Da dedicatória “a uma feliz emigração” ao gosto inato das viagens

Do livro “Walter Benjamim: a história de uma amizade” de Gershom Scholem (1897-1982)

 

Photo d'identité sans auteur, 1928 - Akademie der Künste, Berlin - Walter Benjamin Archive

Walter Benjamim, 1928 – Akademie der Künste, Berlin – Walter Benjamin Archive

Gershom Scholem 1925, Domínio Público.

Gershom Scholem 1925, Domínio Público.

“No começo de 1923, [Walter] Benjamim (1892-1940) deu início à tentativa de conseguir uma habilitação em Frankfurt, desta vez em história da moderna literatura alemã. Gottfried Salomon, professor associado de sociologia nesta universidade, intercedeu em seu favor, com grande empenho, junto a uma série de professores influentes. Pude seguir parcialmente e de perto seus esforços, pois passei a maior parte da primavera e do verão junto com ele em Frankfurt. Benjamim sabia que eu havia decidido emigrar da Alemanha no Outono e minha vida tomaria um novo rumo ou, melhor, que o rumo que eu havia planeado seguir há anos só agora se concretizaria. O próprio Benjamim tinha certas reservas em relação à Palestina, justamente naquele ano em que o catastrófico aumento da inflação e o colapso geral das relações interpessoais tornaram aguda para ele a perspectiva de emigração. ‘Quanto à Palestina, neste momento não existe para mim nem uma possibilidade prática, nem uma necessidade teórica de emigrar para lá’, escreveu em Novembro a Rang, quando eu já estava em Israel (…). Em 1922 e 1923, a sua existência material tornou-se possível, graças, principalmente, ao facto de Dora ter-se empregado como jornalista e tradutora de inglês. Quem naqueles dias era pago em moeda estrangeira, como Dora pelo menos em parte, podia flutuar, apesar da queda acelerada do marco.

Nessa época, como última coisa eu queria estudar os manuscritos cabalísticos da grande colecção da Biblioteca Municipal de Frankfurt, e assim fiquei nessa cidade durante quatro meses. «Estudei» diariamente o Talmude por uma hora, e para meu prazer li textos do Zohar, o livro de Daniel e contos de Agnon, no âmbito da Academia Judaica Livre de Rosenzweig, com alguns jovens como Ernst Simon, Nahum Glatzer e Erich Fromm. Ernst Simon me citou então, acerca de seu amigo Fromm, que ainda seguia rigorosamente a tradição ortodoxa do pai, o verso que circulava como «Gebet der kleinen K. J. Ver.» – a Organização dos Estudantes Sionistas: ‘Mach mich wie den Erich Fromm, / Dass ich den Himmel komm’ [Faça-me igual a Erich Fromm / para que possa entrar no céu.]

Fromm e Benjamim foram mais tarde colegas no Instituto de Pesquisa Social, quando Fromm era um dos mais influentes adeptos de uma síntese entre a psicanálise e o marxismo. Naquele tempo, Agnon fixara residência em Bad Homburg, junto com uma série de importantes escritores hebraicos como Ahad Ha’am e Bialik. Eu ia lá frequentemente e, em uma ou duas ocasiões, encontrei algumas vezes Fritz Sternberg na casa de Agnon; mais tarde Sternberg fez amizade com Benjamim no círculo de Brecht, onde, desde 1925, pregava o marxismo. Vivia em Homburg e já estava trabalhando na sua obra-prima, Der Imperialismus (1926). Pouco tempo antes, afastara-se de Buber e dos «socialistas do povo» sionistas, dos quais foi líder de 1918 a 1922, e durante os três ou quatro anos seguintes procurou com os «Poalei Zion» um caminho marxista no sionismo. Ainda era considerado uma das mentes mais capazes da geração mais jovem do sionismo. Era um grande admirador de Agnon, como eu próprio, e se interessou vivamente pelos meus projectos futuros na Palestina, sobre cuja reconstrução socialista escrevera muita coisa. Às vezes, logo após estar com Benjamim, ia directamente à casa de Agnon, onde estavam Sternberg e sua esposa Genia. Não podia certamente imaginar que poucos anos mais tarde Benjamim, que então não demonstrava qualquer interesse pela obra de Sternberg, se encontraria com ele em circunstâncias totalmente diferentes e que Sternberg seria um dos seus mentores marxistas. (…)

Certa vez, Benjamim me levou a visitar Siegfried Kracauer, do Frankfurter Zeitung, que estava internado num hospital por causa de uma insignificância qualquer, e houve uma forte discussão na qual Kracauer, com todo o respeito por Benjamim, expressou claras reservas à sua «ontologia». Todos nós tínhamos mentes bastante afiadas. Muito mais tarde, [Teodoro] Adorno me contou que estivera presente àquele encontro como um jovem estudante e me vira então pela primeira vez.

