A Pátria, poema de Julio Cortázar

Pátria de longe, mapa,

mapa de nunca.

Porque o ontem é nunca

e o amanhã manhã.

 

Guardo um odor de trevo,

uma rua com árvores,

uma recontagem de mãos,

uma luz sobre o rio.

 

Pátrias, cartas que chegam

e outras que voltam,

pássaros de papel

sobre o mapa voando.

 

Porque o ontem é nunca

e o amanhã manhã.

 

Julio Cortázar in “Papéis Inesperados”, tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de Ferro, Lisboa, 2010, p. 484.

Anúncios

Melancolia das malas

“O Verão vai-se acabando, esta tarde choveu até às cinco e um admirável arco-íris duplo juntou a imagem distante de Cazeneuve com a igreja românica de Saignon; por um momento houve passagem, houve ponte, e para estupefacção de Teodoro, eu exclamei invocações ao Valhala e vi Odin e Freya, compreendi que também para nós, pequenos deuses meridionais, começava o crepúsculo.

(…)

Os dias são mais curtos, Teodoro sente que em breve partiremos e está cheio de caprichos e corre em todas as direcções, com preferência especial por uma cerejeira na qual exercita as garras e tenta assemelhar-se a um quadro de Rosseau com resultados melancólicos. A minha mulher excedeu-se na preparação de um ratatouille, que nos reforça o ânimo à hora de pensar em malas e pneus. Chegou um telegrama de Carlos Fuentes e de Emir Rodríguez Monegal, anunciando uma expedição iminente em automóvel a partir de Ramatuelle; esperamo-los com um assado de cordeiro e a casa bastante varrida; chegou outro telegrama a anunciar que a peste negra alastrava nas suas fileiras, stop. Como se isso fosse pouco, assinavam a mensagem como Charlie Parker. Eu fiquei triste, e esta tarde, depois do arco-íris, pus uns discos de bop, e depois estreei outro de Jimmy Heath, onde um pianista que responde pelo eglógico nome de Cedar Walton deixa cair com uma beleza displicente tudo aquilo que nasce do tema de My Ideal, que é muita coisa.”

in A viagem ao dia em oitenta mundos, Julio Cortázar (pp. 304-306). Editora Cavalo de Ferro

A volta ao dia em oitenta mundos, de Julio Cortázar

in A volta ao dia em oitenta mundos, p.92.

in A volta ao dia em oitenta mundos, p.92.

Ou várias viagens numa só:

“A memória tece-nos e apanha-nos simultaneamente através de um esquema no qual não se participa de forma lúcida; nunca deveríamos falar da nossa memória porque se existe algo que a distingue, esse algo é o facto de ela não ser nossa; trabalha por sua conta, ajuda-nos ao enganar-nos ou quiçá nos engane para nos ajudar; seja como for, de Atenas viaja-se até ao Cabo Súnion num autocarro desengonçado, e isso foi-me explicado em Paris pelo meu amigo Carlos Courau, cronópio infatigável se é que eles existem. Explicou-mo à mistura com outros itinerários gregos, cedendo ao prazer de qualquer viajante que, ao contar o seu périplo, o refaz (é por isso que Penélope esperará eternamente) e ao mesmo tempo saboreia uma viagem de substituição, a mesma que esse amigo ao qual lhe está agora a explicar como se vai de Atenas a Cabo Súnion fará. Três viagens numa só, o real mas já passado, o imaginário mas presente na palavra, e aquilo que outro indivíduo fará no futuro ao seguir os traços do passado e à base de conselhos do presente, isto é, que o autocarro saía de uma praça ateniense por volta das dez das manhã e convinha chegar algum tempo antes porque a carripana se enchia rapidamente de passageiros locais e de turistas. Já nessa noite, nesse inventário de andanças e de monumentos, a aranha fez uma escolha estranha, porque ao fim e ao cabo, que demónios, o relato que Carlos me tinha feito da sua chegada a Delfos, ou a viagem por mar até às Cíclades, ou a praia de Mikonos ao entardecer, qualquer um dos cem episódios que abarcam Olímpia e Mistra, a visão do canal de Corinto e a hospitalidade dos pastores, tudo era mais interessante e incitador do que o modesto conselho de chegar algum tempo antes a uma praça poeirenta para apanhar um autocarro sem correr o risco de não encontrar um assento livre por entre cestas de galinhas e marines de queixadas paleolíticas. A aranha ouviu tudo, e a partir dessa sequência de imagens, perfumes e plintos fixou para sempre a visão imaginária que eu me fazia de uma praça à qual era preciso chegar cedo, de um autocarro à espera por baixo das árvores.”

