Arquipélago de Gulag, de Alexander Soljenitsine

20651233“Entre os emigrados encontrava-se Igor Tronko, da minha geração. Travámos amizade. Ambos estávamos enfraquecidos, chupados, com a pele amarelada e engelhada recobrindo os ossos. (Porque é que nos deixamos abater tanto? Penso que devido ao desconcerto espiritual.) Tanto eu como ele éramos magros e altos. Agitados pelos impulsos do vento estival, no pátio de recreio de Butirki, andávamos sempre ao lado um do outro, com um passo cuidadoso de velhos, discutindo as nossas vidas paralelas. Nascemos no mesmo ano, no Sul da Rússia. Ainda mamávamos, quando o destino remexeu na sua velha bolsa e me estendeu a mim uma palhinha curta e a ele uma comprida. A sua sina atirou-o para lá dos mares, embora o seu pai, pretenso guarda branco, fosse um simples e modesto telegrafista.

Para mim era deveras interessante imaginar, através da vida dele, toda a minha geração de compatriotas que ali se encontrava. Eles tinham sido criados sob uma boa protecção familiar, com modesto desafogo ou mesmo com dificuldades. Eram todos muito bem-educados e, de acordo com os seus meios, instruídos. Cresceram, sem conhecer o medo e repressão, embora um certo peso dos dirigentes das organizações de brancos se exercesse sobre eles, enquanto não se tornaram adultos. Cresceram dum modo tal que os vícios do século, que envolviam toda a juventude europeia (…), não os abrangeram, pois desenvolveram-se à sombra da indelével desgraça das suas famílias. Em todos os países onde tinham estado só reconheciam a Rússia como sua pátria. A sua formação espiritual era baseada na literatura russa, tanto mais amada, porque para eles significava o princípio e o fim da sua pátria, a qual, naquele momento, não existia senão como um facto geográfico e físico. As publicações contemporâneas eram-lhes mais acessíveis do que a nós, mas precisamente as edições soviéticas, quase nunca chegavam até eles, e sentiam essa lacuna de um modo agudo, parecendo-lhes que, por isso, não podiam compreender o que havia de mais importante, o que havia de mais elevado e belo na Rússia Soviética. Tudo o que conheciam tinha para eles um ar de deturpação, de mentira, de algo incompleto. As ideias que possuíam sobre a nossa vida autêntica eram das mais pálidas, mas a saudade pela pátria era tal que se no ano de 41 tivessem feito apelo a eles, todos acorreriam ao Exército Vermelho e mesmo mais gratamente para morrer do que para ficar vivos.

(…)

Passávamos longo tempo deitados um ao lado do outro nas tarimbas. Eu aprendi quanto pude do seu mundo, e este encontro abriu-me (o que depois outros encontros confirmaram) à ideia de que sumira pela vala de escoamento da guerra civil uma parte considerável das nossas forças espirituais, privando-nos de um ramo da cultura russa. E todos os que a amam verdadeiramente aspirarão à reunificação dos dois ramos – o da metrópole e o do estrangeiro. Só então ela atingirá a plenitude, só então ela poderá desenvolver-se sem entraves.”

 

Arquipélago de Gulag de Alexander Soljenitsine, Livraria Bertrand, 1975, pp. 234-235