“Madrid”, de Pablo Neruda

Do volume “España en el corazón: himno a las glorias del pueblo en la guerra”, visão do poeta chileno sobre a Guerra Civil Espanhola (Julho 1936 – Abril 1939).

MADRID

(1936)

Madrid sola y solemne, julio te sorprendió con tu alegría
de panal pobre: clara era tu calle,
claro era tu sueno.
Un hipo negro
de generales, una ola
de sotanas rabiosas
rompió entre tus rodillas
sus cenagales aguas, sus ríos de gargajo.

Con los ojos heridos todavía de sueño,
con escopeta y piedras, Madrid, recién herida,
te defendiste. Corrías
por las calles
dejando estelas de tu santa sangre,
reuniendo y llamando con una voz de océano,
con un rostro cambiado para siempre
por la luz de la sangre, como una vengadora
montaña, como una silbante
estrella de cuchillos.

Cuando en los tenebrosos cuarteles, cuando en las sacristías
de la traición entró tu espada ardiendo,
no hubo sino silencio de amanecer, no hubo
sino tu paso de banderas,
y una honorable gota de sangre en tu sonrisa.

 

In España en el corazón, Himno a las Glorias del Pueblo en la Guerra, El Comisariado del Ejército del Este, Ediciones literarias [1936] versão online consultada a 17-10-2016.

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A Pátria, poema de Julio Cortázar

Pátria de longe, mapa,

mapa de nunca.

Porque o ontem é nunca

e o amanhã manhã.

 

Guardo um odor de trevo,

uma rua com árvores,

uma recontagem de mãos,

uma luz sobre o rio.

 

Pátrias, cartas que chegam

e outras que voltam,

pássaros de papel

sobre o mapa voando.

 

Porque o ontem é nunca

e o amanhã manhã.

 

Julio Cortázar in “Papéis Inesperados”, tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de Ferro, Lisboa, 2010, p. 484.

Home, de Warsan Shire

Home, by Warsan Shire

no one leaves home unless
home is the mouth of a shark
you only run for the border
when you see the whole city running as well

your neighbors running faster than you
breath bloody in their throats
the boy you went to school with
who kissed you dizzy behind the old tin factory
is holding a gun bigger than his body
you only leave home
when home won’t let you stay.

no one leaves home unless home chases you
fire under feet
hot blood in your belly
it’s not something you ever thought of doing
until the blade burnt threats into
your neck
and even then you carried the anthem under
your breath
only tearing up your passport in an airport toilets
sobbing as each mouthful of paper
made it clear that you wouldn’t be going back.

you have to understand,
that no one puts their children in a boat
unless the water is safer than the land
no one burns their palms
under trains
beneath carriages
no one spends days and nights in the stomach of a truck
feeding on newspaper unless the miles travelled
means something more than journey.
no one crawls under fences
no one wants to be beaten
pitied

no one chooses refugee camps
or strip searches where your
body is left aching
or prison,
because prison is safer
than a city of fire
and one prison guard
in the night
is better than a truckload
of men who look like your father
no one could take it
no one could stomach it
no one skin would be tough enough

the
go home blacks
refugees
dirty immigrants
asylum seekers
sucking our country dry
niggers with their hands out
they smell strange
savage
messed up their country and now they want
to mess ours up
how do the words
the dirty looks
roll off your backs
maybe because the blow is softer
than a limb torn off

or the words are more tender
than fourteen men between
your legs
or the insults are easier
to swallow
than rubble
than bone
than your child body
in pieces.
i want to go home,
but home is the mouth of a shark
home is the barrel of the gun
and no one would leave home
unless home chased you to the shore
unless home told you
to quicken your legs
leave your clothes behind
crawl through the desert
wade through the oceans
drown
save
be hunger
beg
forget pride
your survival is more important

no one leaves home until home is a sweaty voice in your ear
saying-
leave,
run away from me now
i dont know what i’ve become
but i know that anywhere
is safer than here.

“Tristezas do desterro”, poema de Alexandre Herculano

O desterrado, de Soares do Reis (escultura inspirada no poema de A. Herculano)

O desterrado, de Soares do Reis (escultura inspirada no poema de A. Herculano) © MuseuSoaresdosReis

Tristezas do desterro (fragmento)

Erit tristis et moeretis.
Isai­as.
I

Terra cara da patria, eu te hei saudado
D’entre as dores do exilio. Pelas ondas
Do irrequieto mar mandei-te o choro
Da saudade longi­nqua. Sobre as aguas,
Que de Albion nas ribas escabrosas
Vem marulhando branqueiar de escuma
A negra rocha em promontorio erguido,
D’onde o insulano audaz contempla o immenso
[166]Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos
Não sentida uma lagryma fugiu-me,
E devorou-a o mar. A vaga incerta,
Que róla livre, peregrina eterna,
Mais que os homens piedosa, irá depo-la,
Minha terra natal, nas praias tuas.
Essa lagryma acceita: é quanto póde
Do desterro enviar-te um pobre filho.

