“Não nasci em lugar nenhum”, em ‘A vida material’ de Marguerite Duras

“(…) Estávamos sempre dentro de água, na nossa infância nas colónias tomávamos banho nos rios, e duche com água das jarras da manhã e à noite, andávamos descalços em toda a parte excepto na rua, mas era quando se lavava a casa a atirar baldes grandes de água com os filhos dos Boys que era a festa da grande fraternidade entre os filhos dos Boys e os filhos dos Brancos. Nesses dias a minha mãe ria de prazer. Não consigo pensar na minha infância sem pensar na água. O país onde nasci é uma pátria de águas. Água dos lagos, torrentes que desciam da montanha, a dos arrozais, a água, terrosa, dos rios da planície onde nos abrigávamos durante as tempestades. (…) Sou uma pessoa que nunca voltou ao país onde nasceu. Certamente porque se tratava de uma natureza, de um clima, como se fossem feitos para crianças. Quando crescemos, aquilo torna-se exterior, não levamos connosco aquelas recordações, deixamo-las ficar ali onde foram feitas. Não nasci em lugar nenhum.

‘A vida material’ de Marguerite Duras, tradução de Tereza Coelho, Difel, Lisboa, 1994 (ed. or. 1987); pp. 69-70.

O cheiro químico, em “A vida material” de Marguerite Duras

“Em 1986 tinha ficado quatro meses em Trouville, de meados de Junho a meados de Outubro, mais do que um Verão. Logo que me afasto de Trouville tenho a sensação de perder luz. Não apenas a luz vertical do sol pleno, mas a luz difusa e branca do céu coberto e a outra, sombria, das nuvens. No fim do Verão, se estou longe deste lugar perco os céus que saem debaixo do Atlântico, aqueles céus que viajam a long distance.

No Outono perco a bruma do mar alto, o vento, os miasmas petrolíferos do Havre, o cheiro químico. Acordando cedo, é possível ver sobre a praia vazia o traçado das Roches Noires levemente deportado para o Norte. Depois, com as horas, a sombra diminui em altura até desaparecer.

Durante anos estive entre as casas de Neauphle, de Trouville e de Paris. Para não deixar Neauphle, durante dez anos não fui a Trouville, e cheguei a alugar várias vezes no Verão para compensar as despesas da co-propriedade, muito elevadas.Durante esses anos, vivia sozinha em Neauphle, e por isso durante muito tempo não conheci ninguém no hotel das Roches Noires. Se me instalasse em qualquer parte a passar o Verão era em Neauphle-le-Château, onde conhecia a aldeia inteira.

Nunca estive onde pudesse sentir-me bem, sempre andei a reboque, à procura de um lugar, de uma ocupação do tempo, nunca estive onde queria estar, a não ser em Neauphle talvez, certos anos no Verão, numa certa infelicidade feliz. Nesse jardim fechado de O Homem Atlântico, o desespero de o amar, a ele, foi nesse jardim que está agora abandonado. Vejo-me ali, ainda retraída em mim, presa no gelo dos jardins desertados.

Sou uma pessoa que nunca está a horas para as refeições, para os encontros, cinema e teatro, aviões, é sempre no limite. Desconfio tanto de mim, agora, que chego ao teatro com uma hora de antecedência. Vejo outras pessoas chegarem a correr com medo de estarem atrasadas, fico encantada. Sempre cheguei à praia quando as pessoas se iam embora. Nunca me bronzeei na praia porque odeio banhos de sol, areia na pele e no cabelo. Bronzeei-me a guiar o meu carro ou a passear em Espanha ou em Itália.

No entanto e durante grande parte da minha existência desejei ardentemente ser capaz de tomar banhos de sol. Isso durou. Elaborava sistemas para fazer tudo o que os outros faziam. Era assim que chegava atrasada a toda a parte, e ficava desolada. Fazia aquilo como os outros, ia à praia, mas ao fim da tarde. Fazia as coisas por metade, só para ficarem feitas, e não funcionava. Lamento muito ter sido assim, disciplinada mas nunca satisfeita. Sempre dei por mim no fim de cada Verão como uma tonta que não percebe o que se passou mas que percebe que é demasiado tarde para poder viver o que se passou. Há uma coisa que sei fazer, é olhar o mar, poucas pessoas escreveram sobre o mar como eu em L´Été 80. Pronto, é isso: o mar em L´Été 80 é o que eu não vivi. É o que me acontece e eu não vivi, é o que eu fui pôr num livro porque não podia viver. Sempre esta passagem do tempo em toda a minha via. Em toda a extensão a minha vida.”

‘A vida material’ de Marguerite Duras, tradução de Tereza Coelho, Difel, Lisboa, 1994 (ed. or. 1987); pp. 9-11.

“Ir a esse país” em ‘Jardim (Le square)’, de Marguerite Duras

“(…) Não se pode ser tudo ao mesmo tempo, nem querer tudo ao mesmo tempo, como a menina disse, mas eu nunca me recompus dessas impossibilidades, e nunca fui capaz de me resolver a escolher um emprego. Mas afinal, sabe, sempre acabei por viajar bastante mesmo assim, e a minha pequena mala levou-me um pouco por toda a parte, sim, até me levou uma vez para um grande país estrangeiro. Não vendi por lá grande coisa, mas mesmo assim vi-o. E se me tivessem dito, uns anos antes, que ia ter um dia uma grande vontade de o conhecer nem tinha acreditado. Apesar de tudo, está a ver, um dia quando acordei apeteceu-me e fui. Por muito poucas coisas que me aconteçam mesmo assim essa aconteceu-me, está a ver, ir a esse país.

– Mas nesse país há pessoas infelizes, não há?

– Há, é verdade.

– E há raparigas como eu que estão à espera?

– Claro que há, menina.

– Então?

– É verdade que nesse país se morre, e que se é infeliz, e que há raparigas como a menina à espera, cheias de esperança. Mas porque é que não se há-de ir ver esse país em vez deste onde estamos e onde as coisas são iguais? Ver esse país além de ver este, porque não?”

‘Jardim (Le square)’ de Marguerite Duras, tradução de Tereza Coelho, Edições “Livros do Brasil Lisboa” 1993 (ed. or. 1955); pp.36-38.