Annemarie Schwarzenbach e a Literatura de Viagens nos anos 30 – Jornada Internacional

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Programa:

sexta-feira | 20 de março de 2015


10h00 | Sessão de abertura da jornada e da exposição “No fim de todos os caminhos – Annemarie Schwarzenbach”.

10h15 | Sessão plenária
Moderação | Gonçalo Vilas-Boas
Sofie Deckok (Univ. Gent) / Uta Schaffers (Univ. Koblenz): Intercultural encounters in travel texts of A. Schwarzenbach and E. Maillart: perspectives from literary studies and linguistics

11h15 | Intervalo

11h30 | sessão 1
Moderação: Teresa Martins de Oliveira
Mário Matos (Univ. Minho): Tourism and propaganda: The travelogue under the banner of the Third Reich
Suzan Massoumi (Univ. Porto): The construction of the self through the Other: Ella Maillart and Afghan journey

12h30 | Almoço

14h30 | Sessão 2
Moderação | Fátima Outeirinho
Gonçalo Vilas-Boas (FLUP): A construção dos espaços nas viagens de Annemarie Schwarzenbach
Emília Tavares (Museu do Chiado): O mundo revelado: a fotografiaa de Annemarie Schwarzenbach
Sónia Serrano: Visões estrangeiras do Portugal da propaganda. Mulheres viajantes entre 1930 e 1950
Renato Roque: Sem Ítaca, não terias partido

16h30 | Intervalo

17h00 | Sessão 3
Moderação | Mário Matos
Lurdes Godinho (IPLeiria – ILC): ‘Para além de Nova Iorque’ – Imagens de sombra nos textos americanos de Annemarie Schwarzenbach
Fátima Outeirinho (Univ. Porto): Percurso europeus e olhares sobre a Europa: Albert T’Serstevens e Abel Salazar
Ana Isabel Moniz: “Eu passo em toda a parte e não fico em parte alguma”. Luzia, um espírito crítico feminino no início do século XX.
Teresa Martins de Oliveira: Ein Mädchen fliegt um die Welt – o primeiro relato de viagem de Elly Beinhorn.

A via cruel, de Ella Maillart

a via cruel_ella maillart“Tchorouk ‘empurrava’ o nosso  [da autora e de ‘Cristina’, pseudónimo no livro da escritora também suiça Annemarie SchwarzenbachFord ao assalto do antigo Bayezid: oito quilómetros de caminho às curvas, frequentemente reduzido ao rochedo polido por séculos de uso. Bayezid era enquadrado por falésias com estrias esverdinhadas e vermelhas de efeito esplêndido. Mas o olhar voltava sempre para o promontório onde a cidadela altiva e luminosa erguia o seu minarete para o céu: Montserrat islâmico e solitário nesta sierra arménia.

Deixámos o carro no meio da aldeia em degraus: estava prestes a entrar em coma. Demos início à nossa caminhada, acompanhadas por uma população tristemente vestida de qualquer maneira. Os homens eram altos e esguios, com rostos sombrios. Só havia um rapaz bem vestido: seu pai, Geórgio, possuía a única mancha de verdura existente nas cercanias, um jardim entalado a meia altura nos destroços da chanfradura. Aluno no colégio interno de Erzurum, sabia um pouco de francês.

Atingimos finalmente o longo muro dessa fortaleza com reflexos de ferrugem. Construído de pedras unidas com uma bela precisão, o castelo compunha-se, consta, de trezentos quartos, todos eles em ruínas nos nossos dias. Nenhum rasto de tijolos envernizados, de placas esmaltadas ou de mosaico, sendo a única fantasia umas lajes pretas e brancas aos quadrados no lado de uma sala de recepção com magníficas janelas. Apreciei a sobriedade dos pátios ligados entre si por portas em arcos de volta inteira. Lanços de muralha ricamente esculpidos com árvores da vida davam uma nota de sumptuosidade ao conjunto. Canalizações atestavam que outrora a água corrente vinda da montanha alimentava a cidadela. As vastas cozinhas tinham o tecto em abóbada onde dois arcos imensos se cruzavam em ângulo recto.

O tempo e os líquenes tinham tingido de laranja as pedras quadradas da cúpula da mesquita; e noventa graus levavam ao topo do minarete ornamentado por bandas horizontais. Da pequena varanda circular que oscilava ligeiramente sob as rajadas, o espectáculo era impressionante, comovente mesmo. Além das cabanas de Bayezid esmagadas aos nossos pés, o vale grande e triste humilhava-se perante a magnificência do Aratat com o seu cume cheio de neve. Não muito longe de nós, uma massa de falésias vermelhas estava coroada por fortificações audaciosas. Na face de uma parede, e como que para nos lembrar que estávamos na Ásia, encontrava-se a abertura quadrada de um túmulo como o de Dario em Persépolis; mas, nos baixos-relevos sobre os lados, homens evocavam a Assíria. Depois de escalar um rochedo arriscado, consegui lá chegar para descobrir que já não havia nada no seu interior. E perguntei-me quem é que teria mesmo querido ser enterrado nesse ninho de águia.”

Ella Maillart in ‘A via cruel’ Editora Civilização, Tradução de Munique Rutlet,  (1996) pp.65-67

Morte na Pérsia, de Annemarie Schwarzenbach

morte na pérsia“Em Abala, as mulas estavam à nossa espera. Eram oito da manhã, o sol deslizava pelo desfiladeiro, descendo na nossa direcção. Atrás de nós, estendia-se a estrada que atravessa a planície desértica e abafada de Teerão, depois sobe um mar parado de colinas, onde percorre as dunas amarelas para chegar ao cimo do desfiladeiro, e daí desce a pique em curvas assustadoras até à ravina de Rudenhen. Duas horas de carro, mas agora estava tudo muito longe, agora tudo desaparecia – à nossa frente, um novo dia!

O nosso trajecto levou-nos primeiro por um vale estreito soterrado entre colinas. A vegetação nas margens do ribeiro parecia não caber no espaço que tinha e tocava nos campos das encostas como se transbordasse de um cesto. Havia um pomar de nogueiras, logo acima das videiras.

Depois começava o desfiladeiro. Vi Claude avançar à frente, o chapéu colonial descaído sobre a nuca. As mulas pisavam pacientemente o cascalho com os seus cascos pequenos. O desfiladeiro era muito alto, lá em cima apenas ventos e nuvens rápidas, e sobre a planície muito distante as nuvens dissolviam-se e não víamos mais do que um mar de céu e de terra desolada que se estreitavam num abraço sufocante.”

Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia, Tinta-da-China, pp.23-24.