‘Palestina’, romance de Hubert Haddad

“À escuta, Falastìn abranda o passo sem virar a cabeça. Um ligeiro ruído nas suas costas fá-la reter o fôlego. Não é que se sinta apreensiva, o medo não a atinge; mas a tristeza invade-a, semelhante a um desejo de destruição, a um gosto brusco pela queda, sempre que sujeita a qualquer ameaça, física ou moral. Apesar disso, recompõe-se  e demonstra indiferença. Nada se pode contra o verdadeiro desprendimento. E esse constrangimento que a si própria impõe liberta, pouco a pouco, o seu espírito do perigo: já não tem costas. A paisagem arrebata-a de novo; avalia-a, inteira, como o pássaro de asas ciumentas. As altas colinas a leste de Hebron são dobras grossas na cabeça de um Golias: vê-se a sua face deitada sobre o local, o enrugamento das arcadas e as mandíbulas. A norte, na direcção do vale de Bekaa, de onde parte o sector sul do muro de segurança, distinguem-se as novas obras das estradas que ligam Harsina a Kiryat Arba, reservados aos colonos. Reduzidas a pó, as casas destruídas nesse eixo, vinte e duas nas últimas semanas, tingem a giz a sangria dos tanques e buldózeres gigantes. Para lá da mais antiga implantação colonial do protectorado, cidadela de betão acima da cidade velha, tudo passou sob as lagartas dos blindados: quintas, vinhas e pomares, com o objectivo confesso de criar uma continuidade territorial do lado de Diar al-Mahawer e na direcção de Wadi al-Groos. Centenas de dounous de terra vital foram anexadas pelo ocupante. Sem contar com as confiscações dos diversos sectores que envolvem as partes norte e noroeste de Kiryat Arba, transformados em novos aterros para a circular privada que liga Jerusalém aos colonatos ilegais do centro de Hebron: Tel-Rumeida, Beit Hassadah, Beit Romano, Avraham Avinu…

Falastìn escuta o ruído dos seus próprios passos. Não será tudo ilegal à volta dela? O país é tão estreito que o menor abuso depressa se repercute em todo o lado. Do alto da colina, se ela tivesse forças para a subir, alargar-se-ia a perspectiva dos territórios cedidos, sucata disseminada como as manchas de um leopardo, demarcados por absurdas balizas de betão e arame farpado, entre o mar Morto e o deserto; algumas dezenas de quilómetros de um país enclausurado entre quatro pedaços de horizonte. Chegar a Belém, Ramallah ou mesmo a Nablus, levava outrora menos tempo do que alcançar hoje a porta ao lado, graças aquela loucura de obstáculos de todos os géneros. Para lá dos bairros emparedados de Hebron, entre duas colinas desflorestadas, as tendas dos campos de refugiados de al-Arkop ondulam ao ar coberto de poeira. Os disparos prolongados aí dia e noite, assim como nas cidades vizinhas de Dora e Kharsa. E por todo o lado o mesmo, naquela Cisjordânia despedaçada a que colonos desembarcados de Nova Iorque ou de Paris, reclamando-se seus derradeiros herdeiros, chamam Judeia-Samaria.”

‘Palestina’ de Hubert Haddad, tradução de Ana Cristina Leonardo, Edições Quetzal, 2009, pp. 43-44

Notas sobre os ‘refugiados’ em Amor Líquido, de Zygmunt Bauman

“Os refugiados se tornaram, à imagem caricatural da nova elite do poder no mundo globalizado, a epítome daquela extraterritorialidade em que se fincam as raízes da atual precarité da condição humana, que tem lugar de destaque entre os temores e ansiedades de nossos dias. Esses temores e ansiedades, procurando em vão por outros escoadouros, despejaram-se sobre o ressentimento e o medo que os refugiados provocam. Não podem ser desativados nem dispersos num confronto direto com a outra encarnação da extraterritorialidade, a elite global flutuando além do alcance do controle humano, poderosa demais para que se possa enfrentá-la. Os refugiados, ao contrário, são um alvo fixo em que se descarregar o excesso de angústia…

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), há entre 13 e 18 milhões de “vítimas de deslocamento forçado” lutando para sobreviver além das fronteiras dos seus países de origem (sem contar os milhões de refugiados “internos” no Burundi e em Sri Lanka, na Colômbia e em Angola, no Sudão e no Afeganistão, condenados ao nomadismo por força de intermináveis guerras tribais). Destes, mais de seis milhões estão na Ásia, e de sete a oito milhões na África. Há três milhões de refugiados palestinos no Oriente Médio. Essa estimativa é, com certeza, conservadora. Nem todos os refugiados são (ou desejam ser) reconhecidos como tais — só algumas das pessoas deslocadas tiveram a sorte de serem registradas pelo ACNUR e ficarem sob seus cuidados.

