O Porto a quem chega de fora

Fotografia: Fernando Veludo

Fotografia: Fernando Veludo

«Do outro lado da rua, a Adega Alfredo Portista apareceu recentemente na televisão, dizem-nos, na apresentação do Grupo de Amigos das Adegas e Tascos do Porto. Hoje, o senhor Alfredo não está; está o filho, Paulo, por detrás do balcão, e a mulher, Conceição, na cozinha.  É meio da tarde, mas há quem coma bacalhau, ; no mostruário alinham-se panados, rojões, filetes, rissóis. Como santuário portista que é, o azul e branco fazem a decaoração, porém, Vitor Ventura, frequentador de há muito, assegura que todos são bem-vindos, independentemente “do clube e da política”».

«Alguém pediu um Porto à medida?», texto de Andreia Marques Pereira, Fugas, Público, Sábado 15 de dezembro de 2012

http://fugas.publico.pt/viagens/314063_alguem-pediu-um-porto-a-medida?pagina=3

A Casa-comboio, de Raquel Ochoa

Damão, Junho de 1885

[…]

A estação fervilhava de hipóteses: de negócios, de destinos, de refeições. Animais de carga e cães rafeiros eram tão numerosos como as pessoas em trânsito. Percorreriam o caminho desde Vapy, a estação de comboios mais próxima, até Damão, que distava sete milhas. Carcomo era um homem viajado, à luz da época. Olhou para o coche velho com cortinas de seda macilentas, puxado por um par de cavalos, que poderia ter sido a carruagem de Estado de algum governador antigo de Damão, nos provectos e prósperos dias do governo português. Entrou para a cabine e com um assobio as rodas começaram a girar cumprindo as ordens dos músculos tesos dos cavalos.

[…]

A estrada atravessava as aldeias de Chalá e Cuntá (inglesas), Dabel, Dundortá, Catriá e Damão Pequeno (portuguesas), embora não por esta ordem, e sim interpenetrando-se.

 

OCHOA, Raquel (2010) A Casa-comboio, Gradiva, Lisboa, pp. 15-16.

 

O Murmúrio do Mundo, de Almeida Faria

«O Murmúrio do Mundo», Tinta-da-China, 2012

«A rebatizada Mumbai, com mais habitantes que Portugal inteiro, é hoje cousa gigantesca e capital do estado de Maharashtra. O aeroporto internacional cheirava a mofo apesar do ar condicionado, um bafio que a memória me trouxe misturado com imagens de outros aeroportos, noutros trópicos, Rio de Janeiro, Salvador, Aracaju, Recife, Bissau, Dakar, São Tomé, Luanda a seguir ao Natal, quando cheguei à porta do avião e a primeira baforada de abafada humidade me deixou incapaz de respirar. Mas aquelas distantes descidas em terras tropicais eram uma visão arcádica quando comparada com a multidão sonâmbula que cercava o carrossel das bagagens às duas da madrugada em Mumbai, e se esgueirava uma hora mais tarde diante dos funcionários alfandegários de fardas às três pancadas, fixando-nos como se fôssemos aves raras. Fora, no calor compacto, odores fortes a gases de automóveis, a sujidade, a suor. E crianças-rapazes pedindo. Tinham-me aconselhado a nunca dar esmola porque os pedintes não nos largam. O olhar indefeso, a insistência e a idade deles despertaram em mim a tortura da compaixão, a obscura vocação para a culpa, e distribuí ao acaso as rupias acabadas de trocar.»

Almeida Faria (2012) O Murmúrio do Mundo, Tinta-da-China, p. 27-28.

Elogio da caminhada


Peça de Matthew Earnest, a partir de Wanderlust: A History of Walking.

Em O Caminhante Solitário (Teorema, 2009), W. G. Sebald traça o retrato de escritores e artistas plásticos que, através das suas viagens, permitem ao autor escrever sobre a região pré-alpina de que é natural.

O livro de Rebeca Solnit, Wanderlust: A History of Walking (Penguin Books, 2001), traça uma história da caminhada em ligação com a filosofia, a poesia e a política. Para Solnit, a evolução do pensamento e da cultura é impulsionada pelo acto especificamente humano de caminhar.

Enquanto Sebald nos oferece retratos de escritores como Jean-Jacques Rousseau ou Robert Walser, Solnit acompanha o percurso de poetas-caminhantes como Gary Snyder, Frank O’Hara, Coleridge ou Wordsworth.