“Tristezas do desterro”, poema de Alexandre Herculano

O desterrado, de Soares do Reis (escultura inspirada no poema de A. Herculano)

O desterrado, de Soares do Reis (escultura inspirada no poema de A. Herculano) © MuseuSoaresdosReis

Tristezas do desterro (fragmento)

Erit tristis et moeretis.
Isai­as.
I

Terra cara da patria, eu te hei saudado
D’entre as dores do exilio. Pelas ondas
Do irrequieto mar mandei-te o choro
Da saudade longi­nqua. Sobre as aguas,
Que de Albion nas ribas escabrosas
Vem marulhando branqueiar de escuma
A negra rocha em promontorio erguido,
D’onde o insulano audaz contempla o immenso
[166]Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos
Não sentida uma lagryma fugiu-me,
E devorou-a o mar. A vaga incerta,
Que róla livre, peregrina eterna,
Mais que os homens piedosa, irá depo-la,
Minha terra natal, nas praias tuas.
Essa lagryma acceita: é quanto póde
Do desterro enviar-te um pobre filho.

No silencio da noite, em sólo estranho,
Patria minha gentil, em ti pensando,
Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
Neste céu achatado, tristemente
Com luz mortiça e pallida, não ricos
De inspiração e amor, quaes lá refulgem.
Pela sombra ameni­ssima, que chama
Do affastado oriente o sol no occaso,
No teu profundo céu has-de tu vê-los:
Do desterrado filho os votos levam:
Acceita-os delles, desgraçada patria!

Já se acercava o tenebroso inverno;
Vinha fugindo a rapida andorinha,
Para um abrigo te ir pedir, oh patria,
Em cujos valles nunca alveja a neve:
[167]Juncto de mim passou: em suas azas
Tambem mandei o filial suspiro.

Pelo dorso das vagas rugidoras
Eu corri de além mar para estas plagas.
Pelas antenas, em nublada noite,
Ouvi o vento sul que assobiava,
E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:
Seu rijo sopro refrescou-me as veias.

(…)

Alexandre Herculano in Poesias, 2ª ed.  (ed. orig, 1850; ed.ut: June 28, 2008 [EBook #25925]; acesso em 17.04.14), pp.166-167