O Museu da Rendição Incondicional, de Dubravka Ugrešić

o museu da rendição incondicional_dubravka ugresicDa inevitabilidade do ser exilado, segundo a autora croata, num romance que trata a temática da memória, do esquecimento e do próprio exílio a partir do ponto de vista de uma quinquagenária (também ela croata) exilada em Berlim.

“Um exilado sente que o estado de exílio é uma sensibilidade constante, especial para o som. Assim, por vezes sinto que o exílio não é senão um estado de procura e recolha de som.” (p.19)

“O exilado sente que o estado de exílio tem a estrutura de um sonho. Num único momento, de repente, como num sonho, aparecem caras que havia esquecido, ou talvez nunca tivesse conhecido, lugares que vê, indubitavelmente, pela primeira vez mas que sente conhecer de algum lado. O sonho é um campo magnético que atrai imagens do passado, do presente e do futuro. De repente, o exilado vê realmente caras, acontecimentos e imagens atraídos pelo campo magnético do sonho; de repente dir-se-ia que a sua biografia foi escrita muito tempo antes de ser vivida, que o seu exílio não é, portanto, o resultado de circunstâncias exteriores nem de uma escolha sua mas uma mistura de coordenadas que o destino há muito desenhara para ele. Apanhado neste pensamento sedutor e aterrador, o exilado começa a decifrar sinais, cruzes e nós, e de repente, é como se começasse a ler em tudo isto uma secreta harmonia, uma lógica redonda de símbolos.” (pp. 22-23)

Dubravka Ugrešić, “O Museu da Rendição Incondicional”, Cavalo de Ferro, Tradução de Sofia Castro Rodrigues