‘Noventa e três’, de Victor Hugo

Romance histórico do autor francês, inspirado na Guerra da Vendeia (1793-1796) que decorreu durante a Revolução Francesa e que opôs realistas a republicanos resultando na morte de 200000 pessoas. Embora seja um ponto polémico é considerado por alguns historiadores como o primeiro genocídio moderno.

“A VIDA DOS HOMENS NA GUERRA

Muitos só tinham chuços. As boas espingardas de caça abundavam. Não havia atiradores mais hábeis que os caçadores furtivos do Mato e os contrabandistas de Loroux. Eram combatentes estranhos, terríveis e intrépidos. O decreto do levantamento de trezentos mil homens fizera tocar o rebate em seiscentas aldeias. O crepitar do incêndio estalou em todos os sítios ao mesmo tempo. O Poitou e o Anjou explodiram no mesmo dia. Digamos que um primeiro rosnar se fizera ouvir em 1792, a 8 de Julho, um mês antes do 10 de Agosto, na charneca de Kerbader. Alain Redeler, hoje ignorado, foi o precursor de La Rochejacquelein e de Jean Chouan. Os realistas forçavam, sob pena de morte, todos os homens válidos a marchar. Requisitavam os carros, as carroças, os víveres. (…) Para sublevar aquelas multidões pouca coisa bastava. Metia-se no tabernáculo de um cura ajuramentado, de um padre jurador, como eles diziam, um grande gato negro que saltava bruscamente para o altar, durante a missa. É o Diabo!, gritavam os camponeses, e todo o cantão se insurgia. Um sopro de fogo saía dos confessionários. Para assaltar os azuis e para transpor as ravinas, dispunham dos seus compridos paus de quatro metros e meio, a ferte, arma de combate e de fuga. No mais aceso dos combates, quando os camponeses atacavam os quadrados republicanos, se encontravam no campo uma cruz ou uma capela, caíam de joelhos e diziam as suas orações sob a metralha; terminado o rosário, os que restavam levantavam-se e lançavam-se sobre o inimigo. Que gigantes! Carregavam as espingardas em corrida; era o talento daqueles homens. Era possível fazê-los acreditar no que se quisesse; (…)

O insurrecto bretão tinha quase o aspecto do insurrecto grego: capa curta, espingarda à bandoleira, grevas, calções largos; o ‘gars’ assemelhava-se ao clefta. Henri de La Rochejacquelein, aos vinte e um anos, partia para essa guerra com um cajado e duas pistolas. O exército vendeano contava cento e cinquenta e quatro divisões. Faziam cercos em regra; durante três dias mantiveram Bressuire bloqueada. Dez mil camponeses, numa sexta-feira santa, bombardearam com canhões a cidade de Sable, utilizando bolas vermelhas. Aconteceu-lhes destruírem num só dia catorze aquartelamentos republicanos, de Montigné a Coubeveilles.(…)

A cavalaria era pouco numerosa e difícil de formar. Puysaye escreve: ‘Um homem que me dá alegremente os seus dois filhos, torna-se frio se lhe peço um dos seus cavalos.’

Varas, forquilhas, foices, espingardas velhas e novas, facas de caça, paus ferrados, eram as suas armas; alguns usavam à bandoleira uma cruz feita com dois ossos humanos. Atacavam com grandes gritos, surgiam subitamente de todos os lados, dos bosques, das colinas, dos valados, dos caminhos, dispersavam-se. Quando atravessavam um burgo republicano, cortavam a árvore da Liberdade, queimavam-na e dançavam em torno do fogo. Todas as deslocações eram nocturnas. Regra do vendeano: ser sempre inesperado. Faziam quinze léguas em silêncio, sem curvarem uma erva à sua passagem. Chegada a noite, depois de ter sido fixado, entre os chefes e em conselho de guerra, o lugar onde na manhã seguinte, surpreenderiam os postos republicanos, carregavam as suas espingardas, diziam as suas orações, tiravam os tamancos e partiam em longas colunas, através dos bosques, de pés descalços sobre a caruma e sobre o musgo, sem um ruído, sem uma palavra, sem um sopro. Marcha de gatos nas trevas.”

“Noventa e três”, de Victor Hugo, Tradução revista por Pedro Reis, Amigos do Livro Editores, Lisboa, s/d(ed. or. 1874), pp. 175-179

 

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A Síria em pedaços, de Bernardo Pires de Lima

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“Na antecâmara do sonhado regresso a Genebra, a Síria mostra a verdadeira face da guerra. Ou, mais correctamente, das suas guerras, as que vão corroendo o roteiro político e boicotando o calendário. As tropas de Assad têm conquistado terreno a norte de Damasco com a ajuda do Hezbollah e uma segunda vida depois da cooperação internacional sobre o arsenal químico. Não é por acaso que a zona de controlo do regime é a que percorre a fronteira com o Líbano, Israel e a que vai de sul de Damasco até à fronteira com a Jordânia: ninguém quer ter as suas fronteiras controlada por filiados da Al-Qaeda. É isto que acontece na zona leste e nordeste, sob um manto de jihadistas estrangeiros que circulam livremente pelas fronteiras com o Iraque e a Turquia.