Aonde quer que vão, os refugiados são indesejados, e não deixam dúvidas sobre isso. Os identificados como “migrantes econômicos” (ou seja, pessoas que seguem os preceitos da “escolha racional” e assim tentam encontrar formas de subsistência onde elas podem ser encontradas, em vez de ficarem onde elas não existem) são abertamente condenados pelos mesmos governos que fazem de tudo para que a “flexibilidade da força de trabalho” se transforme na principal virtude de seu eleitorado, e que exortam os desempregados de seus próprios países a “correrem atrás” dos compradores de mão-de-obra. Mas a suspeita de motivação econômica também respinga sobre aqueles recém-chegados que, não muito tempo atrás, eram vistos como pessoas no exercício de seus direitos humanos procurando abrigar-se da discriminação e da perseguição. Por associação repetida, a expressão “em busca de asilo” adquiriu um
sabor pejorativo. Grande parte do tempo e da capacidade cerebral dos estadistas da “União Européia” é empregada no planejamento de formas cada vez mais sofisticadas de fechar e fortificar fronteiras, bem como dos processos mais eficazes para se livrarem de pessoas em busca de pão e abrigo que, apesar de tudo, tenham conseguido cruzá-las.

Para não ficar atrás, David Blunkett, ministro do Interior britânico, ameaçou cortar a ajuda dos países de origem dos refugiados caso eles não levassem de volta os “desqualificados em busca de asilo”. Essa não foi a única idéia nova. Blunkett pretende “forçar o ritmo da mudança”, queixando-se de que, devido à falta de energia de outras lideranças européias, “o progresso tem sido muito lento” Ele deseja a criação de uma “força de operações conjuntas”, com a participação de todos os países europeus, e de “uma força-tarefa de especialistas nacionais” para “elaborar avaliações de riscos comuns, identificar os pontos fracos nas … fronteiras externas da União Européia, abordar a questão da migração ilegal por via marítima e pôr fim ao tráfico [novo termo destinado a substituir o conceito de ‘trânsito, anteriormente nobre] de seres humanos”.

Com a cooperação ativa de governos e pessoas influentes que encontram no favorecimento e na instigação de preconceitos populares o único substituto disponível para o confronto das fontes genuínas da incerteza existencial que assalta seus eleitores, as “pessoas em busca de asilo” (como aquelas que reúnem suas forças nos inúmeros Sangattes da Europa, preparando-se para a invasão das ilhas britânicas, ou as que estão para se estabelecer, a menos que as impeçam, em acampamentos estratégicos a poucos quilômetros das residências dos eleitores), essas pessoas estão tomando o lugar das bruxas, dos fantasmas de malfeitores impenitentes e de outros espectros e demônios das lendas urbanas. O novo folclore urbano, em rápida expansão, com as vítimas dessa expulsão planetária no papel de protagonistas mal intencionados, assimila e recicla a tradição oral das arrepiantes histórias de terror que no passado
encontravam uma ávida demanda, gerada, tal como agora, pelas inseguranças da vida na cidade.

Aqueles migrantes que, apesar dos estratagemas mais engenhosos, não podem ser rapidamente deportados, o governo propõe confinar em campos construídos em lugares possivelmente remotos e isolados — medida que transforma em profecia auto-cumprida a crença de que eles não desejam ou não podem ser assimilados à vida econômica do país. Assim, como observa Gary Young, “efetivamente erigem bantustões em torno da zona rural da Inglaterra, encurralam os refugiados de formas que os deixam isolados e vulneráveis”. (Pessoas em busca de asilo, assinala Young, “são mais propensas a serem vítimas de crimes do que a cometê-los”)

Segundo os registros do ACNUR, estão confinados nesses campos 83,2% dos refugiados na África e 95,9% na Ásia. Na Europa, até agora são apenas 14,3%. Mas, até o momento, há poucos sinais de que essa diferença em favor da Europa se sustentará por muito tempo.

Os campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo são artífices de uma instalação temporária que o bloqueio das saídas torna permanente.