No silencio da noite, em sólo estranho,
Patria minha gentil, em ti pensando,
Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
Neste céu achatado, tristemente
Com luz mortiça e pallida, não ricos
De inspiração e amor, quaes lá refulgem.
Pela sombra ameni­ssima, que chama
Do affastado oriente o sol no occaso,
No teu profundo céu has-de tu vê-los:
Do desterrado filho os votos levam:
Acceita-os delles, desgraçada patria!

Já se acercava o tenebroso inverno;
Vinha fugindo a rapida andorinha,
Para um abrigo te ir pedir, oh patria,
Em cujos valles nunca alveja a neve:
[167]Juncto de mim passou: em suas azas
Tambem mandei o filial suspiro.

Pelo dorso das vagas rugidoras
Eu corri de além mar para estas plagas.
Pelas antenas, em nublada noite,
Ouvi o vento sul que assobiava,
E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:
Seu rijo sopro refrescou-me as veias.

(…)

Alexandre Herculano in Poesias, 2ª ed.  (ed. orig, 1850; ed.ut: June 28, 2008 [EBook #25925]; acesso em 17.04.14), pp.166-167

“Em Creta, com o Minotauro”, poema de Jorge de Sena

I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

II

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.

III

É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.

IV

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.

V

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

Jorge de Sena, Poesia-III (Peregrinatio ad Loca Infecta, Exorcismos, Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos, Conheço o Sal… e Outros Poemas, Sobre Esta Praia…), Moraes Editores, 1978

‘Pátria, lugar de exílio’ de Daniel Filipe

daniel filipe - pátria lugar de exílio - capa

Excertos de um longo poema de Daniel Filipe (1925-1964; poeta e jornalista nascido em Cabo Verde) e que remete para o 1º de Maio de 1962, dia muito importante na luta antifascista em Portugal. O poema pertence a um livro com o mesmo título e onde estão também incluídos outros dois conjuntos de poemas: ‘O viajante clandestino’ e ‘A  ilha imaginada’.

Pátria, lugar de exílio

Neste ano de 1962

não como Hazim Hikmet no avião de pedra

mas na minha cidade

livre de ir onde quiser

e no entanto prisioneiro

neste ano de 1962

exactamente

em Lisboa

Avenida de Roma número noventa e três

às três horas da tarde

Neste ano de 1962

encostado a uma esquina da estação do Rossio

esperando talvez a carta que não chega

um amor adolescente

meu Paris tão distante

minha África inútil

aqui mesmo

aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura

cumprindo os pequenos ritos quotidianos

cigarro após o almoço

café com pouco açúcar

má-língua e literatura

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude

e de enjôo crescente

solitário e agreste

invisível aos olhos dos que amo

ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado

com um erro de contas

incapaz de dizer toda a minha ternura

operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa

higienicamente limpo e com os papéis em ordem

vestido de nylon dralon leacril

com acabamentos sanitized

e lugar marcado junto ao aparelho de TV

eu

enjoado de tudo e contemporizando com tudo

eu

peça oleada do mecanismo de trituração

eu

incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia

eu

apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto

eu

neste ano de 1962

exatamente

não ontem mas precisamente às três horas da tarde

pela hora oficial

exilado na pátria

(…)

Pergunto. poderia cantar de modo alheio

dizer outras palavras como quem diz bom dia
poderia acaso ignorar o tempo a tortura a prisão
Bernardino e a pequena rosa
vermelha e orvalhada
insólita no tablier do automóvel azul

Poderia falar dos dias impossíveis
das manhãs sem revolta. do xadrez matemático
jogado interminavelmente
das virgens, dos poentes, do mar da minha infância

Poderia escrever meu amor e pensá-lo
Sem mais nada. sem a rubra mancha de sangue na parede da cela
Sem um nome ou um grito

(…)

Recordo o calor de Julho e o aroma dos pinheiros

amámo-nos sobre a terra

eram três horas da tarde como agora

tínhamos pouco dinheiro

e havia um barco à nossa espera inevitavelmente

Com tudo isso teço o meu próprio disfarce

com a ternura grave que me dás

alimento também certa rosa vermelha

3ª canção

Pátria, lugar de exílio,

geométrico afã

ou venenoso idílio

na serena manhã.

Pátria, mas terra agreste;

terra, apesar da morte.

Pátria sem medo a leste.

Lugar de exílio a norte.

Pátria, terra, lugar,

 cemitério adiado

com vista para o mar

e um tempo equivocado.

Terra, débil lamento

na temerosa  noite.

