O Murmúrio do Mundo, de Almeida Faria

«O Murmúrio do Mundo», Tinta-da-China, 2012

«A rebatizada Mumbai, com mais habitantes que Portugal inteiro, é hoje cousa gigantesca e capital do estado de Maharashtra. O aeroporto internacional cheirava a mofo apesar do ar condicionado, um bafio que a memória me trouxe misturado com imagens de outros aeroportos, noutros trópicos, Rio de Janeiro, Salvador, Aracaju, Recife, Bissau, Dakar, São Tomé, Luanda a seguir ao Natal, quando cheguei à porta do avião e a primeira baforada de abafada humidade me deixou incapaz de respirar. Mas aquelas distantes descidas em terras tropicais eram uma visão arcádica quando comparada com a multidão sonâmbula que cercava o carrossel das bagagens às duas da madrugada em Mumbai, e se esgueirava uma hora mais tarde diante dos funcionários alfandegários de fardas às três pancadas, fixando-nos como se fôssemos aves raras. Fora, no calor compacto, odores fortes a gases de automóveis, a sujidade, a suor. E crianças-rapazes pedindo. Tinham-me aconselhado a nunca dar esmola porque os pedintes não nos largam. O olhar indefeso, a insistência e a idade deles despertaram em mim a tortura da compaixão, a obscura vocação para a culpa, e distribuí ao acaso as rupias acabadas de trocar.»

Almeida Faria (2012) O Murmúrio do Mundo, Tinta-da-China, p. 27-28.

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