A minha viagem pela Europa, de Charlie Chaplin

Charlie chaplin a minha viagem pela europaAssim, deambulámos pelo sul de Londres, por Kensingnton Cross e Kennington Gate, Newington Butts, Lambeth Walk e Clapham Road e por todas as redondezas. Quase todos os passeios me traziam memórias, a maior parte delas memórias ternas. Estava ali mesmo, no centro da minha juventude, mas, de algum modo, parecia distante de tudo. Sentia-me como se estivesse a observar tudo através de um vidro. Podia ver tudo com grande nitidez, mas quando tentava tocar-lhe não conseguia – apenas podia sentir o vidro, este vidro que tinha sido coberto pelos anos passados desde que partira.

Se apenas pudesse atravessar o vidro e tocar na coisa viva e real que me tinha chamado de volta a Londres. Mas tal não era possível.

Um homem não pode regressar. Ele pensa que sim, mas outras coisas se passaram na sua vida. Tem novas ideias, novos amigos e novas ligações. Não pertence ao seu passado, excepto pelo facto de que o passado terá deixado, talvez, marcas nele.

Os meus amigos e eu continuamos o nosso passeio; um passeio às vezes tão recheado de interesse para mim que me esqueço que tenho companhia e deambulo sozinho.

Quem é aquele velho vagabundo, ali, junto da carroça? Outro marco. Olho para ele mais de perto. Está igual, ainda mais do que antes. Lembro-me dele, do velho homem dos tomates, Tinha cerca de doze anos quando o vi pela primeira vez e ele continua aqui, no mesmo local, trabalhando no mesmo velho ofício, enquanto que eu…

Consigo imaginá-lo, tal como o vi pela primeira vez, parado ao lado da sua carroça redonda carregada de tomates, com as suas roupas gordurosas, brilhantes de sujidade, o seu único olho vidrado, espreitando de um dos lados da cara, não olhando para nada em particular, mas dando a sensação de que estava a ver tudo, o nariz de batata com a sua rede de veias declarando dissipação.

(…)

E ele continuava ali. Permanecera sob o sol de vários Verões e a neve de vários Invernos e continuava firme. Apenas um pouco mais decrépito, um pouco mais velho, mais decaído, as suas roupas mais gordurosas, os ombros mais encurvados e o seu único olho mais embaciado e, consequentemente, não tão atento como antes fora. E esperei. Mas ele já não anunciava os seus produtos. Até o seu bom pulmão estava a falhar. Limitava-se a ficar ali, inerte na sua velhice. E, de algum modo, os seus tomates não tinham o mesmo bom aspecto de antes.”

Charlie Chaplin, A minha viagem pela Europa, Tradução de Alexandra Cardoso, Matéria-prima edições, 2011 (ed.or. 1922),  pp. 121-122

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