Jerusalém – ida e volta, de Saul Bellow

jerusalém ida e volta“Aqui, em Jerusalém, quando se fecha a porta do apartamento cai-se num temporal de conversa – exposição, argumento, arenga, análise, teoria, expostulação, ameaça e profecia. Dos diplomatas, podem ouvir-se explicações ardilosas; de pessoas responsáveis, afirmações cautelosas e ressentidas que reformulam e corrigem as nossas perguntas; de pais e crianças, divisões fatais; de amigos que se deixam levar pela emoção, discursos arrebatados, a denúncia furiosa da Europa Ocidental, da Rússia, da América. Escuto com solicitude, com atenção, mais atenção do que alguma vez escutei na minha vida, absolutamente concentrado, mas sinto muitas vezes que caí num mar sem costas.

(…) Está-se numa cidade como muitas outras – bem, não exactamente, pois das cidades antigas que já visitei Jerusalém é a única em que as antiguidades não são expostas como relíquias, mas têm um uso diário. Ainda assim, é uma cidade moderna com serviços modernos. Fazem-se compras em supermercados, diz-se bom-dia aos nossos amigos pelos telefone, ouvem-se orquestras sinfónicas na rádio. Mas, de repente, a música pára e dá-se a notícia de uma bomba terrorista. Mais uma explosão em frente de um café na Estrada de Jafa: seis jovens mortos e trinta e oito feridos. Angustiados, pousamos a nossa bebida civilizada. Apreensivos, vamos para o nosso jantar civilizado.”

Saul Bellow, Jerusalém, ida e volta, Tinta-da-China, pp 48-49.

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