O Cântico da Viagem, de Jacques Lanzmann

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“Fiquei uma semana naquela aldeia cujo verdadeiro nome me escapa. Uma aldeia no fim do mundo onde fui parar após vinte dias de marcha. Nunca tinham visto um indivíduo do meu género. Nem do meu género nem de qualquer outro, aliás. Nenhum gringo se fora jamais perder naquele canto. Portanto, desconfiança! Avançávamos de um lado e outro em direcção à nossa memória. E no mais remoto dessa memória eu era qualquer coisa como um invasor. Qualquer coisa como o carrasco do sol. A minha presença era uma sombra terrível sobre a aldeia. Uma aldeia sem campanário, sem igreja. Uma aldeia da noite dos tempos. Havia dias e dias que caminhava ao seu encontro. E depois, de repente, um dia o caminho parou como se tivesse chegado ao fim de tudo. Mais nada, a não ser alguns rastos deixados na erva abundante.

Então, pus os meus passos sobre essas marcas. Foi demorado, muito demorado. Foi duro, muito duro. Era sempre a subir. Mais. Mais ainda. Mas o que estava eu a fazer ali? Por que tinha tido a ideia deste romance? Basta, não aguentava mais! Ter a ideia, enfim! Mas por que havia eu de tornar a ideia possível? Por que havia de acreditar na minha própria ideia? Acreditar nela ao ponto de lhe dar vida? Acreditar nela ao ponto de fazer surgir do nada aqueles aldeãos? Ao ponto de desejar a queda de um grande transportador? Acreditar nela ao ponto de fazer aterrar ali, um dia, um profeta judeu que vai judaizar aquele punhado de camponeses quéchuas?

Ali estava eu.

E eles estavam agora diante de mim, olhando-me. Quem era eu? Um ser maléfico ou bondoso? Um caçado ou um caçador? Um fantasma? Um espírito do mal? Um enviado do céu? Ou simplesmente um banido dos homens? Não sabiam. Não compreendiam. Assim, observavam-me. Auscultavam-me. Os olhos estavam bons? Os pulmões estavam bons? A respiração era boa? Tinha a urina clara ou escura? Deixara os meus sonhos na folha de coca? A razão na aguardente?

Olhávamo-nos. Medíamo-nos. Impressionávamo-nos.

E depois de repente apareceu aquela mulher. Avançou para mim. Trazia alguns grãos de kinoa na mão em concha. Vá-se lá saber porquê. Talvez eu estivesse a sofrer de fome? De frio? De solidão?

Um homem que sofre não pode ser totalmente mau.”

Jacques Lanzmann in “O cântico da Viagem” – Capítulo “Peru antes de 2000”, Tradução de Maria de Lurdes Medeiros, Publicações Europa-América (2002; ed. or. 1998 “Le Chant du Voyage”) pp.20-21