O Egipto – notas de viagem, de Eça de Queirós

egipto_notas de viagem_eça de queirós“ (…) No meio do dia, azul, cavado, estendido a profundidades terríveis, implacável, o céu do Egipto aterra: compreende-se que os antigos o imaginassem cheio de cólera. Este céu não tem nuvens. As nuvens são os viajantes do céu: transmitem-lhe ideia e intenção, fazem perspectivas luminosas, povoam-no, dão-lhe uma imensa paisagem vaporosa de onde cada um, segundo a feição do seu espírito, tira preciosas obras; poemas, sonetos, quadros, visões.

O céu colabora na nossa vida íntima, vive connosco, acompanha-nos na mudança do nosso ser; é um confidente, é um consolador; invoca-se, fala-se-lhe. Olhar o céu é, nos nossos climas, uma ocasião de viver: instintivamente, voltamos para ele os nossos olhos. O poeta meridional, cheio de imagens e de cores, contempla-o; o burguês trivial admira-o; pela manhã abre-se a janela e vai-se ver o céu! É um íntimo, sempre presente na nossa vida; o nosso estado depende dele; enevoado, entristece-nos; claro e lúcido, alegra-nos; cheios de nuvens eléctricas, enerva-nos. É no céu que vemos Deus… E mesmo despovoado de deuses, é ainda para o homem o lugar de onde ele tira força, consolação e esperança.

A paisagem é feita por ele, a arte imita-o, os poetas cantam-no.

No Egipto não há céu; aquela profundidade lisa, imóvel, sempre, eternamente azul, é um deserto, é uma solidão. O céu do Egipto é um ídolo: as inquietações, os desejos, os tédios, tudo ele vê passar, impassível implacável e azul. Não dá nada, nada diz ao poeta, ao cultivador, ao viajante, ao mendigo. É como um céu de pedra. Parece feito de lápis-lazúli. Irrita pela fixidez e pela perfeição vazia. É o mais terrível dos desertos: é um deserto de abstracção, um deserto sobrenatural.

As nuvens são, pela cor, pela forma, a mais maravilhosa decoração. As nuvens são, quase sempre, a representação fantasmagórica e visível das imagens intuitivas, criadas no nosso cérebro. Gustave Doré compreendeu isso admiravelmente no seu extraordinário D. Quixote. Mas este céu do Egipto nada nos oferece: é mudo, é surdo, é implicativo, é pesado como uma tampa a escorrer de luz.

Imagine-se agora uma planície amarela, de areia, sem uma erva, sem uma sombra; ao fim dessa planície, um monte erguido como uma muralha, duro, a pique, lívido, amarelo também.

Nessa planície, espalham-se túmulos de formas estranhas, em cúpulas, em minaretes, em agulhas, cobertos de crescentes, de mitras, de turbantes, em forma de cubos onde se abrem pequenas janelas cheias de escuridão entre finas colunas trabalhadas, tudo de uma pedra amarela, alisada pelo roçar das areias, lustrosa como o mármore. Por cima, o céu, de um azul irritante, negro, uniforme, hierático!

Um silêncio abstracto, vago, estende-se muito ao longe. Nenhum movimento, nenhuma atitude viva. Às vezes, no alto ar, paira, numa imobilidade de asas, um pássaro negro que reluz como granito polido: é um abutre.

E tudo afogado numa luz intensa, visível como um nevoeiro, fazendo as linhas duras, nítidas, dando expressões aos sepulcros e grandes saliências aos contornos da pedra.

Tudo ali é impenetrável, quieto, mudo, eterno: o ar, o céu, os túmulos. É de uma beleza bárbara. E tudo aquilo está morto e imóvel com uma grande violência…

Caminhamos, calados, sob o peso do sol.”

in ‘O Egipto, Notas de viagem’, Edição de O Independente, 2001, pp.103-105