A via cruel, de Ella Maillart

a via cruel_ella maillart“Tchorouk ‘empurrava’ o nosso  [da autora e de ‘Cristina’, pseudónimo no livro da escritora também suiça Annemarie SchwarzenbachFord ao assalto do antigo Bayezid: oito quilómetros de caminho às curvas, frequentemente reduzido ao rochedo polido por séculos de uso. Bayezid era enquadrado por falésias com estrias esverdinhadas e vermelhas de efeito esplêndido. Mas o olhar voltava sempre para o promontório onde a cidadela altiva e luminosa erguia o seu minarete para o céu: Montserrat islâmico e solitário nesta sierra arménia.

Deixámos o carro no meio da aldeia em degraus: estava prestes a entrar em coma. Demos início à nossa caminhada, acompanhadas por uma população tristemente vestida de qualquer maneira. Os homens eram altos e esguios, com rostos sombrios. Só havia um rapaz bem vestido: seu pai, Geórgio, possuía a única mancha de verdura existente nas cercanias, um jardim entalado a meia altura nos destroços da chanfradura. Aluno no colégio interno de Erzurum, sabia um pouco de francês.

Atingimos finalmente o longo muro dessa fortaleza com reflexos de ferrugem. Construído de pedras unidas com uma bela precisão, o castelo compunha-se, consta, de trezentos quartos, todos eles em ruínas nos nossos dias. Nenhum rasto de tijolos envernizados, de placas esmaltadas ou de mosaico, sendo a única fantasia umas lajes pretas e brancas aos quadrados no lado de uma sala de recepção com magníficas janelas. Apreciei a sobriedade dos pátios ligados entre si por portas em arcos de volta inteira. Lanços de muralha ricamente esculpidos com árvores da vida davam uma nota de sumptuosidade ao conjunto. Canalizações atestavam que outrora a água corrente vinda da montanha alimentava a cidadela. As vastas cozinhas tinham o tecto em abóbada onde dois arcos imensos se cruzavam em ângulo recto.

O tempo e os líquenes tinham tingido de laranja as pedras quadradas da cúpula da mesquita; e noventa graus levavam ao topo do minarete ornamentado por bandas horizontais. Da pequena varanda circular que oscilava ligeiramente sob as rajadas, o espectáculo era impressionante, comovente mesmo. Além das cabanas de Bayezid esmagadas aos nossos pés, o vale grande e triste humilhava-se perante a magnificência do Aratat com o seu cume cheio de neve. Não muito longe de nós, uma massa de falésias vermelhas estava coroada por fortificações audaciosas. Na face de uma parede, e como que para nos lembrar que estávamos na Ásia, encontrava-se a abertura quadrada de um túmulo como o de Dario em Persépolis; mas, nos baixos-relevos sobre os lados, homens evocavam a Assíria. Depois de escalar um rochedo arriscado, consegui lá chegar para descobrir que já não havia nada no seu interior. E perguntei-me quem é que teria mesmo querido ser enterrado nesse ninho de águia.”

Ella Maillart in ‘A via cruel’ Editora Civilização, Tradução de Munique Rutlet,  (1996) pp.65-67