Os internos dos campos de refugiados ou as pessoas em busca de asilo não podem voltar “ao lugar de onde vieram”, já que os países de origem não os querem de volta, suas formas de subsistência foram destruídas e seus lares, pilhados, demolidos ou roubados. Mas também não existe um caminho à frente — nenhum governo teria satisfação em ver o influxo de milhões de sem-teto, e qualquer um faria o possível para evitar que os recém-chegados se estabelecessem.

Quanto à sua nova localização “permanentemente temporária, os refugiados “estão nela, mas não são dela”. Não pertencem verdadeiramente ao país em cujo território foram montadas suas cabanas ou tendas portáteis. São separados do restante dele por uma cortina de suspeitas e ressentimentos que é invisível, mas ao mesmo tempo espessa e impenetrável. Estão suspensos num vácuo espacial em que o tempo foi interrompido. Não se estabeleceram nem estão em movimento. Não são sedentários nem nômades.

Nos termos em que habitualmente se descrevem as identidades humanas, eles são inefáveis. São, em carne e osso, os “indecidíveis” de Jacques Derrida. Entre pessoas como nós, que outras valorizam e que se vangloriam das artes da reflexão e auto-reflexão, eles não são apenas intocáveis, mas também impensáveis. Num mundo transbordando de comunidades imaginadas, são inimagináveis. E é recusandolhes o direito de serem imaginados que os outros, agregados em comunidades genuínas ou aspirantes a isso, buscam credibilidade para os seus próprios esforços de imaginação.”

in Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zygmunt Bauman, Tradução de Carlos Alberto Medeiros, Jorge Zahar Editores, Rio de Janeiro, 2004, pp. 75-76 (versão digital)

Da dedicatória “a uma feliz emigração” ao gosto inato das viagens

Do livro “Walter Benjamim: a história de uma amizade” de Gershom Scholem (1897-1982)

 

Photo d'identité sans auteur, 1928 - Akademie der Künste, Berlin - Walter Benjamin Archive

Walter Benjamim, 1928 – Akademie der Künste, Berlin – Walter Benjamin Archive

Gershom Scholem 1925, Domínio Público.

Gershom Scholem 1925, Domínio Público.

“No começo de 1923, [Walter] Benjamim (1892-1940) deu início à tentativa de conseguir uma habilitação em Frankfurt, desta vez em história da moderna literatura alemã. Gottfried Salomon, professor associado de sociologia nesta universidade, intercedeu em seu favor, com grande empenho, junto a uma série de professores influentes. Pude seguir parcialmente e de perto seus esforços, pois passei a maior parte da primavera e do verão junto com ele em Frankfurt. Benjamim sabia que eu havia decidido emigrar da Alemanha no Outono e minha vida tomaria um novo rumo ou, melhor, que o rumo que eu havia planeado seguir há anos só agora se concretizaria. O próprio Benjamim tinha certas reservas em relação à Palestina, justamente naquele ano em que o catastrófico aumento da inflação e o colapso geral das relações interpessoais tornaram aguda para ele a perspectiva de emigração. ‘Quanto à Palestina, neste momento não existe para mim nem uma possibilidade prática, nem uma necessidade teórica de emigrar para lá’, escreveu em Novembro a Rang, quando eu já estava em Israel (…). Em 1922 e 1923, a sua existência material tornou-se possível, graças, principalmente, ao facto de Dora ter-se empregado como jornalista e tradutora de inglês. Quem naqueles dias era pago em moeda estrangeira, como Dora pelo menos em parte, podia flutuar, apesar da queda acelerada do marco.

Nessa época, como última coisa eu queria estudar os manuscritos cabalísticos da grande colecção da Biblioteca Municipal de Frankfurt, e assim fiquei nessa cidade durante quatro meses. «Estudei» diariamente o Talmude por uma hora, e para meu prazer li textos do Zohar, o livro de Daniel e contos de Agnon, no âmbito da Academia Judaica Livre de Rosenzweig, com alguns jovens como Ernst Simon, Nahum Glatzer e Erich Fromm. Ernst Simon me citou então, acerca de seu amigo Fromm, que ainda seguia rigorosamente a tradição ortodoxa do pai, o verso que circulava como «Gebet der kleinen K. J. Ver.» – a Organização dos Estudantes Sionistas: ‘Mach mich wie den Erich Fromm, / Dass ich den Himmel komm’ [Faça-me igual a Erich Fromm / para que possa entrar no céu.]

