Borboletas nocturnas, de Karl Manders

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(for the english translation of this text, scroll down, please.)

O romance Borboletas nocturnas, de Karl Manders, aborda a temática do exílio a partir do ponto de vista do personagem Cornelius van Baerle, empresário holandês, que por sugestão de um colega de trabalho parte, quase no final da segunda guerra mundial, para tentar confirmar e registar os relatos das atrocidades ocorridas em campos de concentração nazis. O que seria inicialmente uma viagem de ida e de regresso acaba por se transformar, através de uma série de suposições e mal-entendidos, num calvário pessoal de detenções, tortura, deportações e trabalhos forçados nos tristemente célebres GULAG’s, campos de “reeducação” da antiga União Soviética.

Paralelamente acompanhamos o crescimento do seu filho Dolboy, enquanto este atravessa a correr os campos de uma Holanda rural, transformando-se mais tarde num atleta de elite que abdicará da glória para se reconciliar não com o passado, mas com a memória de parte desse passado.

O destino de ambos será marcado mais do que pela separação inicial, pelas vivências entretanto ocorridas no final da guerra e durante a década de cinquenta do século XX. Para Cornelius essa viagem inicial de descoberta não terá regresso; apenas um ponto de chegada que coincide com uma segunda casa, onde se criam novas referências, novas comunidades afectivas, perto daqueles que se tornaram com o tempo e no decorrer de uma experiência exílica bastante traumática, na sua nova família.

Como refere o autor numa nota introdutória, a história narrada não aconteceu. “Mas muito do que conta aconteceu”:

“Tendo servido a sua pena de dez anos num campo de trabalho correcional na administração do GULAG, a mil e seiscentos quilómetros a leste da civilização, Cornelius van Baerle não tinha absolutamente nenhuma energia para planear uma viagem para oeste. O seu único desejo, enquanto trabalhou na tinta, era parar. Acordar uma manhã no seu casebre de troncos e ficar a alimentar o fogão de fabrico caseiro em lugar de transformar torrões sólidos em pó ao longo de todo o dia: era o seu sonho. Não desejava mais nada. O campo era a sua casa e os seus escravos a sua família. Quando olhava para fora depois de uma noite de neve e via os abetos vergados sob o seu peso, e clarões de magnésio através da névoa, sentia o conforto de coisas familiares. Depois de receber os documentos que atestavam o cumprimento da sua obrigação para com o Estado, mudou-se para uma colónia nos arrabaldes distantes do campo onde antigos presidiários passavam o resto das suas vidas. Tinham sobrevivido, e mais: tinham encontrado o seu lugar no mundo. Como homens que tinham combatido uma guerra juntos, formavam uma fraternidade.” (pp. 252-253)

Karl Manders (2007) Borboletas Nocturnas, Tradução de Isabel Alves, Civilização Editora, Porto

The novel by Karl Manders addresses the issue of exile from the point of view of the Dutch businessman Cornelius van Baerle who, by suggestion of a co-worker, travels almost in the end of the Second World War, trying to confirm and register the reports that emerged at the time in the form of rumors of the atrocities inflicted in the Nazi concentration camps. What would initially be a two-way trip ends up becoming, through a series of assumptions and misunderstandings, a personal tribulation of detention, torture, deportation and forced labor in the infamous GULAG’s, the “reeducation” camps of the former Union Soviet Union.

At the same time we follow the growth of his son Dolboy, as he crosses the fields of rural Holland, later becoming an elite athlete who will give up his glory to reconcile not with the past but with the memory of part of that past.

The fate of both will be marked more than by the initial separation, by the experiences that occurred at the end of the war and during the 1950s. For Cornelius this initial voyage of discovery will have no return, just an arrival point that coincides with a second home, where new references and new affective communities are created, close to those that have developed to be over time and in the course of a rather traumatic exile experience, his new family.

“Having served his ten-year sentence in a correctional field at the GULAG administration, sixteen hundred miles east of civilization, Cornelius van Baerle had absolutely no energy to plan a trip back west. His only desire, as he labored in ink, was to stop. Wake up one morning in his log cabin and stay feeding the homemade stove instead of turning clod into dust throughout the day: it was his dream. He wanted nothing more. The field was his house and his slaves his family. When he looked out after a night of snow and saw the spruce trees to sag under its weight, and flashes of magnesium through the mist, he felt the comfort of familiar things. After receiving the documents attesting to the fulfillment of his obligation to the state, he moved to a colony in the outlying suburbs of the countryside where former inmates were to spent the rest of their lives. They had survived, and more: they had found their place in the world. Like men who had fought a war together, they formed a fraternity. ”

Original title: Moths (2007)

 

“Madrid”, de Pablo Neruda

Do volume “España en el corazón: himno a las glorias del pueblo en la guerra”, visão do poeta chileno sobre a Guerra Civil Espanhola (Julho 1936 – Abril 1939).

MADRID

(1936)

Madrid sola y solemne, julio te sorprendió con tu alegría
de panal pobre: clara era tu calle,
claro era tu sueno.
Un hipo negro
de generales, una ola
de sotanas rabiosas
rompió entre tus rodillas
sus cenagales aguas, sus ríos de gargajo.

Con los ojos heridos todavía de sueño,
con escopeta y piedras, Madrid, recién herida,
te defendiste. Corrías
por las calles
dejando estelas de tu santa sangre,
reuniendo y llamando con una voz de océano,
con un rostro cambiado para siempre
por la luz de la sangre, como una vengadora
montaña, como una silbante
estrella de cuchillos.

Cuando en los tenebrosos cuarteles, cuando en las sacristías
de la traición entró tu espada ardiendo,
no hubo sino silencio de amanecer, no hubo
sino tu paso de banderas,
y una honorable gota de sangre en tu sonrisa.

 

In España en el corazón, Himno a las Glorias del Pueblo en la Guerra, El Comisariado del Ejército del Este, Ediciones literarias [1936] versão online consultada a 17-10-2016.