Paisagens Originais, de Olivier Rolin

Paisagens-Originais“Ele [Henri Michaux] não será portanto um santo. Mas, de qualquer forma, tem necessidade de estar ‘algures’, longe de tudo o que pesa e constrange, beterrabas, pais, possuidores de fortuna, ‘estúpidas ruas satisfeitas’. Longe dos livros, não é preciso acreditar que eles são melhores: ‘Os livros são aborrecidos. Não circulam livremente’. Muito bem, será marinheiro. ‘Um dia, aos vinte anos, veio-lhe uma brusca iluminação. Deu-se conta, finalmente, da sua anti-vida, e que precisava de experimentar o outro lado. Ir encontrar a terra ao domicílio,  e começar a partir do modesto. Partiu’. Embarca em Bolonha, ‘como marujo, numa escuna de cinco mastros’. Quis despedir-me da juventude de Michaux em Bolonha, mas hoje Bolonha já não é mais um porto de onde se parte para os sete mares, apenas uma gare de ferries. Dirigi-me então para Dunquerque, uma das raras cidades das costas francesas que conservam alguma da poesia marítima, o que acentua ainda mais a sua grandiosa ruína. O que me faltava era um lugar feito para as partidas, as revoltas. Dunquerque, porto de desastres, é desta têmpera. Paisagem elementar, gruas verticais, chaminés, tocheiras, pilares, pórticos, sinos e torres sineiras, fumos, as horizontais dos pipe-lines, fios eléctricos, cais, molhes sob as nuvens folheadas, os raios leitosos, nacarados e fuliginosos. Medusas azuladas palpitam na água sombria dos tanques. Eu sabia (pela primeira vez) que tinha mergulhado no verdadeiro, na partida do marujo Michaux. ‘Quanto a mim, regresso à água do oceano. Adeus / Ouvi o ranger dos paquetes, embarco’. Sempre sem livros, o mar, regresso interminável, raramente ameaçador, mais aberto como um espaço sem brilho ofensivo. ‘A grande janela…’. ‘Tinha o mar dentro de mim, o mar eternamente à minha volta’.”

Olivier Rolin, in ‘Paisagens Originais’, Tradução de Jorge Fallorca, Edições Asa, 2000, pp. 83-84.

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