Fromm e Benjamim foram mais tarde colegas no Instituto de Pesquisa Social, quando Fromm era um dos mais influentes adeptos de uma síntese entre a psicanálise e o marxismo. Naquele tempo, Agnon fixara residência em Bad Homburg, junto com uma série de importantes escritores hebraicos como Ahad Ha’am e Bialik. Eu ia lá frequentemente e, em uma ou duas ocasiões, encontrei algumas vezes Fritz Sternberg na casa de Agnon; mais tarde Sternberg fez amizade com Benjamim no círculo de Brecht, onde, desde 1925, pregava o marxismo. Vivia em Homburg e já estava trabalhando na sua obra-prima, Der Imperialismus (1926). Pouco tempo antes, afastara-se de Buber e dos «socialistas do povo» sionistas, dos quais foi líder de 1918 a 1922, e durante os três ou quatro anos seguintes procurou com os «Poalei Zion» um caminho marxista no sionismo. Ainda era considerado uma das mentes mais capazes da geração mais jovem do sionismo. Era um grande admirador de Agnon, como eu próprio, e se interessou vivamente pelos meus projectos futuros na Palestina, sobre cuja reconstrução socialista escrevera muita coisa. Às vezes, logo após estar com Benjamim, ia directamente à casa de Agnon, onde estavam Sternberg e sua esposa Genia. Não podia certamente imaginar que poucos anos mais tarde Benjamim, que então não demonstrava qualquer interesse pela obra de Sternberg, se encontraria com ele em circunstâncias totalmente diferentes e que Sternberg seria um dos seus mentores marxistas. (…)

Certa vez, Benjamim me levou a visitar Siegfried Kracauer, do Frankfurter Zeitung, que estava internado num hospital por causa de uma insignificância qualquer, e houve uma forte discussão na qual Kracauer, com todo o respeito por Benjamim, expressou claras reservas à sua «ontologia». Todos nós tínhamos mentes bastante afiadas. Muito mais tarde, [Teodoro] Adorno me contou que estivera presente àquele encontro como um jovem estudante e me vira então pela primeira vez.

O abismo à beira do qual se achava a Alemanha em 1923 e a extensão do desespero que tomou conta de Benjamim ao observar as condições alemãs, encontraram toda a sua expressão no presente de despedida que me deu em Berlim, pouco antes da minha partida. Era um rolo escrito, sem título, que ele chamou ‘uma análise descritiva do declínio alemão’. Com pequenas alterações, este texto está incluído, com o título de Reise durch die deutsche Inflation (Viagem pela inflação alemã), no seu livro Einbahnstrasse, publicado quatro anos mais tarde. O rolo ainda reflectia o horror imediato do presente vivido. Foi a primeira obra de Benjamim sobre a situação vigente – a um emigrante, “a uma feliz emigração”, como escreveu na dedicatória a mim. Era-me difícil entender o que podia deter na Alemanha um homem que escrevera isto. No entanto, como prova o seu empreendimento de Frankfurt, ele queria esgotar até o fim a possibilidade de uma carreira académica que pudesse prover o seu intelecto talvez de uma reserva material. Quando nos despedimos, estava bastante optimista a este respeito. Ainda não sabia que “intelecto não pode ser habilitado”, para citar a perversa e insolente frase de Erich Rothacker sobre ele. (pp. 120-122)

(…)

Um gosto inato pelas viagens, uma agitação interna e uma insatisfação com as suas condições de vida como homme de lettres combinavam-se para explicar as inúmeras mudanças de endereço e moradia, de onde recebi cartas e postais nos anos seguintes. Sempre que possível, empreendia uma viagem. A crescente distância entre ele e Dora foi, provavelmente, um factor que contribuiu para esse comportamento, bem como, talvez a morte do pai em Julho de 1926. Deste ano em diante, Paris conquistou um lugar firme no seu coração, onde passou a maior parte do ano, trabalhando na tradução de Proust. Sentia-se vivamente atraído por esta cidade e retornava a ela sempre que possível. Suas obrigações de trabalho, porém, exigiam repetidas estadas prolongadas em Berlim, e suas cartas escritas desta cidade trazem a marca da insatisfação, ao passo que as de Paris são mais relaxadas e até alegres. Nesse interím, lera a Geschichte und Klassenbewusstein, de Lukács, e, sob a influência duradoura deste livro, também o capítulo do primeiro volume do Der Kapital sobre o carácter fetichista da mercadoria (um capítulo obrigatório para todos os intelectuais de coloração marxista), bem como algumas análises comunistas da política actual, como Wohin treibt England? (Para onde caminha a Inglaterra?), de Trótski. Ele procurou meios de ir à Rússia, motivado tanto pelo seu interesse objectivo pelo que estava acontecendo lá quanto por sua decisão pessoal, que tomou nesse meio tempo, de estabelecer relação mais estreita com Asja Lacis. Conseguiu realizar seu intento depois de superar consideráveis dificuldades burocráticas, que o levaram quase a abandonar o plano de viagem. Esteve em Moscovo de 6 de Dezembro de 1926 a 1º de Fevereiro de 1927, provido de diversos adiantamentos sobre trabalhos prometidos, entre os quais um longo ensaio sobre sua viagem, encomendado por Buber para o Die Kreatur. O diário detalhado, no qual se misturam estranhamente suas relações pessoais com Asja Lacis (que não se desenvolveram de acordo com seus desejos), seus contactos com conhecidos e vários funcionários da área da cultura e a descrição aprofundada da fisionomia da cidade e da vida soviética para o projectado ensaio, foi preservado e reflecte fielmente a atmosfera que o levou à decisão de não ingressar no Partido Comunista. Suas cartas de Moscovo eram, compreensivelmente, tão escassas quanto reservadas; em parte eram escritas num papel miserável, que era o que se podia adquirir em Moscovo, e, em contraste total com o seu hábito, a lápis.

