O regresso do hooligan, de Norman Manea

 

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O olhar de um exilado (sobrevivente numa “vida depois da morte”) sobre Nova York, antes do seu regresso à Roménia natal.

“(…) As filas amarelas de táxis bloqueados no cruzamento entre a Broadway e a Amsterdam Avenue berram, histéricas com o metrónomo embriagado da manhã. O observador, porém, perscruta já o céu, o vazio, a lenta cronofagia do deserto, as térmitas gigantes das nuvens.

Meia hora depois, está na esquina da rua, diante do prédio de 42 andares em que mora. Nem um só traço estilístico, a mera geometria da montagem: um abrigo, somente, uma sobreposição de caixas habitacionais. Prédio estalinista… resmunga. Não, os prédios estalinistas não atingiam semelhantes alturas. E contudo estalinista, repete, desafiando o cenário de posteridade. Voltaria a ser, naquela manhã, o mesmo de há nove anos atrás? Pasmado, como então, com a novidade da vida depois da morte? Nove anos, como nove meses no ventre repleto de novidades da aventura que oferecia, agora, aquela manhã novinha em folha, como o princípio anterior a todos os princípios.

(…) O quiosque dos jornais do paquistanês, a tabacaria do indiano, o restaurante mexicano, a loja de vestidos, os grandes cestos de frutas e de flores do coreano, melões e melancias, ameixas pretas, vermelhas e verdes, manga do México e do Haiti,(…). Prédios baixos e prédios altos e prédios ainda mais altos, estilos e proporções e destinos misturados, a Babilónia do Novo Mundo e do Velho Mundo e da vida depois da morte.

(…) Não há nada que falte aqui no Paraíso: comida e roupa e jornais, colchões, guarda-chuvas, computadores, sapatos, móveis, vinhos, bijuterias, flores, óculos, discos, candeeiros, velas, cadeados, correntes, cães, pássaros exóticos e peixes tropicais. E comerciantes, saltimbancos, polícias, cabeleireiras, engraxadores, contabilistas, putas, mendigos, todas as figuras e línguas e idades e alturas e pesos povoam a manhã inverosímil em que o sobrevivente celebra nove anos de vida nova.”

 

Norman Manea, O regresso do hoolingan, Edições Asa, Tradução de Carolina Martins Ferreira, 2010 (ed.or. 2003) pp.11-13