Do primeiro, recebe um país em cacos, minado pelo ISIS e que procura implodir o xiismo no país. Garantir que isso também acontece na Síria e que nem o Irão nem o Hezbollah vencerão tornou-se código de honra desta Al-Qaeda pós-Bin Laden: prioridade ao extremismo tribal sunita em vez do antiocidental. É esta a transformação que ajuda a explicar porque é hoje a Síria o maior entreposto de jihadistas no mundo, superando a Somália. Da Turquia, acaba por receber livre-trânsito por ausência de vistos e o descrédito das restantes oposições através dos bloqueios à ajuda humanitária e ao suporte militar.

Juntemos a isto a divisão das tribos beduínas entre apoiantes e opositores do regime, e percebemos como uma guerra linear entre um ditador e um grupo libertador se transformou numa matriosca incontrolável de guerrilheiros, terroristas, militares, paramilitares, dinheiro fresco e treino por interposta potência. Tiro o chapéu a quem consiga sentar alguém à mesa nestas condições: pode salvar a face de alguns, mas não porá fim às incontroláveis guerras sírias.”

“A Síria em pedaços” de Bernardo Pires de Lima, Prefácio de Jorge Sampaio, Tinta-da-China, Lisboa, 2015, pp. 99-100.

‘Escritos do Exílio’, Courrier Internacional

Em destaque na edição portuguesa de Dezembro da Courrier Internacional (n. 238, Dez. 2015), um dossier sobre experiências vividas por alguns escritores e filósofos no exílio. Testemunhos de Mohammad al-Attar (Síria), Ngugi wa Thiong’o (Quénia), Santiago Gamboa (Colômbia), Ramin Jahanbegloo (Irão), Tenzin Nyingjey (Tibete), Fatima Butto (Paquistão) e Abdou Semmar (Argélia).

courrier escritos do exílio

“Não nasci em lugar nenhum”, em ‘A vida material’ de Marguerite Duras

“(…) Estávamos sempre dentro de água, na nossa infância nas colónias tomávamos banho nos rios, e duche com água das jarras da manhã e à noite, andávamos descalços em toda a parte excepto na rua, mas era quando se lavava a casa a atirar baldes grandes de água com os filhos dos Boys que era a festa da grande fraternidade entre os filhos dos Boys e os filhos dos Brancos. Nesses dias a minha mãe ria de prazer. Não consigo pensar na minha infância sem pensar na água. O país onde nasci é uma pátria de águas. Água dos lagos, torrentes que desciam da montanha, a dos arrozais, a água, terrosa, dos rios da planície onde nos abrigávamos durante as tempestades. (…) Sou uma pessoa que nunca voltou ao país onde nasceu. Certamente porque se tratava de uma natureza, de um clima, como se fossem feitos para crianças. Quando crescemos, aquilo torna-se exterior, não levamos connosco aquelas recordações, deixamo-las ficar ali onde foram feitas. Não nasci em lugar nenhum.

‘A vida material’ de Marguerite Duras, tradução de Tereza Coelho, Difel, Lisboa, 1994 (ed. or. 1987); pp. 69-70.

O cheiro químico, em “A vida material” de Marguerite Duras

“Em 1986 tinha ficado quatro meses em Trouville, de meados de Junho a meados de Outubro, mais do que um Verão. Logo que me afasto de Trouville tenho a sensação de perder luz. Não apenas a luz vertical do sol pleno, mas a luz difusa e branca do céu coberto e a outra, sombria, das nuvens. No fim do Verão, se estou longe deste lugar perco os céus que saem debaixo do Atlântico, aqueles céus que viajam a long distance.

No Outono perco a bruma do mar alto, o vento, os miasmas petrolíferos do Havre, o cheiro químico. Acordando cedo, é possível ver sobre a praia vazia o traçado das Roches Noires levemente deportado para o Norte. Depois, com as horas, a sombra diminui em altura até desaparecer.

Durante anos estive entre as casas de Neauphle, de Trouville e de Paris. Para não deixar Neauphle, durante dez anos não fui a Trouville, e cheguei a alugar várias vezes no Verão para compensar as despesas da co-propriedade, muito elevadas.Durante esses anos, vivia sozinha em Neauphle, e por isso durante muito tempo não conheci ninguém no hotel das Roches Noires. Se me instalasse em qualquer parte a passar o Verão era em Neauphle-le-Château, onde conhecia a aldeia inteira.

Nunca estive onde pudesse sentir-me bem, sempre andei a reboque, à procura de um lugar, de uma ocupação do tempo, nunca estive onde queria estar, a não ser em Neauphle talvez, certos anos no Verão, numa certa infelicidade feliz. Nesse jardim fechado de O Homem Atlântico, o desespero de o amar, a ele, foi nesse jardim que está agora abandonado. Vejo-me ali, ainda retraída em mim, presa no gelo dos jardins desertados.

