Viagem de autocarro, de Josep Pla

viagem de autocarro josep plaLivro de viagens pela Catalunha natal de Josep Pla, escritor que viveu até aos 84 anos percorrendo quase todo o séc. XX, e que considerava que para aqueles que levam “uma vida mais ou menos contemplativa” a pressa é “um simples pretexto para perder tempo.” (p. 118)

As viagens são feitas de conversas, mais ou menos cultas, mais ou menos científicas; de monólogos melancólicos com a paisagem; e também de quartos visitados amiúde por búfalos nocturnos.

“O dono acompanha-me ao quarto e damos-lhe uma vista de olhos. É um quarto sem água corrente. A aldeia é pequena. A pensão, modesta. O viajante, um simples vagabundo. Neste tipo de quartos acontece sempre o mesmo: as paredes contíguas aos lavabos – que com certeza neste caso concreto eram lavabos de três andares, três círculos de mármore sobrepostos que me recordaram a rainha Vitória de Inglaterra -, as paredes, digo eu, estavam marcadas por salpicos, resíduos e manchas aquosas. O chão tinha a humidade de um charco renovado e perene.

 Pelo que vejo, meu querido estalajadeiro, as suas paredes e o seu chão sofrem de muita confusão…

– Que quer dizer com isso de confusão?

– Quero dizer que por esta pensão passaram alguns búfalos nocturnos:

– E o que é o búfalo nocturno?

– O búfalo nocturno ou matinal, vai dar ao mesmo, é o cidadão que ao lavar-se emite bufos e sopros, que lança a água de qualquer maneira, espalha a toda a volta a confusão e actua, por assim dizer, como uma força da natureza.

O dono olha-me, cabisbaixo, melancolicamente. Depois pergunta-me:

– E porque será que tantos homens têm o costume, ao lavar-se, de soprar e levantar água, de a fazer dançar com as mãos e com a cabeça? Será algum obscuro atavismo, alguma reminiscência de selva virgem?

– Não faço ideia! Talvez seja porque esses homens querem deixar uma marca da sua passagem pela terra ou para que os vizinhos de quarto se dêem conta da beleza do búfalo… é impossível saber!”

Viagem de autocarro, Josep Pla, Tinta-da-China, tradução de Carlos Vaz Marques, pp.78-79 (ed or. 1942; 2011)

* outro excerto deste livro já anteriormente destacado no blogue pode ser encontrado aqui .

Viagem de autocarro, de Josep Pla

«O sedentário sonha. O viajante vive, ou melhor, supunha-se antigamente que vivia em estado de dispersão, de variedade e, em definitivo, num estado de aérea ligeireza. Tudo na sua deslocação era agradável: as caras novas, os artritos superficiais, as paisagens diferentes. Que vida boa e divertida! Que inveja suscitava o passageiro!

Mas agora as coisas parecem ter mudado muito. Hoje, os viajantes são, acima de tudo, sofredores. Viaja-se simplesmente por necessidade. A simples ideia de uma pessoa ter de se deslocar provoca desassossego. Os únicos seres que se entusiasmam quando vêem pssar algo em movimento são as crianças de tenra idade, assim que deixam de mamar»

Josep Pla (1942, 2011)Viagem de Autocarro, Tinta-da-China, p. 28.