Final de Romance na Patagónia, de Mempo Giardinelli

Durante os últimos cinco anos eu tinha sonhado intensamente em fazer esta viagem ao sul do Sul da nossa América. Essa região da Argentina que para nós é como um final que não se quer ver, uma espécie de queda do país no verdadeiro fim do mundo. Um território e um limite que está na nossa própria geografia, mas que resistimos a conhecer. Creio que aos nossos irmãos chilenos lhes sucede algo de semelhante, embora eles tenham tido, historicamente, uma relação mais íntima com a sua delgada porção de Patagónia. Talvez porque do lado do Pacífico os Andes recebem boas chuvas, quiçá porque a estreiteza territorial entre a montanha e o mar lhes tem permitido uma olhadela menos dispersa sobre o mundo. Mas nós não, a Patagónia argentina é uma imensidão vazia, um abandono universal cheio de mistério. Para lá de todas as metáforas, a Argentina e o Chile são dois países cujos suis representam, certamente, o verdadeiro finisterra da cartografia americana e mundial.

 

Mempo Giardinelli (2009) Final de Romance na Patagónia, Quetzal, p. 17