto, e qualquer um faria o possível para evitar que os recém-chegados se estabelecessem.

Quanto à sua nova localização “permanentemente temporária, os refugiados “estão nela, mas não são dela”. Não pertencem verdadeiramente ao país em cujo território foram montadas suas cabanas ou tendas portáteis. São separados do restante dele por uma cortina de suspeitas e ressentimentos que é invisível, mas ao mesmo tempo espessa e impenetrável. Estão suspensos num vácuo espacial em que o tempo foi interrompido. Não se estabeleceram nem estão em movimento. Não são sedentários nem nômades.

Nos termos em que habitualmente se descrevem as identidades humanas, eles são inefáveis. São, em carne e osso, os “indecidíveis” de Jacques Derrida. Entre pessoas como nós, que outras valorizam e que se vangloriam das artes da reflexão e auto-reflexão, eles não são apenas intocáveis, mas também impensáveis. Num mundo transbordando de comunidades imaginadas, são inimagináveis. E é recusandolhes o direito de serem imaginados que os outros, agregados em comunidades genuínas ou aspirantes a isso, buscam credibilidade para os seus próprios esforços de imaginação.”

in Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zygmunt Bauman, Tradução de Carlos Alberto Medeiros, Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2004, pp. 75-76 (versão digital)

Quando os violinos se calaram, de Alexander Ramati

Alexander RamatiBaseado em relatos verídicos retratando as atrocidades cometidas sobre o povo Cigano durante o holocausto, Quando os Violinos se Calaram foi escrito em 1985 por Alexander Ramati, tendo sido posteriormente adaptado para cinema, pelo mesmo autor.

“O clarim ressoou pelo campo com uma estridência assustadora. No gabinete abafado, o Dr. Mengele e um corpulento oficial das SS chamado Friedrich Borger discutiam o aspecto associal dos Ciganos, o qual ninguém, nem sequer o Terceiro Reich, parecia capaz de domar. Não havia dúvida de que eram arianos, defendia Mengele, e dentro de cem anos a sua pele e o seu cabelo podiam até tornar-se mais claros, e os seus olhos, azuis – as suas experiências tinham demonstrado que isso era inteiramente possível. Contudo, cem anos dificilmente seria tempo suficiente para alterar o hábito milenar de nunca se fixarem como gente civilizada.

Quando o clarim soou, ele olhou de relance para mim.

– Que pena! – suspirou, como o clarim tivesse tocado para mim. – Vamos embora. – Virou-se para Borger, agarrando a sua bata. Depois, estalou os dedos. – Vem comigo, Dolmetscher. – À frente de desconhecidos, ele nunca me tratava pelo nome próprio.

Lá fora, um grupo de oficiais e subalternos aguardava a chegada de Mengele e de Borger, enquanto guardas armados das SS e kapos alinhavam raparigas ciganas de um dos lados da Lagerstrasse. Uma voz numa das torres de vigia anunciou repetidamente que aquilo era uma transferência de mulheres válidas para ajudar a Alemanha no seu esforço de guerra e que não havia motivo para alarme. Entraram seis camiões no campo e deram a volta, ficando com as rodas da frente tranquilizadoramente apontadas para a saída do campo, em sentido contrário ao do crematório. Os gritos de protesto cessaram, e a disposição das prisioneiras melhorou.

(…)

[Mengele] aproximou-se lentamente das mulheres do nosso barracão, e eu, com o coração acelerado, vi a minha mãe. Os seus olhos estavam esperançosamente fixos em mim, como se a minha presença também a protegesse. Mengele reconheceu-a e não ergueu a chibata, e depois prosseguiu. Respirei mais calmamente; a minha mãe dirigiu-me um sorriso triunfante e agradecido pelo canto da sua boca pálida. Ainda estávamos juntos, ainda éramos uma família.”

Quando os Violinos se Calaram de Alexander Ramati, in Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, pp. 297-298

Arquipélago de Gulag, de Alexander Soljenitsine

20651233“Entre os emigrados encontrava-se Igor Tronko, da minha geração. Travámos amizade. Ambos estávamos enfraquecidos, chupados, com a pele amarelada e engelhada recobrindo os ossos. (Porque é que nos deixamos abater tanto? Penso que devido ao desconcerto espiritual.) Tanto eu como ele éramos magros e altos. Agitados pelos impulsos do vento estival, no pátio de recreio de Butirki, andávamos sempre ao lado um do outro, com um passo cuidadoso de velhos, discutindo as nossas vidas paralelas. Nascemos no mesmo ano, no Sul da Rússia. Ainda mamávamos, quando o destino remexeu na sua velha bolsa e me estendeu a mim uma palhinha curta e a ele uma comprida. A sua sina atirou-o para lá dos mares, embora o seu pai, pretenso guarda branco, fosse um simples e modesto telegrafista.

Para mim era deveras interessante imaginar, através da vida dele, toda a minha geração de compatriotas que ali se encontrava. Eles tinham sido criados sob uma boa protecção familiar, com modesto desafogo ou mesmo com dificuldades. Eram todos muito bem-educados e, de acordo com os seus meios, instruídos. Cresceram, sem conhecer o medo e repressão, embora um certo peso dos dirigentes das organizações de brancos se exercesse sobre eles, enquanto não se tornaram adultos. Cresceram dum modo tal que os vícios do século, que envolviam toda a juventude europeia (…), não os abrangeram, pois desenvolveram-se à sombra da indelével desgraça das suas famílias. Em todos os países onde tinham estado só reconheciam a Rússia como sua pátria. A sua formação espiritual era baseada na literatura russa, tanto mais amada, porque para eles significava o princípio e o fim da sua pátria, a qual, naquele momento, não existia senão como um facto geográfico e físico. As publicações contemporâneas eram-lhes mais acessíveis do que a nós, mas precisamente as edições soviéticas, quase nunca chegavam até eles, e sentiam essa lacuna de um modo agudo, parecendo-lhes que, por isso, não podiam compreender o que havia de mais importante, o que havia de mais elevado e belo na Rússia Soviética. Tudo o que conheciam tinha para eles um ar de deturpação, de mentira, de algo incompleto. As ideias que possuíam sobre a nossa vida autêntica eram das mais pálidas, mas a saudade pela pátria era tal que se no ano de 41 tivessem feito apelo a eles, todos acorreriam ao Exército Vermelho e mesmo mais gratamente para morrer do que para ficar vivos.

(…)

Passávamos longo tempo deitados um ao lado do outro nas tarimbas. Eu aprendi quanto pude do seu mundo, e este encontro abriu-me (o que depois outros encontros confirmaram) à ideia de que sumira pela vala de escoamento da guerra civil uma parte considerável das nossas forças espirituais, privando-nos de um ramo da cultura russa. E todos os que a amam verdadeiramente aspirarão à reunificação dos dois ramos – o da metrópole e o do estrangeiro. Só então ela atingirá a plenitude, só então ela poderá desenvolver-se sem entraves.”

 

Arquipélago de Gulag de Alexander Soljenitsine, Livraria Bertrand, 1975, pp. 234-235