Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente Duarte Barbosa

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Duarte Barbosa (c. 1480-1521) foi um viajante e navegador português, nascido em Lisboa, que acompanhou Fernão de Magalhães na sua primeira viagem de circum-navegação.  Apesar de a sua obra ser um dos exemplos mais antigos da Literatura de Viagens portuguesa, ela é ainda muito pouco divulgada, uma vez que o manuscrito original foi descoberto e publicado somente no início do século XIX.

“A FORMOSA CIDADE DE ORMUZ

Saindo deste mar e estreito, está logo na boca dele uma ilha que não é muito grande, em que está a cidade de Ormuz, que não é tamanha como formosa, de mui altas casas de pedra e cal, cobertas de terrados com muitas janelas. Por a terra ser muito quente, têm as casas todas uns cataventos, feitos por tal maneira, que do mais alto delas fazem vir o vento às mais baixas lógeas, quando o hão mister. Está a cidade muito bem assentada e armada com muito boas praças. Fora dela na própria ilha está uma serra pequena de sal em pedra e algum enxofre, ainda que muito pouco; o sal está em tamanhas pedras como grandes rochedos, de montanhas fragosas, chama-se sal índio e a própria natureza o cria ali, e, depois de moído é muito alvo e bom. Quantas naus vêm a esta cidade todas levam seu lastro dele, porque em muitas partes vale dinheiro.” p.54

“Em esta cidade de Ormuz, posto que é mui rica e abastada de todos os mantimentos é mui cara porque tudo lhe vem de fora, scilicet, de Pérsia e Arábia, e doutras partes donde tudo lhe vem mui prestes, sem haver na ilha cousa de que se eles possam sair, somente sal; e, até água lhe vem de fora da terra firme, e doutras ilhas derredos, para eles beberem, em uns barcos pequenos que chamam terrachas, como atrás disse; e de todo o mantimento e lenha que lhe trazem, assim de fora; estão de contínuo as praças cheias em muita abundância, onde tudo se vende a peso com mui grande regimento e taxa, e qualquer pessoa que falsa peso ou sai da taxa e ordem que lhe dão, é mui asperamente castigado. Vendem as carnes cozidas e assadas a peso, e, assim, todos os outros comeres feitos, e tudo isto tão bem concertado e limpo, que muitas pessoas não mandam fazer de comer em suas casas e das praças comem.” p.57

Duarte Barbosa, Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente, Augusto Reis Machado (introd. e notas), 1946, Lisboa, Agência Geral das Colónias.

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