Quando leio as cartas que me escreveu nos três anos que medeiam sua viagem a Capri e o nosso reencontro em Paris, em Agosto de 1927, fico consternado ao notar quão pouco a nova mudança discutida se manifestou também neste plano de comunicação pessoal e confidencial. Costumávamos recomendar um ao outro livros e ensaios que nos parecessem importantes ou dignos de notas também para o mundo do outro. Mas suas cartas eram tão pobres em recomendações pertinentes quanto pobre, em títulos relevantes, a lista dos livros que lera realmente até ao fim – uma lista que organizava com cuidado espantoso. Se com a viagem a Moscovo desejara estabelecer contactos literários com a Rússia, só o conseguiu em grau muito limitado; e os desapontamentos que trouxe de lá neste campo não o encorajaram a abandonar sua orientação metafísica. A inspiração que lhe dera Asja Lacis permaneceu infrutífera.” (pp. 129-131)

 

“Walter Benjamim: a história de uma amizade” de Gershom Scholem, Tradução de Geraldo Gerson de Souza, Editora Perspectiva, 1989 (ed. or. 1975)

Diários Portugueses, de Curt Meyer-Clason

fotoK_Curt-Meyer_Diários PortuguesesRetrato acutilante de um estrangeiro sobre o Portugal no início dos anos 70. Curt Meyer-Clason destacou-se como tradutor e escreveu a maior parte destes “Diários Portugueses” enquanto ocupava o cargo director do Goethe Institut entre os anos 1969-1976.

“Pois é, ninguém diz uma palavra sobre Portugal, sobre o seu presente soterrado, sobre o seu futuro hipotecado. Mas, quem é este Ninguém? Naturalmente, ninguém, todos e cada um dos que nem pensam nas pessoas deste país, nada têm que ver com ele, mas apenas agem como se. Como se. Os gestores da cultura das nações ocidentais olham do alto do seu camarote, pachorrentos, entediados, para o palco dos acontecimentos portugueses, a maior parte das vezes sorriem sem darem por isso, ou bocejam sem darem por isso. Falam com os Portugueses, geralmente num francês mediano, se não forem franceses, e por isso não reconhecem as suas particularidades, o seu valor específico, porque não aprofundam a língua. Assistem a tudo como a uma corrida de cavalos, sem nela participarem. Eles e todos os outros estrangeiros que se aproveitam da situação guardam obviamente para si aquilo que pensam. E os naturais do país baixam o olhar quando uma palavra impensada aborda a actualidade portuguesa, ou então atravessam o interlocutor com o olhar e deixam-lhe a liberdade de escolher entre estar a ser ignorado, posto a nu ou crucificado. Eles, todos, parecem estar de acordo numa coisa: o silêncio, e sobretudo o silêncio que oculta alguma coisa, é de ouro, para além de poupar os nervos e de ser o menor dos males e o menor dos sacrifícios. Para quê criar problemas para si, e também para os outros? A vida é tão curta e pode ser tão agradável – especialmente em Portugal. E é claro que todos «amam» este país, dizem, e isso quer dizer: as suas praias sem fim e sem gente, os seus vizinhos saborosos e baratos, especialmente o verde, os seus bordados a preços baixos, feitos à mão, as criadas submissas (encargos sociais é coisa que praticamente não existe), a grande variedade de peixes… E então, meu caro, isto não é fantástico? E as hortaliças, aqueles enormes pimentos, em travessas de estanho nas montras, parecem pinturas de Braque, e ao fundo esta luz viva de Portugal, as mais puras transparências, indescritível… Ah, se eu pudesse pintar tudo isto, este céu reverberando de aromas, é de perder a cabeça, um abismo de encantamento em que desejamos afundar-nos, sozinhos, completamente a sós, e ir desaparecendo pouco a pouco…” (1971)

