Estranho em Goa, de José Eduardo Agualusa

estranho em goa“Estou alojado num casario antigo, decrépito, cujas paredes, de um amarelo prodigioso, dir-se-iam perpetuamente iluminadas pelo furor do crepúsculo. Chama-se Grande Hotel do Oriente. Apenas o nome, gravado numa larga placa de madeira sobre a fachada em ruínas, guarda ainda o brilho do passado irrecuperável. Há por aqui, em Goa, muita gente como este meu hotel. Os últimos descendentes da velha aristocracia católica ostentam nomes igualmente improváveis, tão portugueses que nem em Portugal existem mais, e fazem-no com o orgulho melancólico de quem tudo teve, e tudo viu ruir e desaparecer. O povo, no entanto, usa-os sem entendimento, corrompe-os alegremente, à semelhança de um pobre merceeiro que achasse na rua uma edição rara d’ Os Lusíadas e se servisse das suas páginas para rabiscar nas margens a contabilidade do dia.”

José Eduardo Agualusa, Um estranho em Goa, p. 20. Edições Cotovia

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