A volta ao dia em 80 mundos, de Julio Cortázar, Tradução de Alberto Simões, Edições Cavalo de Ferro, 2010 (ed. or. 1967), pp. 92-93.

“O jogo do mundo (Rayuela)”, de Julio Cortázar

37.

“Dava-lhe raiva chamar-se Traveler, logo ele, que nunca tinha saído da Argentina senão para ir a Montevideu e uma vez a Assunção do Paraguai, metrópoles recordadas com soberana indiferença. Aos quarenta anos, continuava colado à calle Cachymaio, e o facto de ser gestor e um pouco de tudo no circo Las Estrellas não lhe oferecia a menor possibilidade de percorrer os caminhos do mundo à boa maneira de Barnum; infelizmente, o raio de acção do circo estendia-se de Santa Fé a Carmen de los Patagones e incluía longas escalas na capital federal, em La Plata e em Rosario. Sempre que Talita, leitora de enciclopédias, começava a interessar-se pelos povos nómadas e pelas culturas transumantes, Traveler grunhia e fazia um falso elogio do quintal com gerânios, da cama apertada e do não saias da rua onde começou a tua existência. Entre dois mates, dava provas de uma sapiência que impressionava a sua esposa, porém parecia demasiado disposto a persuadir. Por vezes escapavam-se-lhe durante o sono vocábulos de desterro, de desarreigo, de trânsitos ultramarinos, de passagens transfronteiriças e coordenadas imprecisas, e quando Talita gozava com ele ao acordar, ele dava-lhe umas palmadas no rabo e os dois desatavam a rir como loucos, como se a auto-traição de Traveler fizesse bem aos dois. Uma coisa havia de reconhecer nele: ao contrário de quase todos os seus amigos, Traveler não deitava as culpas de não ter viajado à vida ou à falta de sorte. Em vez disso, bebia uma genebra de um trago e chamava-se a si mesmo um maldito imbecil.”

Julio Cortázar, “O jogo do mundo (Rayuela)”, Cavalo de Ferro, Tradução de Alberto Simões, 2008 (ed. or. 1963), p.257.

Viagens com os Famas, Cronópios e Esperanças de Julio Cortázar

“Quando os famas vão de viagem, têm por costume, ao pernoitar numa cidade, fazer o seguinte: o primeiro fama chega ao hotel e cautelosamente pergunta os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes. O segundo vai à esquadra da polícia e lavra uma acta declarando móveis e imóveis dos três, assim como o inventário do conteúdo de suas malas. O terceiro fama vai ao hospital copiar a lista dos médicos de serviço e respectivas especialidades.

Terminadas estas diligências, reúnem-se os viajantes na praça principal da cidade, trocam as observações obtidas, entram num café para tomar um aperitivo. Mas antes dão-se as mãos e dançam. Esta dança tem o nome de ‘Alegria dos famas’.

Quando os cronópios vão de viagem, encontram os hotéis cheios, os comboios já partiram, chove a potes, os táxis não os querem levar ou querem imenso dinheiro. Os cronópios não desanimam, pois julgam que isto acontece a toda a gente e, quando se vão deitar, dizem uns aos outros: ‘Bela cidade, belíssima cidade.’ E toda a noite sonham que há grandes festas na cidade e que foram convidados. No dia seguinte levantam-se todos satisfeitos, e é assim que os cronópios viajam.

Sedentárias, as esperanças deixam-se viajar pelas coisas e homens, e são como as estátuas que é preciso ir ver porque elas não se incomodam.”

“Histórias de Cronópios e de Famas” de Julio Cortázar, Tradução de Alfacinha da Silva, Editorial Estampa, Ed. 1999 [1962],  p.111.