Curt Meyer-Clason, “Diários Portugueses (1969-1976)”, Documenta (2013; ed. or. 1997), Tradução de João Barrento. pp.136-137

 

‘il ritorno in patria’, do livro “Vertigens. Impressões”, de W. G. Sebald

vertigens impressões sebald“Há uns bons trinta anos que vinha a W. Embora, ao longo desse tempo todo – um tempo longo como nenhum outro para mim – muitos dos lugares ligados a W., como o Alpachmoos, a floresta da paróquia, a alameda que leva a Haslach, a central hidroeléctrica, o cemitério dos pestíferos, em Petersthal, ou a casa do corcunda Dopfer, no Schray, surgissem recorrentemente nos meus sonhos e devaneios e me parecessem por isso mais reais do que antes, esta aldeia onde chego a horas tardias é-me muito mais estranha do que outro lugar qualquer em que possa pensar. Em certo sentido, senti-me mais tranquilo ao constatar, na minha primeira ronda pelas ruas à luz pálida dos candeeiros, que tudo estava profundamente mudado.

W. G. Sebald, “Vertigens. Impressões”, Tradução de Telma Costa, Editorial Teorema, 2007 (pp. 143-144).

Jerusalém – ida e volta, de Saul Bellow

jerusalém ida e volta“Aqui, em Jerusalém, quando se fecha a porta do apartamento cai-se num temporal de conversa – exposição, argumento, arenga, análise, teoria, expostulação, ameaça e profecia. Dos diplomatas, podem ouvir-se explicações ardilosas; de pessoas responsáveis, afirmações cautelosas e ressentidas que reformulam e corrigem as nossas perguntas; de pais e crianças, divisões fatais; de amigos que se deixam levar pela emoção, discursos arrebatados, a denúncia furiosa da Europa Ocidental, da Rússia, da América. Escuto com solicitude, com atenção, mais atenção do que alguma vez escutei na minha vida, absolutamente concentrado, mas sinto muitas vezes que caí num mar sem costas.

(…) Está-se numa cidade como muitas outras – bem, não exactamente, pois das cidades antigas que já visitei Jerusalém é a única em que as antiguidades não são expostas como relíquias, mas têm um uso diário. Ainda assim, é uma cidade moderna com serviços modernos. Fazem-se compras em supermercados, diz-se bom-dia aos nossos amigos pelos telefone, ouvem-se orquestras sinfónicas na rádio. Mas, de repente, a música pára e dá-se a notícia de uma bomba terrorista. Mais uma explosão em frente de um café na Estrada de Jafa: seis jovens mortos e trinta e oito feridos. Angustiados, pousamos a nossa bebida civilizada. Apreensivos, vamos para o nosso jantar civilizado.”

Saul Bellow, Jerusalém, ida e volta, Tinta-da-China, pp 48-49.

Estranho em Goa, de José Eduardo Agualusa

estranho em goa“Estou alojado num casario antigo, decrépito, cujas paredes, de um amarelo prodigioso, dir-se-iam perpetuamente iluminadas pelo furor do crepúsculo. Chama-se Grande Hotel do Oriente. Apenas o nome, gravado numa larga placa de madeira sobre a fachada em ruínas, guarda ainda o brilho do passado irrecuperável. Há por aqui, em Goa, muita gente como este meu hotel. Os últimos descendentes da velha aristocracia católica ostentam nomes igualmente improváveis, tão portugueses que nem em Portugal existem mais, e fazem-no com o orgulho melancólico de quem tudo teve, e tudo viu ruir e desaparecer. O povo, no entanto, usa-os sem entendimento, corrompe-os alegremente, à semelhança de um pobre merceeiro que achasse na rua uma edição rara d’ Os Lusíadas e se servisse das suas páginas para rabiscar nas margens a contabilidade do dia.”

José Eduardo Agualusa, Um estranho em Goa, p. 20. Edições Cotovia