O abismo à beira do qual se achava a Alemanha em 1923 e a extensão do desespero que tomou conta de Benjamim ao observar as condições alemãs, encontraram toda a sua expressão no presente de despedida que me deu em Berlim, pouco antes da minha partida. Era um rolo escrito, sem título, que ele chamou ‘uma análise descritiva do declínio alemão’. Com pequenas alterações, este texto está incluído, com o título de Reise durch die deutsche Inflation (Viagem pela inflação alemã), no seu livro Einbahnstrasse, publicado quatro anos mais tarde. O rolo ainda reflectia o horror imediato do presente vivido. Foi a primeira obra de Benjamim sobre a situação vigente – a um emigrante, “a uma feliz emigração”, como escreveu na dedicatória a mim. Era-me difícil entender o que podia deter na Alemanha um homem que escrevera isto. No entanto, como prova o seu empreendimento de Frankfurt, ele queria esgotar até o fim a possibilidade de uma carreira académica que pudesse prover o seu intelecto talvez de uma reserva material. Quando nos despedimos, estava bastante optimista a este respeito. Ainda não sabia que “intelecto não pode ser habilitado”, para citar a perversa e insolente frase de Erich Rothacker sobre ele. (pp. 120-122)

(…)

Um gosto inato pelas viagens, uma agitação interna e uma insatisfação com as suas condições de vida como homme de lettres combinavam-se para explicar as inúmeras mudanças de endereço e moradia, de onde recebi cartas e postais nos anos seguintes. Sempre que possível, empreendia uma viagem. A crescente distância entre ele e Dora foi, provavelmente, um factor que contribuiu para esse comportamento, bem como, talvez a morte do pai em Julho de 1926. Deste ano em diante, Paris conquistou um lugar firme no seu coração, onde passou a maior parte do ano, trabalhando na tradução de Proust. Sentia-se vivamente atraído por esta cidade e retornava a ela sempre que possível. Suas obrigações de trabalho, porém, exigiam repetidas estadas prolongadas em Berlim, e suas cartas escritas desta cidade trazem a marca da insatisfação, ao passo que as de Paris são mais relaxadas e até alegres. Nesse interím, lera a Geschichte und Klassenbewusstein, de Lukács, e, sob a influência duradoura deste livro, também o capítulo do primeiro volume do Der Kapital sobre o carácter fetichista da mercadoria (um capítulo obrigatório para todos os intelectuais de coloração marxista), bem como algumas análises comunistas da política actual, como Wohin treibt England? (Para onde caminha a Inglaterra?), de Trótski. Ele procurou meios de ir à Rússia, motivado tanto pelo seu interesse objectivo pelo que estava acontecendo lá quanto por sua decisão pessoal, que tomou nesse meio tempo, de estabelecer relação mais estreita com Asja Lacis. Conseguiu realizar seu intento depois de superar consideráveis dificuldades burocráticas, que o levaram quase a abandonar o plano de viagem. Esteve em Moscovo de 6 de Dezembro de 1926 a 1º de Fevereiro de 1927, provido de diversos adiantamentos sobre trabalhos prometidos, entre os quais um longo ensaio sobre sua viagem, encomendado por Buber para o Die Kreatur. O diário detalhado, no qual se misturam estranhamente suas relações pessoais com Asja Lacis (que não se desenvolveram de acordo com seus desejos), seus contactos com conhecidos e vários funcionários da área da cultura e a descrição aprofundada da fisionomia da cidade e da vida soviética para o projectado ensaio, foi preservado e reflecte fielmente a atmosfera que o levou à decisão de não ingressar no Partido Comunista. Suas cartas de Moscovo eram, compreensivelmente, tão escassas quanto reservadas; em parte eram escritas num papel miserável, que era o que se podia adquirir em Moscovo, e, em contraste total com o seu hábito, a lápis.

Quando leio as cartas que me escreveu nos três anos que medeiam sua viagem a Capri e o nosso reencontro em Paris, em Agosto de 1927, fico consternado ao notar quão pouco a nova mudança discutida se manifestou também neste plano de comunicação pessoal e confidencial. Costumávamos recomendar um ao outro livros e ensaios que nos parecessem importantes ou dignos de notas também para o mundo do outro. Mas suas cartas eram tão pobres em recomendações pertinentes quanto pobre, em títulos relevantes, a lista dos livros que lera realmente até ao fim – uma lista que organizava com cuidado espantoso. Se com a viagem a Moscovo desejara estabelecer contactos literários com a Rússia, só o conseguiu em grau muito limitado; e os desapontamentos que trouxe de lá neste campo não o encorajaram a abandonar sua orientação metafísica. A inspiração que lhe dera Asja Lacis permaneceu infrutífera.” (pp. 129-131)

 

“Walter Benjamim: a história de uma amizade” de Gershom Scholem, Tradução de Geraldo Gerson de Souza, Editora Perspectiva, 1989 (ed. or. 1975)