“Periplus Hannonis”

O texto, também conhecido como ‘Périplo, ou circumnavegação de Hanon’ (ou Hanão), relata as expedições do almirante cartaginês – que viveu por volta do séc. VI A.C. – no sentido de explorar e colonizar as costas atlânticas a sul do Estreito de Gibraltar. Ao seu irmão, Hilmincon, de cujos relatos directos não há registos na actualidade, coube explorar as costas europeias a norte desse mesmo Estreito.

A versão que transcrevemos é citada a partir do livro de C. Finzi ‘Nos confins do mundo’, publicado em tradução de João da Fonseca Amaral pelas Edições 70 em 1979 (pp. 92-94).

“Viagem de Hanon, rei dos Cartagineses, nos países Líbios, para lá das Colunas, que ele dedicou no tempo de Cronos, revelando estas coisas:

I. Os cartagineses decidiram que Hanon navegasse para lá das Colunas de Hércules e fundasse cidades de Líbio-fenícios. Ele fez-se, pois, ao mar com sessenta naves de cinquenta remos cada e cerca de três mil homens e mulheres, víveres e outros objectos necessários.

II. Depois de ter ultrapassado as Colunas e navegado dois dias, fundámos uma primeira cidade a que chamámos Thymiaterion. Junto a esta ficava uma vasta planície.

III. Dirigimo-nos depois para ocidente, chegámos a Solocis, um promontório líbio coberto de árvores.

IV. Tendo ali fundado um templo a Poseidon, navegámos em direcção a oriente, durante meio dia, e atingimos uma lagoa não distante do mar, coberta por uma grande quantidade de altas canas, onde passavam elefantes e muitos outros animais selvagens.

V. Passada esta lagoa e tendo navegado durante um dia, fundámos na costa as cidades chamadas Karikon, Gytte, Akra, Melitta e Arambys.

VI. Partidos dali, chegámos ao grande rio Lixus que vem da Líbia. Perto dele, nómadas chamados Lixitos apascentam os seus rebanhos. Estivemos algum tempo com eles e tornámo-nos amigos.

VII. No interior, em relação a eles, vivem Etíopes inóspitos, numa terra cheia de animais ferozes e atravessada por grandes montanhas. Eles dizem que o Lixus nasce ali e que entre aquelas montanhas habitam Trogloditas de estranha aparência, que, segundo os Lixitos, são capazes de correr mais do que os cavalos.

VIII. Levando alguns intérpretes Lixitos, movemo-nos para Sul, ao longo do deserto, durante dois dias e, depois, durante um dia, para Oriente. Encontrámos, então, uma ilha com a circunferência de cinco estádios, ao fundo de um golfo. Deixámos aí alguns colonos e demos-lhe o nome de Cerne. Calculámos, pela nossa viagem, que estava situada numa posição oposta a Cartago, porque as viagens de Cartago às Colunas e das Colunas a Cerne eram iguais.

IX. Daqui, passando por um grande rio chamado Chretes, chegámos a um lago no qual se encontravam três ilhas maiores do que Cerne. A um dia de viagem dali, alcançámos o fundo do lago, dominado por altíssimas montanhas, cheias de selvagens vestidos de peles de animais que nos atiraram pedras e não nos deixaram desembarcar.

X. Partindo dali, chegámos a um outro rio, grande e largo, cheio de crocodilos e hipopótamos. Dali, voltámos e regressámos a Cerne.

XI. Navegámos dali para Sul durante doze dias, flanqueando a costa, toda ocupada por Etíopes, que não se detiveram lá e que fugiram diante de nós. A sua língua era incompreensível, mesmo para os nossos Lixitos.

XII. No último dia, ancorámos perto de umas altas montanhas, cobertas de árvores de madeira aromática e variegada.

XIII. Depois de contornar estas montanhas, durante dois dias, chegámos a um golfo imenso, da outra parte do qual ficava uma planície, onde, de noite, víamos pequenos e grandes fogos a brilhar, aqui e ali, a intervalos, ora mais ora menos.

XIV. Feita aqui provisão de água, continuámos a navegação durante cinco dias, ao longo da costa, até atingirmos um grande golfo a que os nossos intérpretes chamaram o Corno do Ocidente. Havia nele uma grande ilha e na ilha uma lagoa salgada na qual se encontrava uma outra ilha em que desembarcámos. De dia, não víamos mais do que uma floresta mas, de noite, apareceram-nos muitas fogueiras e ouvimos sons de flauta, um bater de címbalos e de tambores e um grande rumor de vozes. Fomos tomados de medo e os adivinhos ordenaram-nos que abandonássemos a ilha.

XV. Partimos dali à pressa e flanqueamos uma costa em fogo, cheia de perfume de incenso. Grandes rolos de fogo desciam para o mar e não nos podíamos aproximar da terra por causa do calor.

XVI. Assaltados pelo temor, partimos à pressa e, durante quatro dias de navegação, vimos de noite a terra cheia de chamas. No meio via-se uma chama mais alta do que as outras, que parecia chegar às estrelas. De dia viu-se que era uma montanha altíssima, chamada o Carro dos Deuses.

XVII. Dali, navegando durante três dias, a par de rolos de chamas, alcançámos um golfo chamado o Corno do Sul.

XVIII. Ao fundo deste golfo havia uma ilha, como a primeira, com um lago dentro do qual havia uma outra ilha cheia de selvagens. As mulheres eram muito mais numerosas, tinham o corpo coberto de pêlos e os nossos intérpretes chamavam-lhes gorilas. Seguindo-os, não fomos capazes de agarrar nenhum macho, porque estes, habituados a saltar sobre o precipício, desataram a fugir, defendendo-se a atirarem-nos pedras. Agarrámos, porém, três mulheres, que, mordendo e arranhando, os que as levavam os não queriam seguir. Matámo-las e tirámos-lhes a pele, que levamos para Cartago. Tendo-nos acabado os víveres, não navegámos para diante.”

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