As Ilhas desconhecidas, de Raul Brandão

«Olho para isto tão pequeno e tão pobre, para os campos retalhados de muros escuros, para as eirinhas redondas com lajedo de lava e um pau ao meio, a que se junge o boi que debulha o trigo; para os seres e as coisas do mesmo tom apagado e uniforme; olho para a ilha descarnada pelo vento, tão forte de Inverno que o sino tange sozinho, e sinto-me como nunca me senti, isolado no mundo. Que vim eu aqui fazer? Foi esta pedra isolada no mar com alguns seres agarrados às leiras que me levou à viagem? Foi este resto de vulcão, sem paisagem nem beleza, que me trouxe? Mas aqui não há nada que ver! Almas tão descarnadas como o penedo e uma vida impossível noutro mundo que não seja este mundo arredado. A vida natural? O homem pode aguentar-se na vida natural, ou é na vida artificial que está a felicidade? Vestido ou nu? É para a Fusão e a mentira que devem tender os nossos esforços, e a verdade em osso será a imagem da inferioridade e da desgraça?… Tão longe– tão só – tão triste! Mas reparo melhor e lembro-me daquelas palavras dum homem em debate com a própria consciência: – No Corvo, quando me sento à mesa, todos à mesma hora se sentam para jantar, e à noite não há desgraçado sem abrigo.»

Raul Brandão (2011), As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens, Quetzal, p. 11-12.