Histórias de Londres, de Enric González

«Há cidades belas e cruéis, como Paris. Ou elegantes e cépticas, como Roma. Ou densas e obsessivas, como Nova Iorque. Londres não pode ser reduzida a antropomorfismos. Séculos de paz civil, de comércio próspero, de empirismo e de céus cinzentos tornaram-na indiferente como a própria natureza. Talvez eu esteja a exagerar. Talvez Londres seja uma projecção do carácter inglês. Não há sentimentalismos, nem excessos de paixão, nem verdades com maiúsculas. Por uma razão ou outra, Londres reúne as condições ideais para que a vida floresça. É difícil não nos sentirmos livres nesta cidade inabarcável e ao mesmo tempo tranquila, sossegada como o musgo dos seus recantos sombrios – uma insignificância vegetal que me comove, que tolice –, onde cabem a arte e o seu reverso técnico, o kitsch, sem se estorvarem mutuamente, onde a Justiça, esse conceito perigoso, metafísico e continental, pesa menos do que a sensatez à escala humana do fair play

GONZÁLEZ, Enric, Histórias de Londres, Tinta-da-China, 2012, p. 31-32

 

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