‘Pátria, lugar de exílio’ de Daniel Filipe

daniel filipe - pátria lugar de exílio - capa

Excertos de um longo poema de Daniel Filipe (1925-1964; poeta e jornalista nascido em Cabo Verde) e que remete para o 1º de Maio de 1962, dia muito importante na luta antifascista em Portugal. O poema pertence a um livro com o mesmo título e onde estão também incluídos outros dois conjuntos de poemas: ‘O viajante clandestino’ e ‘A  ilha imaginada’.

Pátria, lugar de exílio

Neste ano de 1962

não como Hazim Hikmet no avião de pedra

mas na minha cidade

livre de ir onde quiser

e no entanto prisioneiro

neste ano de 1962

exactamente

em Lisboa

Avenida de Roma número noventa e três

às três horas da tarde

Neste ano de 1962

encostado a uma esquina da estação do Rossio

esperando talvez a carta que não chega

um amor adolescente

meu Paris tão distante

minha África inútil

aqui mesmo

aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura

cumprindo os pequenos ritos quotidianos

cigarro após o almoço

café com pouco açúcar

má-língua e literatura

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude

e de enjôo crescente

solitário e agreste

invisível aos olhos dos que amo

ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado

com um erro de contas

incapaz de dizer toda a minha ternura

operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa

higienicamente limpo e com os papéis em ordem

vestido de nylon dralon leacril

com acabamentos sanitized

e lugar marcado junto ao aparelho de TV

eu

enjoado de tudo e contemporizando com tudo

eu

peça oleada do mecanismo de trituração

eu

incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia

eu

apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto

eu

neste ano de 1962

exatamente

não ontem mas precisamente às três horas da tarde

pela hora oficial

exilado na pátria

(…)

Pergunto. poderia cantar de modo alheio

dizer outras palavras como quem diz bom dia
poderia acaso ignorar o tempo a tortura a prisão
Bernardino e a pequena rosa
vermelha e orvalhada
insólita no tablier do automóvel azul

Poderia falar dos dias impossíveis
das manhãs sem revolta. do xadrez matemático
jogado interminavelmente
das virgens, dos poentes, do mar da minha infância

Poderia escrever meu amor e pensá-lo
Sem mais nada. sem a rubra mancha de sangue na parede da cela
Sem um nome ou um grito

(…)

Recordo o calor de Julho e o aroma dos pinheiros

amámo-nos sobre a terra

eram três horas da tarde como agora

tínhamos pouco dinheiro

e havia um barco à nossa espera inevitavelmente

Com tudo isso teço o meu próprio disfarce

com a ternura grave que me dás

alimento também certa rosa vermelha

3ª canção

Pátria, lugar de exílio,

geométrico afã

ou venenoso idílio

na serena manhã.

Pátria, mas terra agreste;

terra, apesar da morte.

Pátria sem medo a leste.

Lugar de exílio a norte.

Pátria, terra, lugar,

 cemitério adiado

com vista para o mar

e um tempo equivocado.

Terra, débil lamento

na temerosa  noite.

 Sobre os carrascos, vento,

desfere o teu açoite!

(…)

4ª canção

Roga por nós, ó pátria, ó sonho sem fronteira!,

por nós, a quem recusam a alegria,

a liberdade, o pão de cada dia

a vida verdadeira!

Ó pátria canta! Do teu presepe imaginário,

ergue a voz dulcíssima, magoada,

e estilhaça de esperança as paredes do aquário,

ó pacífica pomba engaiolada.

Contigo iremos pela noite fora,cantando.

« Erguendo rútilas bandeiras

por sobre aldeias, campos, sementeiras,

como os arcanjos portadores da aurora».

Como lobos de súbito

irrompem na planície citadina

carregados de morte

Seu nome é violência

Trazem nas mãos mortíferos sinais

e de órbitas vazias

caminham em silêncio

envoltos na terrível solidão

do crime encomendado

Marginam as esquinas

escondem o rosto sob o aço liso

dos negros capacetes

e anónimos ocultos

pela espessa cortina de ódio e névoa

como robots avançam

A morte engatilhada

espera o momento de partir Agora

Cumpra-se o ritual

Uma voz grita  Viva

a liberdade, O coro lhe responde

pontuado de tiros

Canalhas Temos fome

Arranquemos as pedras da calçada

Ó meu amor resiste

Resiste de olhos secos

Sem lágrimas  Sem medo  Só talhada

no silex da ira

Pronta a dar corpo ao sonho

e entanto testemunha do martírio

companheira e amante

De mãos dadas cantando

abrimos flores às balas assassinas

merecemos a vida

(…)

Neste ano de 1962

primeiro de maio

ao começo da noite

podemos finalmente olhar no espelho a nossa muda imagem

sem temor nem vergonha

Na solidão do quarto, meu Amor

podemos pela primeira vez

deixar de recear futuros julgamentos

e as perguntas silenciosas nos olhos dos vindouros

esquecer a humilhação, o insulto sem resposta

que foi o nosso pão quotidiano e áspero

Agora poderemos ser de novo homens

livres, ainda que presos

mastigando a comida sem o sabor a lágrimas

antes com o sal da esperança

merecido tempero, paga justa da luta

Renegamos o passado maculado de angústias

esquecemos as pequenas diárias covardias

os negócios onde tudo se perde e até a honra

Neste primeiro de Maio de 1962

podemos finalmente sorrir sem amargura

in Pátria, lugar de exílio, pp.13-35, Editorial Presença, 1974.

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