Diários Portugueses, de Curt Meyer-Clason

fotoK_Curt-Meyer_Diários PortuguesesRetrato acutilante de um estrangeiro sobre o Portugal no início dos anos 70. Curt Meyer-Clason destacou-se como tradutor e escreveu a maior parte destes “Diários Portugueses” enquanto ocupava o cargo director do Goethe Institut entre os anos 1969-1976.

“Pois é, ninguém diz uma palavra sobre Portugal, sobre o seu presente soterrado, sobre o seu futuro hipotecado. Mas, quem é este Ninguém? Naturalmente, ninguém, todos e cada um dos que nem pensam nas pessoas deste país, nada têm que ver com ele, mas apenas agem como se. Como se. Os gestores da cultura das nações ocidentais olham do alto do seu camarote, pachorrentos, entediados, para o palco dos acontecimentos portugueses, a maior parte das vezes sorriem sem darem por isso, ou bocejam sem darem por isso. Falam com os Portugueses, geralmente num francês mediano, se não forem franceses, e por isso não reconhecem as suas particularidades, o seu valor específico, porque não aprofundam a língua. Assistem a tudo como a uma corrida de cavalos, sem nela participarem. Eles e todos os outros estrangeiros que se aproveitam da situação guardam obviamente para si aquilo que pensam. E os naturais do país baixam o olhar quando uma palavra impensada aborda a actualidade portuguesa, ou então atravessam o interlocutor com o olhar e deixam-lhe a liberdade de escolher entre estar a ser ignorado, posto a nu ou crucificado. Eles, todos, parecem estar de acordo numa coisa: o silêncio, e sobretudo o silêncio que oculta alguma coisa, é de ouro, para além de poupar os nervos e de ser o menor dos males e o menor dos sacrifícios. Para quê criar problemas para si, e também para os outros? A vida é tão curta e pode ser tão agradável – especialmente em Portugal. E é claro que todos «amam» este país, dizem, e isso quer dizer: as suas praias sem fim e sem gente, os seus vizinhos saborosos e baratos, especialmente o verde, os seus bordados a preços baixos, feitos à mão, as criadas submissas (encargos sociais é coisa que praticamente não existe), a grande variedade de peixes… E então, meu caro, isto não é fantástico? E as hortaliças, aqueles enormes pimentos, em travessas de estanho nas montras, parecem pinturas de Braque, e ao fundo esta luz viva de Portugal, as mais puras transparências, indescritível… Ah, se eu pudesse pintar tudo isto, este céu reverberando de aromas, é de perder a cabeça, um abismo de encantamento em que desejamos afundar-nos, sozinhos, completamente a sós, e ir desaparecendo pouco a pouco…” (1971)

Curt Meyer-Clason, “Diários Portugueses (1969-1976)”, Documenta (2013; ed. or. 1997), Tradução de João Barrento. pp.136-137