Quando os violinos se calaram, de Alexander Ramati

Alexander RamatiBaseado em relatos verídicos retratando as atrocidades cometidas sobre o povo Cigano durante o holocausto, Quando os Violinos se Calaram foi escrito em 1985 por Alexander Ramati, tendo sido posteriormente adaptado para cinema, pelo mesmo autor.

“O clarim ressoou pelo campo com uma estridência assustadora. No gabinete abafado, o Dr. Mengele e um corpulento oficial das SS chamado Friedrich Borger discutiam o aspecto associal dos Ciganos, o qual ninguém, nem sequer o Terceiro Reich, parecia capaz de domar. Não havia dúvida de que eram arianos, defendia Mengele, e dentro de cem anos a sua pele e o seu cabelo podiam até tornar-se mais claros, e os seus olhos, azuis – as suas experiências tinham demonstrado que isso era inteiramente possível. Contudo, cem anos dificilmente seria tempo suficiente para alterar o hábito milenar de nunca se fixarem como gente civilizada.

Quando o clarim soou, ele olhou de relance para mim.

– Que pena! – suspirou, como o clarim tivesse tocado para mim. – Vamos embora. – Virou-se para Borger, agarrando a sua bata. Depois, estalou os dedos. – Vem comigo, Dolmetscher. – À frente de desconhecidos, ele nunca me tratava pelo nome próprio.

Lá fora, um grupo de oficiais e subalternos aguardava a chegada de Mengele e de Borger, enquanto guardas armados das SS e kapos alinhavam raparigas ciganas de um dos lados da Lagerstrasse. Uma voz numa das torres de vigia anunciou repetidamente que aquilo era uma transferência de mulheres válidas para ajudar a Alemanha no seu esforço de guerra e que não havia motivo para alarme. Entraram seis camiões no campo e deram a volta, ficando com as rodas da frente tranquilizadoramente apontadas para a saída do campo, em sentido contrário ao do crematório. Os gritos de protesto cessaram, e a disposição das prisioneiras melhorou.

(…)

[Mengele] aproximou-se lentamente das mulheres do nosso barracão, e eu, com o coração acelerado, vi a minha mãe. Os seus olhos estavam esperançosamente fixos em mim, como se a minha presença também a protegesse. Mengele reconheceu-a e não ergueu a chibata, e depois prosseguiu. Respirei mais calmamente; a minha mãe dirigiu-me um sorriso triunfante e agradecido pelo canto da sua boca pálida. Ainda estávamos juntos, ainda éramos uma família.”

Quando os Violinos se Calaram de Alexander Ramati, in Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, pp. 297-298

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