Disse-me um adivinho, de Tiziano Terzani

Disse-me um adivinho_Tiziano TerzaniO livro de viagens Disse-me um adivinho, de Tiziano Terzani (1938-2004), deve a sua origem a uma previsão – referente ao ano de 1993 – que um adivinho de Hong Kong fez ao próprio autor italiano corria o ano de 1975. O adivinho aconselhava Terzani a não viajar de avião, já que o risco de morrer ao deslocar-se desse modo seria elevado. O livro é constituído portanto pelo conjunto de viagens que o autor fez nesse ano, utilizando meios de transporte alternativos, maioritariamente o comboio, mas também o carro, barco e até uma moto.

Estamos perante um magnífico livro de viagens que percorre vários países asiáticos, especialmente na região da Indochina, com um pequeno salto à Europa aquando de uma curta visita do autor a família e amigos. Com uma voz muito própria, descritiva e atenta aos pormenores, mas sempre com uma imagem maior em pensamento, Terzani mantém o contacto permanente com o Outro e dá-nos sobretudo a visão de um ocidental a viver no Oriente e de como o encontro dessas duas civilizações nem sempre foi o melhor. Demonstra ainda uma enorme preocupação em fazer um relato fidedigno do próprio ritual de viajar, dos preparativos, da viagem em si e inevitavelmente dos lugares que visita:

“Cada sítio é um filão. Basta andar por aí. Não ter pressa, estar sentado numa casa de chá a observar quem passa, pôr-se a um canto do mercado, ir cortar o cabelo, e depois seguir o fio da meada que pode começar numa palavra, num encontro, no amigo do amigo de uma pessoa com quem acabámos de nos encontrar, e o lugar mais insípido, mais insignificante do planeta, transforma-se num espelho do mundo, numa janela aberta para a vida, num teatro da humanidade diante do qual poderíamos deter-nos sem necessidade de ir a mais sítio nenhum. O filão está exactamente onde nós estamos. Basta cavar.” (p.331)

Disse-me um adivinho, de Tiziano Terzani, Tinta-da-China, 2009 (Tradução de Margarida Periquito)

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