 Sobre os carrascos, vento,

desfere o teu açoite!

(…)

4ª canção

Roga por nós, ó pátria, ó sonho sem fronteira!,

por nós, a quem recusam a alegria,

a liberdade, o pão de cada dia

a vida verdadeira!

Ó pátria canta! Do teu presepe imaginário,

ergue a voz dulcíssima, magoada,

e estilhaça de esperança as paredes do aquário,

ó pacífica pomba engaiolada.

Contigo iremos pela noite fora,cantando.

« Erguendo rútilas bandeiras

por sobre aldeias, campos, sementeiras,

como os arcanjos portadores da aurora».

Como lobos de súbito

irrompem na planície citadina

carregados de morte

Seu nome é violência

Trazem nas mãos mortíferos sinais

e de órbitas vazias

caminham em silêncio

envoltos na terrível solidão

do crime encomendado

Marginam as esquinas

escondem o rosto sob o aço liso

dos negros capacetes

e anónimos ocultos

pela espessa cortina de ódio e névoa

como robots avançam

A morte engatilhada

espera o momento de partir Agora

Cumpra-se o ritual

Uma voz grita  Viva

a liberdade, O coro lhe responde

pontuado de tiros

Canalhas Temos fome

Arranquemos as pedras da calçada

Ó meu amor resiste

Resiste de olhos secos

Sem lágrimas  Sem medo  Só talhada

no silex da ira

Pronta a dar corpo ao sonho

e entanto testemunha do martírio

companheira e amante

De mãos dadas cantando

abrimos flores às balas assassinas

merecemos a vida

(…)

Neste ano de 1962

primeiro de maio

ao começo da noite

podemos finalmente olhar no espelho a nossa muda imagem

sem temor nem vergonha

Na solidão do quarto, meu Amor

podemos pela primeira vez

deixar de recear futuros julgamentos

e as perguntas silenciosas nos olhos dos vindouros

esquecer a humilhação, o insulto sem resposta

que foi o nosso pão quotidiano e áspero

Agora poderemos ser de novo homens

livres, ainda que presos

mastigando a comida sem o sabor a lágrimas

antes com o sal da esperança

merecido tempero, paga justa da luta

Renegamos o passado maculado de angústias

esquecemos as pequenas diárias covardias

os negócios onde tudo se perde e até a honra

Neste primeiro de Maio de 1962

podemos finalmente sorrir sem amargura

in Pátria, lugar de exílio, pp.13-35, Editorial Presença, 1974.

Um pequeno diário de viagem, poema de Frank O’Hara

o' hara

 

 

 

 

 

Abrindo caminho por entre as gambas, angulas,

as merluzas que têm o gosto do Correio do Mar ao Domingo

e as grandes quantidades de huevos que retiram dos

uniformes dos oficiais da Marinha Espanhola e põem em bandejas,

e chegamos à gare Francia ao entardecer

com a minha tonelada de livros e a tonelada de roupas que John

comprou num desvario selvagem em Madrid; todas

numa mixórdia como a vida é uma Loja de Sucata

de teatro

disseram haver nada em Espanha para estrangeiros

e prosseguimos na nossa carruagem amável de 1ª classe, aos

solavancos para noroeste, enquanto noutros compartimentos

Dietrich e Eric von Stroheim partilham uma sandes de chorizos

e uma garrafa de Vichy Catalan, na carruagem-restaurante

o cavalheiro viajante com bigode fininho e muitos

muitos anéis faz rodar o charuto e bebe Martini y

ginebra, e Lilian Gish roda sobre os desfiladeiros

com uma lágrima no olho esquerdo da frente, comme Picasso,

noite dentro, noite dentro, longilínea

e governada por estrelas; lá no fundo os leitos dos rios parecem

uma língua de porco numa travessa, e tempestades rebentam sobre

San Sebastian, ondas de 40 pés encharcam-nos agradavelmente e vemos

um cão morto inchado como papada flutuando junto ao cais

empurrado suavemente para o mar

para Irun e Biarritz

vamos, ensopados de ansiedade, e aí pela primeira vez

desde a chegada a Barcelona posso cagar à vontade

e as ondas são tão grandes e o sol tão quente

e foi tudo construído ontem como tudo deveria ser

que país esplêndido este

cheio de indecisão e conhaque

e biquinis, sens plastiques (ugh! hurra!); vejo

a nuca de Bill Berkson, aux Deux Magots (awk!) brilha

como a lua por entre o fumo da Renfe à medida que passávamos

pelos túneis intermináveis e as paisagens de prata

da nossa demanda do rochedo de la Vierge e salpicos salgados

Frank O’Hara, Vinte e cinco poemas à hora do almoço, Assírio & Alvim, Tradução de José Alberto Oliveira (Ed. 1995; Ed. or. 1964) pp. 65-67.