Sou uma pessoa que nunca está a horas para as refeições, para os encontros, cinema e teatro, aviões, é sempre no limite. Desconfio tanto de mim, agora, que chego ao teatro com uma hora de antecedência. Vejo outras pessoas chegarem a correr com medo de estarem atrasadas, fico encantada. Sempre cheguei à praia quando as pessoas se iam embora. Nunca me bronzeei na praia porque odeio banhos de sol, areia na pele e no cabelo. Bronzeei-me a guiar o meu carro ou a passear em Espanha ou em Itália.

No entanto e durante grande parte da minha existência desejei ardentemente ser capaz de tomar banhos de sol. Isso durou. Elaborava sistemas para fazer tudo o que os outros faziam. Era assim que chegava atrasada a toda a parte, e ficava desolada. Fazia aquilo como os outros, ia à praia, mas ao fim da tarde. Fazia as coisas por metade, só para ficarem feitas, e não funcionava. Lamento muito ter sido assim, disciplinada mas nunca satisfeita. Sempre dei por mim no fim de cada Verão como uma tonta que não percebe o que se passou mas que percebe que é demasiado tarde para poder viver o que se passou. Há uma coisa que sei fazer, é olhar o mar, poucas pessoas escreveram sobre o mar como eu em L´Été 80. Pronto, é isso: o mar em L´Été 80 é o que eu não vivi. É o que me acontece e eu não vivi, é o que eu fui pôr num livro porque não podia viver. Sempre esta passagem do tempo em toda a minha via. Em toda a extensão a minha vida.”

‘A vida material’ de Marguerite Duras, tradução de Tereza Coelho, Difel, Lisboa, 1994 (ed. or. 1987); pp. 9-11.

‘Palestina’, romance de Hubert Haddad

“À escuta, Falastìn abranda o passo sem virar a cabeça. Um ligeiro ruído nas suas costas fá-la reter o fôlego. Não é que se sinta apreensiva, o medo não a atinge; mas a tristeza invade-a, semelhante a um desejo de destruição, a um gosto brusco pela queda, sempre que sujeita a qualquer ameaça, física ou moral. Apesar disso, recompõe-se  e demonstra indiferença. Nada se pode contra o verdadeiro desprendimento. E esse constrangimento que a si própria impõe liberta, pouco a pouco, o seu espírito do perigo: já não tem costas. A paisagem arrebata-a de novo; avalia-a, inteira, como o pássaro de asas ciumentas. As altas colinas a leste de Hebron são dobras grossas na cabeça de um Golias: vê-se a sua face deitada sobre o local, o enrugamento das arcadas e as mandíbulas. A norte, na direcção do vale de Bekaa, de onde parte o sector sul do muro de segurança, distinguem-se as novas obras das estradas que ligam Harsina a Kiryat Arba, reservados aos colonos. Reduzidas a pó, as casas destruídas nesse eixo, vinte e duas nas últimas semanas, tingem a giz a sangria dos tanques e buldózeres gigantes. Para lá da mais antiga implantação colonial do protectorado, cidadela de betão acima da cidade velha, tudo passou sob as lagartas dos blindados: quintas, vinhas e pomares, com o objectivo confesso de criar uma continuidade territorial do lado de Diar al-Mahawer e na direcção de Wadi al-Groos. Centenas de dounous de terra vital foram anexadas pelo ocupante. Sem contar com as confiscações dos diversos sectores que envolvem as partes norte e noroeste de Kiryat Arba, transformados em novos aterros para a circular privada que liga Jerusalém aos colonatos ilegais do centro de Hebron: Tel-Rumeida, Beit Hassadah, Beit Romano, Avraham Avinu…

Falastìn escuta o ruído dos seus próprios passos. Não será tudo ilegal à volta dela? O país é tão estreito que o menor abuso depressa se repercute em todo o lado. Do alto da colina, se ela tivesse forças para a subir, alargar-se-ia a perspectiva dos territórios cedidos, sucata disseminada como as manchas de um leopardo, demarcados por absurdas balizas de betão e arame farpado, entre o mar Morto e o deserto; algumas dezenas de quilómetros de um país enclausurado entre quatro pedaços de horizonte. Chegar a Belém, Ramallah ou mesmo a Nablus, levava outrora menos tempo do que alcançar hoje a porta ao lado, graças aquela loucura de obstáculos de todos os géneros. Para lá dos bairros emparedados de Hebron, entre duas colinas desflorestadas, as tendas dos campos de refugiados de al-Arkop ondulam ao ar coberto de poeira. Os disparos prolongados aí dia e noite, assim como nas cidades vizinhas de Dora e Kharsa. E por todo o lado o mesmo, naquela Cisjordânia despedaçada a que colonos desembarcados de Nova Iorque ou de Paris, reclamando-se seus derradeiros herdeiros, chamam Judeia-Samaria.”

‘Palestina’ de Hubert Haddad, tradução de Ana Cristina Leonardo, Edições Quetzal, 2009, pp. 43-44